Afastamentos por burnout disparam e pressionam gastos do INSS
Casos de esgotamento profissional cresceram quase 500% em quatro anos, elevando concessões de auxílio-doença
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 11/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Os afastamentos do trabalho provocados pela síndrome de burnout tiveram um avanço expressivo nos últimos anos e passaram a impactar de forma direta as contas da Previdência Social. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os auxílios-doença concedidos por esgotamento profissional aumentaram 493% entre 2021 e 2024, saltando de 823 para 4.880 casos.
Somente nos seis primeiros meses de 2025, foram registrados 3.494 afastamentos relacionados ao burnout, número que já representa mais de 70% do total concedido em todo o ano anterior. Especialistas alertam que os dados podem estar subestimados, já que o diagnóstico nem sempre é identificado corretamente e trabalhadores informais ficam fora das estatísticas oficiais do INSS.
Burnout como doença ocupacional reconhecida
Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fenômeno relacionado ao trabalho, a síndrome de burnout passou a ter enquadramento mais claro no Brasil a partir de normativas recentes. Em 2023, o Ministério da Saúde reforçou o entendimento do burnout como doença ocupacional, garantindo ao trabalhador o direito ao auxílio-doença com estabilidade após o retorno às atividades.
Em 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego passou a exigir das empresas o mapeamento de riscos psicossociais, como excesso de jornada, pressão por metas e ambientes organizacionais tóxicos. No entanto, após pressão de empregadores, o início das multas por descumprimento da norma foi adiado para maio de 2026.
Impacto financeiro para a Previdência Social
O aumento dos afastamentos por transtornos mentais tem reflexo direto nas despesas públicas. Os gastos com auxílios-doença passaram de R$ 18,9 bilhões em 2022 para R$ 31,8 bilhões em 2024, uma alta de 68%. No mesmo período, as despesas totais da Previdência cresceram quase 20%, chegando a R$ 876,9 bilhões.
Em 2024, o INSS concedeu 472,3 mil benefícios por incapacidade ligados à saúde mental, incluindo depressão, ansiedade e outras síndromes. Em 2025, de janeiro a junho, esses transtornos já respondiam por 271 mil afastamentos, o equivalente a um em cada sete auxílios concedidos no período.
Mudanças no mundo do trabalho e adoecimento
Especialistas apontam que o crescimento do burnout está associado a transformações estruturais no mercado de trabalho. A ampliação do home office, o aumento do tempo de conexão, a informalidade e a chamada “uberização” contribuíram para a intensificação da sobrecarga mental, especialmente no período pós-pandemia.
Além disso, jornadas longas, dificuldades de deslocamento, insegurança financeira e a sensação de disponibilidade permanente são fatores que agravam o quadro de esgotamento. O adoecimento mental, segundo estudiosos, não afeta apenas o período de afastamento, mas compromete a produtividade e a qualidade de vida do trabalhador a longo prazo.
Reflexos na Justiça do Trabalho
O avanço do burnout também tem se refletido no Judiciário. Levantamentos indicam crescimento contínuo das ações trabalhistas que mencionam a síndrome. Em 2024, o termo apareceu em 17,2 mil processos em diferentes instâncias da Justiça do Trabalho. Já em 2025, esse número subiu para 20,1 mil, alta de quase 17%.
De acordo com especialistas em Direito Previdenciário e Trabalhista, as ações relacionadas ao burnout já somam bilhões de reais em passivos para as empresas. Os processos costumam envolver pedidos de indenização por danos morais, estabilidade no emprego e reconhecimento do nexo entre o adoecimento e o ambiente de trabalho.
Desafios para prevenção e acesso ao benefício
Apesar do reconhecimento legal, ainda há obstáculos para que trabalhadores busquem ajuda e tenham acesso ao auxílio-doença. O preconceito em relação à saúde mental e o medo de estigmatização continuam sendo barreiras importantes. Para obter o benefício no INSS, é necessário apresentar atestado médico com a Classificação Internacional de Doenças (CID) e laudos que comprovem a relação entre o adoecimento e o trabalho.
Especialistas defendem que o burnout deve ser tratado como um problema estrutural do trabalho contemporâneo, e não como fragilidade individual. Para eles, a prevenção passa por mudanças organizacionais, políticas de saúde mental e fiscalização mais efetiva das condições de trabalho, sob risco de agravamento do impacto social e econômico nos próximos anos.