Brinquedos feios e vídeos nonsense marcam consumo infantil em 2025

Fenômenos como Labubu, Skibidi Toilet e pelúcias estranhas revelam a lógica viral que molda o consumo infantil neste ano

Crédito: Imagem gerada por IA (ChatGPT/OpenAI)

Labubu, Skibidi Toilet, Pop Mart, mochilas de personagens feios, slimes pegajosas e vídeos caóticos com trilha de TikTok. O que pode parecer um compilado de absurdos para qualquer adulto faz todo o sentido para as crianças em 2025. A nova estética da infância mistura humor nonsense, estímulo sensorial e a lógica viral das redes sociais — e não está só nas telas. Nas lojinhas de bairro, camelôs e plataformas como Shopee, esse universo tomou conta de prateleiras e carrinhos de compra com brinquedos coloridos, barulhentos, esquisitos e baratos — muitos por menos de R$ 50.

Na Feira Abrin, maior evento do setor de brinquedos do Brasil, a tendência foi clara: a moda agora é ser estranho. Pelúcias esquisitas, embalagens exageradas, cores gritantes e sons repetitivos. “O que antes seria considerado de gosto duvidoso virou item desejado”, resume uma das organizadoras. Mas o que isso diz sobre a infância atual?

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A estética do absurdo: o comportamento de consumo infantil

Segundo Paula Kodama, especialista em branding com experiência internacional no setor de moda e comportamento de consumo, essa nova onda vai além da aparência “feia, fofa e absurda”. “As crianças não estão consumindo esses personagens só pela estética. Existe ali um valor emocional, uma empolgação na experiência de compra — seja pela surpresa da blind box, pela sensação de pertencimento ou pelo efeito viral”, explica.

TikTok - Brinquedos - Consumo Infantil
Divulgação/Freepik

Para ela, as escolhas infantis revelam muito mais sobre a lógica adulta do consumo atual. “São decisões moldadas por algoritmos e por um modelo de gratificação imediata. Imediatismo, escassez, viralidade e identidade através do consumo: tudo isso influencia o comportamento das crianças. Só que adaptado ao universo delas.”

Brainrot: o consumo viciado que prende (e preocupa)

No centro dessa nova lógica está o conceito de brainrot, termo que descreve o consumo exagerado de conteúdos digitais repetitivos, desorganizados e altamente estimulantes. São vídeos com cortes rápidos, vozes distorcidas, música alta e pouca linearidade. Mesmo sem fazer sentido, são hipnotizantes — e grudam na mente, especialmente das crianças.

“Esse tipo de conteúdo pode prejudicar o desenvolvimento da atenção, da paciência e da concentração”, alerta a psicóloga e psicoterapeuta infantil Mônica Prado Braz. “A criança entende que informações rápidas e superficiais bastam. Isso impacta a forma como ela aprende e se relaciona com o mundo.”

Para Mônica, o apelo vem do estranhamento. “O que foge do padrão chama atenção. E na infância, que é uma fase de formação intensa, tudo que é diferente vira estímulo. Mas o excesso gera ansiedade e pode dificultar a aprendizagem.”

Sensorialidade como experiência e como produto

Essa busca por estímulos rápidos e intensos se reflete também no tipo de brinquedo que as crianças querem. Kodama explica: “Brinquedos sempre foram sobre experiência do cliente — e com crianças, falamos de um cliente sensorial. Cores vibrantes, sons exagerados, formas não convencionais ou texturas inusitadas ativam respostas imediatas. Isso gera hiperfoco e recompensa física, algo que o digital ainda não substitui.”

É uma lógica que conecta brinquedos baratos e chamativos à mesma dinâmica que prende as crianças às telas. “Tudo é pensado para capturar atenção de forma instantânea. O sucesso desses produtos está em conseguir entregar uma experiência tão intensa quanto a da tela”, complementa.

Brinquedos: Do TikTok para o camelô em 24h

Com a ascensão da Shopee, TikTok Shop e mercado paralelo, a velocidade entre o viralizar e o estar à venda nunca foi tão curta. Produtos que bombam de manhã já estão disponíveis no fim do dia — muitas vezes em versões não licenciadas.

Crianças - Celular - Internet - TikTok - Brinquedos - Consumo Infantil
Divulgação/Freepik

“Isso representa um desafio enorme para marcas formais, principalmente no controle de propriedade intelectual e valor de marca”, explica Kodama. “Mas também é uma lição de agilidade. Enquanto um produto licenciado leva meses pra ser lançado, o mercado paralelo entrega no dia seguinte. Isso não é só pirataria — é adaptação em tempo real.”

Mais do que moda… Pertencimento

A lógica do consumo infantil em 2025 também passa pelo grupo. Maria Eduarda Rodrigues Alvarez, 10 anos, moradora de Santo André, comprou seu Labubu porque viu os amigos com um. “Achei fofinho… e meus amigos também têm. Eu queria ter um igual”, conta. A mãe, Luciana, não viu problema. “Está presente no universo dela. Quando posso, compro. É sobre se sentir incluída.”

Para Kodama, esse tipo de escolha representa uma forma válida de autoexpressão infantil. “Mas também de validação adulta, ainda que indireta. Os dois mundos estão interligados. As crianças se expressam pelo que consomem, mas o que elas consomem também é reflexo das dinâmicas de consumo dos adultos.”

O que as marcas podem aprender com o caos

Diante desse cenário, o branding infantil precisa repensar estratégias. “É possível ser pop, divertido, hiperconectado sem abrir mão de propósito, valores e respeito à infância”, afirma Kodama. Para ela, marcas tradicionais — como as de brinquedos educativos ou de moda infantil — podem se beneficiar dessas tendências, desde que estejam atentas ao contexto cultural e dispostas a se adaptar com rapidez.

“A estética nonsense conversa com um cérebro infantil moldado pelo digital. Se quiserem dialogar com esse público, as marcas precisam entender essa lógica. O olhar infantil de hoje já nasce multitela, ansioso e imerso no absurdo visual como forma de linguagem e entretenimento.”

Nem bonito, nem feio: é o novo normal

O desafio para pais e educadores, como lembra Mônica, não é controlar tudo, mas oferecer equilíbrio. “A ideia não é proibir, mas mostrar que existem outras formas de brincar e de se expressar. O problema não está no brinquedo esquisito em si, mas no excesso, na falta de variedade.”

A infância em 2025 pode parecer desconcertante para quem cresceu com brinquedos de madeira e desenhos lineares. Mas ela também é criativa, intensa, sensorial — e moldada por uma cultura digital que não vai desacelerar tão cedo. Entender isso é o primeiro passo para acompanhar as crianças de hoje sem perder o vínculo com elas.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 29/09/2025
  • Fonte: Multiplan MorumbiShopping