Braskem discute futuro das embalagens como parte da WCEF

Braskem promove painéis voltados à economia circular, como parte do WECF (World Circular Economy Forum), quando reuniu especialistas para comentar os avanços e as necessidades de se criar políticas públicas em parceria com a iniciativa privada, associações e organizações, como de recicladores para promover em massa a conscientização

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Em um mundo em que as mudanças climáticas são um fator inevitável e, aparentemente irreversível, caso a humanidade – leia-se indústrias, governos e sociedade – não adote medidas sustentáveis, a necessidade de se criar programas efetivos para a reciclagem, a chamada economia circular, se torna essencial e necessária para a sobrevivência do planeta, e preocupada com os rumos da indústria dos plásticos, a Braskem promoveu sessões de aceleração, nesta quinta (15) e sexta-feira (16), no Cazoolo – seu lab de design de embalagens circulares, como parte do WCEF (World Circular Economy Forum), iniciativa global finlandesa com promoção do Fundo de Inovação Finlandês Sintra em parceria com a CNI (Confederação Nacional da Indústria), Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e Sesi (Serviço Social da Indústria).

O objetivo é encontrar soluções sustentáveis para embalagens e ampliá-las de maneira que chegue a toda cadeia produtiva como forma de reduzir os impactos no meio ambiente e, ao mesmo tempo, de que crie uma consciência de consumo na população voltada para o reaproveitamento de embalagens.

Participaram dos dois painéis, protagonistas diretos na busca por essas políticas que focam no desenvolvimento desses produtos, e o ABCdoABC acompanhou as sessões de aceleração.

Um dos fundadores da Ricicleiros, Erich Burger Netto, participou de um dos painéis e comentou como surgiu a entidade e quais os planos para o futuro.

Recicleiros nasceu ali, idealmente, na universidade, discutindo como que a gente conseguiria fazer com que cidades brasileiras fossem o que a gente imaginava, onde as pessoas consumiam, descartavam no lugar certo, um caminhão passava e levava, e isso se transformava em matéria novamente para novos produtos, ou seja, para uma circularidade acontecendo naquele ambiente ideal e imaginado. A gente já está há quase 20 anos fazendo esse núcleo de desenvolvimento e de ação nos projetos, e a gente tem cerca de 350 catadores incubados dentro dos nossos programas de formação sócio-profissional, são 15 prefeituras, 15 cidades que participam do programa. São programas municipais de coleta seletiva e que a gente trabalha desde o desenvolvimento da política pública municipal, as ações de educação ambiental, infraestrutura, logística, até a conexão com o mercado. Então, o nosso trabalho é dedicado a isso, para que a gente consiga, como falei, chegar em 5.570 municípios”, projeta ele, que prossegue: 

“A gente acabou de lançar com o governo do Pernambuco, inspirado em Serra Talhada, que é um município do interior do sertão do Pernambuco, uma dessas 15 cidades que fazem parte da nossa plataforma. Aí o governo do estado visitou e isso culminou, então, em um termo de fomento, assinado com o governo do estado de Pernambuco, onde a gente vai levar, por meio de um dos nossos laboratórios de inovação, que é a Academia do Gestor Público e Recicleiros, conhecimento para a construção de políticas públicas de reciclagem para os 184 municípios do estado”, explicou Erich.

Baixa taxa de reciclagem no baixo

De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos de 2024, a reciclagem no Brasil atingiu 8% do total de resíduos sólidos urbanos, oriundos do trabalho de catadores informais. Segundo um estudo elaborado pela Abrema (Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente),  e publicado pela Folha de São Paulo em dezembro de 2024, dados de 2023 apontam que o Brasil produziu quase 81 milhões de toneladas de resíduos naquele ano, o que representa 382 quilos por brasileiro por ano.

Já em 2022, o relatório mostra que o país reciclou 4% de seus resíduos vindos da coleta seletiva dos municípios, assim, é possível mensurar que, em 2023, 6,7 milhões de toneladas de resíduos como plástico, vidro, metais e papelão foram enviados para a reciclagem em território nacional.

Camila Hubner, gerente de Assuntos Regulatórios e Sustentabilidade da ABIQUIM (Associação Brasileira da Indústria Química), remonta o início do processo reciclável e ressalta que é necessário um esforço global para que as políticas voltadas para esse universo sejam colocadas em prática.

“A ideia da circularidade já é antiga, dos anos 70, com um conceito mais de desenho regenerativo. Isso foi evoluindo e, nos anos 90, se começa a falar sobre um modelo econômico que a gente discute hoje, que é o modelo da economia circular. O mundo já vem acumulando conhecimento sobre esse novo modelo e que não tem mais volta. Nós enxergamos como uma transição que precisa acontecer desse modelo linear para um modelo circular. E eu acredito que estamos no momento de colocar em prática, de ações. Então, a partir disso, temos a discussão já posta do que a gente chama de Acordo Global dos Plásticos. Essa discussão vem acontecendo desde o final de 2022, onde nós tivemos a primeira rodada de negociação para que, de fato, a gente possa chegar a um acordo de todos os países sentados à mesa”, propõe Camila.

A gerente afirmou que as discussões sobre o processo de economia circular não são pautadas em consenso, mas sim em interesses comuns e disse que o país está em vias de colocar em prática um projeto que possa contribuir com as ações. 

“Hoje, a gente está prestes a ter um instrumento, e que esse instrumento alavanque a gestão de resíduos, a gestão de resíduos plásticos, que esse instrumento alavanque a concretização de planos nacionais, para que os países, de fato, consigam articular ações, para que nós tenhamos uma gestão mais racional e implementada. Consiga alavancar políticas públicas nos países que ajudem a essa transição, que viabilizem financiamento, o acordo global é um importante instrumento para a viabilização de financiamento, especialmente para os países em desenvolvimento, que carecem tanto desse financiamento para a melhoria da gestão de resíduos”, percebe ela.

Quando o tema é Brasil, Camila vê com bons olhos as políticas que devem ser implementadas em breve.

“Olhando para o Brasil, vemos grandes avanços. Tivemos, no ano passado, a publicação da Estratégia Nacional de Economia Circular, semana passada nós tivemos a aprovação do Plano de Trabalho de Economia Circular, é muito importante que a construção dessas políticas evoluam como políticas realmente de país, políticas públicas, e, a partir desse plano, há outros instrumentos que alavanquem, de fato, a implementação e a transição para a circularidade. Olhando para o plástico, estamos ansiosamente aguardando a publicação do Decreto de Logística Reversa de Embalagens Plásticas. Nós já tivemos diversas discussões sobre esse decreto. Ao que nós sabemos, esse decreto está pronto. Então, aí a nossa ansiedade para que ele seja publicado. O decreto traz questões de governança, de financiamento, e principalmente para a indústria química no Brasil. Traz uma questão importante sobre conteúdo reciclado, que tem tudo a ver com a economia circular, que pode e deve alavancar a circularidade do plástico no Brasil. Então, a partir de metas de conteúdo reciclado, nós conseguimos valorizar o material, alavancar tecnologias que hoje não são utilizadas para reciclagem, por exemplo, processos de governança, e também a maior inserção dos catadores e catadoras nesse processo, a partir realmente da valorização do material. Então, essa é uma política que, realmente precisa ser publicada, implementada, para que a gente tenha, de fato, uma alavanca nessa transição. Sem esse tipo de política, é muito difícil um país evoluir. Além, é claro, quando a gente fala de políticas públicas, não só relacionadas à tecnologia, mas também a incentivos fiscais”, sugere Camila.

No entanto, a gerente da ABIQUIM faz uma ressalva quanto à questão de incentivo fiscal.

“Temos raríssimos instrumentos, muitos dispersos, que tratam do incentivo fiscal para o material reciclado. Então, isso hoje também é um trabalho da ABIQUIM, que esses incentivos façam parte dessa transição que o Brasil decidiu fazer a partir de todos esses movimentos que estão acontecendo. É muito importante nós mostrarmos a valorização do material plástico”, pede Camila.

O CEO da Alliance to End Plastic Waste, Jacob Duer, explicou o papel da instituição pelo qual atua e comentou sobre a importância, não só do investimento privado, mas também da verba proveniente do Poder Público para fortalecer e desenvolver o sistema da economia circular.

“A Aliança para Eliminar o Resíduo Plástico é uma organização sem fins lucrativos e o nosso escritório principal fica em Singapura. Trabalhamos em vários países para tentar eliminar o resíduo plástico, criando uma economia circular para o plástico. Nós recebemos financiamento do setor privado, e a Braskem, inclusive, trabalha conosco. Trabalhamos com recicladores, pessoas que trabalham com a gestão de resíduos”, discorreu Jacob sobre a função da entidade e da parceria com a gigante petroquímica.

Jacob discorreu sobre o volume de resíduos descartados de forma irregular no meio ambiente e novamente recorreu aos números para mostrar o quão é estarrecedor o descaso com a natureza e com a falta de políticas públicas voltadas à economia circular.

“Nós falamos sobre a criação de soluções para ajudar na questão ambiental e também para diminuir o resíduo plástico. Já vimos muitas imagens terríveis que mostram 10 milhões de toneladas de plásticos chegando aos nossos oceanos todos os anos. Precisamos acabar com isso. Três bilhões de seres humanos não têm acesso à coleta de lixo, por isso, precisamos ter acesso a essas pessoas que não sabem o que fazer com os resíduos ou deixam no ambiente, ou levam para um lixão, ou jogam no rio, ou no mar, ou queimam aqueles resíduos. Queremos que os resíduos que têm valor sejam recolhidos, reciclados, para criar uma economia circular. Os estudos mostram que se analisarmos só o plástico, o valor do plástico que acaba no meio ambiente, ou em lixões, ou em lugares errados, até na incineração, ou seja, que acabam queimados, tem um valor entre 80 e 120 bilhões de dólares por ano. Esse valor pode voltar para a economia, se criarmos uma economia circular. E isso aumentaria muito a eficiência no uso de recursos”, propõe Jacob.

O CEO comentou também sobre o uso de investimentos, sobre conhecimento e aumentar as iniciativas para que possam atender ao máximo possível de agentes multiplicadores da economia circular e elogiou o comportamento do Brasil.

“Temos acesso ao capital, temos acesso ao conhecimento técnico, trabalhamos com os governos e, ajudamos em políticas e outras iniciativas para resolver a questão do resíduo plástico, oferecendo financiamento, mostrando soluções sobre como tornar esse resíduo plástico economicamente viável, de forma sustentável. Trabalhamos em 25 países e já existimos há cinco anos. Precisamos ter impacto em grande escala. Vemos um grande potencial no Brasil, tanto nos compromissos do setor privado, como também do lado do governo. A liderança do presidente Lula tem uma postura muito progressiva, especialmente trabalhando com cooperativas e associações de recicladores para coletar os resíduos, inclusive os resíduos plásticos. Isso não se faz sozinho. Precisamos de parcerias com os governos, com o setor privado, com a sociedade civil, com entidades como os Recicleiros, e também agências que possam financiar os nossos esforços. Esse é um desafio. Sempre é difícil obter recursos e precisamos de muitos recursos, centenas de milhares ou milhões de dólares. Portanto, a busca de soluções não é só em termos de soluções técnicas, mas também desenvolver estruturas de financiamento, que podem ser globais, por exemplo, com o Banco Mundial, mas também com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). E estamos conversando com várias outras organizações para que possamos ter uma agenda comum sobre a economia circular, que é um problema que todos queremos resolver. A Aliança incubou mais de 150 startups com novas ideias e soluções para resíduos plásticos e educação para reciclagem, e o que nós chamamos de design para circularidade. Essas 150 startups atraíram mais de 160 milhões de dólares em investimento”, destacou Jacob.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 17/05/2025
  • Fonte: Fever