Regiões do Brasil usam mais água do que conseguem repor
Estudo aponta redução persistente de aquíferos em áreas do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, com impacto potencial sobre rios e abastecimento
- Publicado: 04/06/2026 10:13
- Alterado: 04/06/2026 10:13
- Autor: Suzana Rezende
- Fonte: Science Advances
Um estudo publicado na revista científica Science Advances revela que diversas regiões do Brasil já retiram mais água subterrânea do que conseguem repor por meio das chuvas. O cenário indica um sinal de alerta para a gestão dos recursos hídricos, especialmente em áreas com forte atividade agrícola e crescente demanda por irrigação.
A pesquisa, considerada a mais abrangente já realizada sobre as reservas de água subterrânea do país, mostra que parte dos aquíferos brasileiros apresenta perda persistente de armazenamento. Segundo os pesquisadores, as mudanças climáticas tendem a agravar esse quadro, aumentando a frequência e a intensidade de eventos extremos, como secas prolongadas.
Água subterrânea representa a maior reserva hídrica do país
De acordo com o estudo, as águas subterrâneas correspondem a cerca de 98% da água armazenada no Brasil. Em comparação, as águas superficiais representam aproximadamente 2% do total, enquanto os rios concentram apenas 0,2%.
O pesquisador Clyvihk Renna Camacho, do Serviço Geológico do Brasil e um dos coordenadores do trabalho, destaca a relevância desse recurso para o equilíbrio hídrico nacional.
“As águas subterrâneas representam 98% da água armazenada no Brasil. Já as águas superficiais representam 2% desse total, e os rios, 0,2%. Ou seja, a porção subterrânea desempenha um papel fundamental no equilíbrio hidrológico do nosso país”, afirmou.
Inteligência artificial e dados da Nasa ajudaram no monitoramento
A pesquisa foi coordenada por Camacho e por Augusto Getirana, cientista do Centro de Voo Espacial Goddard, da Nasa. Para avaliar a evolução das reservas subterrâneas entre 2002 e 2023, os especialistas utilizaram dados de satélites da agência espacial norte-americana capazes de identificar alterações no campo gravitacional terrestre associadas à presença de água.
As informações foram combinadas com dados meteorológicos, hidrológicos e de uso dos recursos hídricos por meio de um modelo de inteligência artificial. Com isso, foi possível reconstruir a dinâmica de armazenamento das águas subterrâneas ao longo de mais de duas décadas.
Os resultados indicam que, no período analisado, cerca de 12% da precipitação média anual registrada no país contribuiu para a recarga dos aquíferos. Esse volume equivale a aproximadamente 1.900 quilômetros cúbicos de água.
Amazônia e Sul apresentam cenário diferente
A análise mostra que o comportamento das reservas subterrâneas varia significativamente conforme as características climáticas e geográficas de cada região.
No norte e oeste da Amazônia, assim como em áreas da região Sul, foi observada uma tendência de aumento do armazenamento subterrâneo. No entanto, os pesquisadores ressaltam que a situação amazônica é marcada por grande variabilidade devido à forte conexão entre rios e aquíferos.
Segundo Getirana, em determinados períodos os rios abastecem os aquíferos, enquanto em outros ocorre o movimento inverso.
“Na Amazônia, em alguns períodos, o rio pode recarregar temporariamente o aquífero; em outros, o aquífero contribui com água para o rio. A combinação de grande sazonalidade das chuvas, relevo muito plano e áreas alagáveis extensas ajuda a explicar por que a variabilidade do armazenamento subterrâneo é tão alta na região”, explicou.
Camacho acrescenta que a redução das reservas subterrâneas pode afetar diretamente os cursos d’água amazônicos.
“Além disso, como o rio e o aquífero na região estão conectados, um baixo armazenamento subterrâneo pode indicar uma maior tendência a reduções nas vazões dos rios da região em caso de redução das chuvas”, afirmou.
Oeste da Bahia concentra um dos quadros mais críticos
As maiores preocupações identificadas pelo estudo estão concentradas em áreas localizadas entre o Brasil Central, o Nordeste e o Sudeste.
O exemplo mais evidente é o Sistema Aquífero Urucuia, especialmente na região oeste da Bahia, que integra a bacia do Rio São Francisco. Segundo os pesquisadores, o local apresenta sinais claros de perda contínua de armazenamento subterrâneo.
“O caso mais claro é o Sistema Aquífero Urucuia, especialmente em áreas associadas ao oeste da Bahia e à bacia do rio São Francisco”, destacou Getirana.
Também foram observadas reduções importantes em áreas do Cerrado ligadas às bacias dos rios Paraná e Tocantins-Araguaia. Os sistemas aquíferos Guarani e Serra Geral, que abastecem municípios do Sudeste e do Sul do país, também aparecem entre as áreas afetadas.
Em diversas cidades do interior paulista, por exemplo, a água subterrânea do Aquífero Guarani é amplamente utilizada para abastecimento público.
Pantanal também apresenta sinais de perda
O estudo identificou ainda perda persistente de água subterrânea em áreas do Pantanal. Os pesquisadores associam o fenômeno a mudanças recentes no uso do solo e nas atividades agropecuárias da região.
Alterações na permeabilidade do terreno podem dificultar a infiltração da água da chuva, reduzindo a capacidade de recarga dos aquíferos. Esse processo preocupa porque o funcionamento natural do Pantanal depende diretamente dos ciclos de cheia e seca.
Apesar das evidências encontradas, os autores destacam que a pesquisa não estabelece uma relação de causa e efeito específica para cada local analisado.
“Nosso estudo não prova causalidade direta em cada local. O que ele mostra é que áreas com perda persistente coincidem frequentemente com regiões de expansão agrícola, aumento da irrigação, secas recorrentes e, em alguns casos, maior concentração de poços”, explicou Getirana.
Impactos podem chegar aos rios e ao abastecimento
Além dos efeitos sobre as reservas subterrâneas, os pesquisadores alertam que a redução dos aquíferos pode comprometer a disponibilidade de água nos rios brasileiros.
Em muitos cursos d’água, especialmente durante os períodos secos, parte significativa da vazão é mantida justamente pela contribuição das águas subterrâneas.
“Em muitos rios brasileiros, parte importante da vazão que continua escoando após semanas ou meses sem chuva vem da água subterrânea”, ressaltou Getirana.
Diante desse cenário, o estudo reforça a necessidade de monitoramento contínuo dos aquíferos brasileiros e de políticas voltadas ao uso sustentável dos recursos hídricos. A combinação entre mudanças climáticas, expansão das atividades produtivas e aumento da demanda por água pode ampliar os desafios para a segurança hídrica do país nas próximas décadas.