O Brasil joga mal… e apita pior: A crise da arbitragem no Brasil

Entenda a crise da arbitragem no Brasil, da falta de profissionalismo e erros do VAR às soluções que podem mudar o futuro do futebol nacional

Crédito: Reprodução/CBF

A crise que consome a arbitragem brasileira não acontece no vácuo. Ela é alimentada por um contexto que gera frustração generalizada: a baixa qualidade do espetáculo.

A premissa “o Brasil joga mal” não se refere à capacidade técnica dos jogadores, mas a uma constatação quantificável da baixa eficiência: o tempo de bola rolando no Campeonato Brasileiro é ínfimo. Qualquer erro do juiz do jogo do Brasil, por menor que seja, vira estopim para uma crise.

O problema do tempo: menos jogo, mais polêmica

Uma análise rigorosa do Brasileirão de 2025 revela um cenário desolador. Nas primeiras cinco rodadas, apenas 4% dos jogos atingiram 60 minutos de bola em jogo, o tempo recomendado pela FIFA.

A média foi de apenas 54 minutos e 35 segundos, num tempo total médio de partida que chegou a 100 minutos e 30 segundos. Na prática, o torcedor passa 46% do tempo assistindo a “não-futebol”, paralisações, discussões e, principalmente, a “cera”.

Essa baixa tolerância do público, que já se sente lesado, torna qualquer erro de arbitragem o estopim para uma indignação desproporcional. Paradoxalmente, as tentativas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de corrigir esse problema falharam, e a própria arbitragem é a responsável direta.

As regras que são ignoradas em campo

Para agilizar o jogo e combater a “cera”, a CBF implementou duas medidas principais em 2025, mas ambas se mostraram ineficazes por culpa da própria arbitragem. Contudo, ambas as medidas se mostraram ineficazes por culpa da própria arbitragem.

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O sistema “Multiball”

Copiado da Premier League inglesa, o sistema posiciona 14 bolas ao redor do gramado para acelerar a reposição. Contudo, os dados mostram que a medida não surtiu efeito, e o tempo médio de bola rolando em 2025 não melhorou em relação a 2024.

A regra dos oito segundos

Uma nova diretriz passou a punir com escanteio o goleiro que segurar a bola por mais de oito segundos. A regra, no entanto, é sistematicamente ignorada pelos árbitros de campo na Série A. A conivência ou incapacidade dos árbitros em aplicar as próprias regras demonstra que a arbitragem é um agente ativo na manutenção do jogo mal jogado.

O colapso da percepção pública

A crise atual é marcada por uma rejeição pública massiva. Uma pesquisa indicou que a arbitragem do Brasileirão alcança uma taxa de rejeição de 65%. A principal queixa que unifica clubes, imprensa e torcedores é a falta de critérios nas decisões.

Em contrapartida, a CBF tenta combater essa percepção com relatórios estatísticos. Um documento sobre o primeiro turno do Brasileirão alegou:

  • 82% de acerto em lances polêmicos: um universo de 65 lances contestados.
  • 99,79% de acerto no “universo total de decisões”: incluindo lances triviais.

A CBF utiliza os 82% como prova de sucesso, mas o público foca nos 18% de erros admitidos (12 lances) em jogadas capitais. Em um esporte de alto rendimento, uma taxa de erro de 18% em lances decisivos é um índice catastrófico que justifica a rejeição.

A estatística de 99,79% de acerto é uma métrica de vaidade, diluindo erros graves em um oceano de decisões óbvias e mostrando o distanciamento da CBF. A prova disso é que, quase semanalmente, juízes são suspensos pela CBF após erros notórios, uma admissão de que os 18% de erros importam mais.

O paradoxo do VAR: A tecnologia que aumentou a desconfiança

CBF anuncia implementação do impedimento semiautomático a partir de 2026 (Imagem: Flickr/Luis Santos)

Implementado no Brasil em 2019, o Árbitro de Vídeo (VAR) foi vendido como a solução para as injustiças. Na prática, ele falhou e se tornou o principal motor da crise atual. A tecnologia não resolveu a falta de critério; apenas a transferiu do campo para uma cabine.

O colapso do VAR no Brasil se deve a três fatores:

  • Abandono do protocolo: O princípio do VAR é intervir apenas em erros claros e óbvios. No Brasil, esse protocolo foi abandonado, com o VAR sendo acionado para lances puramente interpretativos.
  • Lentidão crônica: As checagens no país demoram 46% a mais que o recomendado pela FIFA. Essa lentidão é um agente ativo do jogo mal jogado.
  • Uso excessivo: O medo da “geladeira” criou um ciclo vicioso. O árbitro de campo terceiriza a decisão para a cabine, e o VAR chama o árbitro ao monitor para dividir a responsabilidade. O resultado é a paralisia do jogo, com o Brasileirão de 2025 superando o número total de intervenções de 2024 antes mesmo do fim do campeonato.

Esse caos decisório criou a “Loteria do VAR”. Rankings mostram o time mais prejudicado pela arbitragem do Brasil mudando a cada temporada. Em 2024, o Fluminense teve o maior saldo positivo e o Vasco o maior negativo.

Em 2025, o Vasco passou a ter o maior saldo positivo, enquanto o Corinthians amargava o maior negativo. Isso não sugere conspiração, mas algo pior: o caos.

A raiz do problema: Um árbitro “amador” em uma liga bilionária

Os erros em campo e o caos do VAR são sintomas. A doença é estrutural: em uma das ligas mais ricas do mundo, o árbitro de futebol brasileiro ainda é tratado como amador. A raiz está na remuneração. Árbitros não têm salário fixo ou vínculo empregatício; recebem um “cachê” por partida.

Valores médios para a Série A em 2025:

  • Árbitro (FIFA/Master): R$ 7.280,00 por jogo
  • Árbitro (CBF): R$ 5.250,00 por jogo
  • Árbitro de Vídeo (VAR FIFA): R$ 4.370,00 por jogo

Esse modelo “freelancer” impede a dedicação integral ao treinamento. O senador e ex-jogador Romário diagnosticou o problema: “A arbitragem brasileira vem vivendo um caos porque ainda é tratada de forma amadora”.

O “R$ 0” na coluna de salário fixo do Brasil evidencia a origem da crise. O árbitro só recebe se for escalado, o que incentiva a submissão às diretrizes da comissão da CBF, e não a excelência.

Rumo à salvação: Profissionalização, tecnologia e transparência

Acuada, a CBF finalmente iniciou um movimento para atacar a doença, baseado em um tripé de soluções estruturais.

1. A Lei (Profissionalização)

O passo mais crucial é o ataque ao amadorismo. Em novembro de 2025, a Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado aprovou o Projeto de Lei 864/2019. Relatado pelo Senador Romário, o projeto prevê a criação de um vínculo empregatício entre árbitros e as entidades, garantindo salário fixo e direitos trabalhistas. O objetivo da nova lei de arbitragem é acabar com o “medo da geladeira” e permitir a dedicação integral.

2. A Tecnologia (SAOT)

Para combater a desconfiança no VAR, a CBF anunciou a implementação da Tecnologia de Impedimento Semiautomático (SAOT) para o Brasileirão e a Copa do Brasil a partir de 2026. O sistema, que utiliza câmeras e Inteligência Artificial, gera a linha de impedimento instantaneamente, eliminando a demora e a subjetividade das linhas traçadas à mão.

3. A Transparência (Áudios)

Para atacar a desconfiança, a CBF recebeu autorização da FIFA e da IFAB para divulgar os áudios das checagens silenciosas do VAR, além das revisões formais. A CBF se torna pioneira mundial nesse nível de abertura.

No curto prazo, isso pode piorar a crise de percepção ao expor a baixa qualidade técnica. No longo prazo, a aposta é provar que os erros são de incompetência, não de corrupção.

Do caos à credibilidade

A crise da arbitragem brasileira é real e profunda. O “apita pior” é consequência direta do “trata pior”. O futebol brasileiro trata sua arbitragem de forma amadora e colhe resultados amadores: um sistema caótico e sem credibilidade.

Contudo, pela primeira vez, o futebol brasileiro está atacando as causas. O tripé de soluções (Profissionalização, Tecnologia (SAOT) e Transparência Total) representa uma tentativa séria e estrutural de curar a doença.

O caminho para a credibilidade será longo, mas essas são as únicas medidas capazes de, talvez um dia, restaurar a confiança pública e garantir que o foco do jogo volte para o campo, e não para o apito do árbitro.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 19/11/2025
  • Fonte: Sorria!,