Café com Cinismo: edição especial tornozeleira em chamas

Do bip na madrugada ao silêncio da vigília, o dia em que Bolsonaro descobriu que protocolo dói mais que discurso

Crédito: Ilustração criada por IA (ChatGPT/OpenAI)

CAFÉ COM CINISMO · está de volta em EDIÇÃO ESPECIALÍSSIMA

Bolsonaro - Papuda - Café com Cinismo
Ilustração criada por IA (ChatGPT/OpenAI)

Para registrar a prisão de Jair Bolsonaro, MAS NÃO SÓ ISSO: a gente volta, sim, pra ocupar o lugar de onde nunca deveríamos ter saído!

Hoje é daqueles dias em que o Brasil acorda parecendo print falsificado de zap: ex-presidente condenado, tornozeleira eletrônica, decisão do STF vige, por fim, a Polícia Federal batendo à porta em Brasília pra converter prisão domiciliar em prisão preventiva, depois da genial ideia de “dar um trato” na tornozeleira com ferro de solda.

Não é o início oficial do cumprimento da pena de 27 anos e 3 meses em regime fechado, ainda tem recurso, latim, embargos e PDF’s pela frente. Mas, convenhamos, prisão preventiva com PF na sala já atravessa qualquer linha entre delírio de militância e realidade institucional.

E é aqui que o Café Com Cinismo volta: não só pra carimbar a data em que Bolsonaro finalmente foi parar atrás de uma porta trancada pelo Estado, mas pra fazer aquilo que sempre foi nosso trabalho: olhar pra exuberância tropical do absurdo brasileiro e dizer, com a maior calma possível:

Vocês sabiam exatamente onde isso ia dar. Sabiam e foram mesmo assim.

Esse retorno é porque o roteiro não acabou com a prisão do protagonista. O bolsonarismo segue solto: em gabinete, em igreja, em grupo de família, em vídeo mal gravado na horizontal. A figura está presa preventivamente, o produto político continua em circulação, reembalado como vítima, mártir, profeta ou PowerPoint de “perseguição”.

Então sim, esta edição é especialíssima pra registrar a prisão de Jair Bolsonaro.

O nosso acordo, daqui pra frente, é com algo bem menos épico e muito mais necessário: acompanhar o dia seguinte. O depois dos fogos. O depois dos atos. O depois da catarse. Porque se tem uma coisa que este país não merece é que a gente largue a xícara justo agora. Portanto, sim — nós voltamos. Não porque o mundo tenha melhorado, mas justamente, porque não melhorou nadinha.

Nos meses em que ficamos fora do ar, prometeram revoluções via thread, transformações via TED Talk e empatia via publi. O resultado prático: mais um aplicativo para cronometrar meditação, menos um motivo para acreditar em qualquer comunicado “à sociedade”. Enquanto isso, todo mundo aprendeu a falar em “saúde mental” e “limites”, mas segue respondendo e-mail às 23h com o clássico “desculpa a hora kkk”. A boa notícia é que a hipocrisia continua dando pauta. A má é que continua dando lucro.

Então é isso: chegou o domingo, e o Café com Cinismo está de volta! Mesma xícara, mesma cafeína e um pouco menos de paciência. Então, se o mundo insiste em se levar a sério, alguém precisa rir de nervoso pra registrar. Dito isso, se veio aqui, se clicou quando viu que eu voltei, significa que você também voltou. Então, já que tá por aqui, vamos combinar umas coisas.

Primeiro: isto aqui não é memorial de indignação seletiva. Não vou aparecer só em dia histórico, com ex-presidente preso, pra fazer textão performático e depois sumir. A ideia é voltar pra rotina, que é onde o Brasil realmente se revela. Golpe, prisão, STF em sessão extraordinária, tudo isso rende manchete. Mas o caráter mesmo aparece na terça-feira qualquer, quando ninguém está olhando e o país segue fazendo o que sempre fez: testar o nosso limite de cinismo.

Segundo: se você continua lendo é porque, em algum nível, também não acredita nesse discurso de “surpresa”. Surpresa com o quê, exatamente? Com o sujeito que ameaçou a democracia acabar tendo problema com a Justiça? Com a elite que fingiu não ver agora fingindo espanto? Surpresa é o que a gente sente quando encontra dinheiro esquecido no bolso. O resto é consequência.

Terceiro: não prometo esperança nem equilíbrio. Prometo outra coisa, bem menos glamourosa e um pouco mais útil: contexto. Vou tentar ligar os pontos que todo mundo finge que não se conectam, apontar a pose na hora da foto, traduzir o juridiquês e o marketing político para a língua que a gente fala na fila do mercado.

Então, já que você voltou, faz o favor de ficar. Puxa a cadeira, segura a xícara com as duas mãos e vamos registrar juntos este país que prende um ex-presidente num dia e, no dia seguinte, volta a discutir Big Brother, balão do Pix e briga de influenciador como se nada demais tivesse acontecido.

Porque o Café Com Cinismo está de volta, sim — e a graça, agora, é não ir embora no próximo escândalo.

Então antes do “bora”, algo importante que seguirei daqui em diante — o meu compromisso com o leitor, de que enquanto houver, nem que seja apenas um de vocês, eu estarei aqui, mergulhado por entre xícaras, ou tomando no bule mesmo!

Este texto é longo, sim, do tamanho do tempo em que fiquei longe daqui. Foi feito para ser lido em parcelas, entre o arroz do almoço, o lanche da tarde e o suspiro da sobremesa. Ou seja, pode largar, voltar, beliscar mais um parágrafo, como quem ronda a panela de feijão ou o churrasco que nunca fica pronto. É texto de fôlego, não de pressa: desses que você mastiga devagar e deixa um fundinho de amargor na gengiva.

Os próximos não virão com essa quilometragem toda, mas trarão a mesma sede, a mesma gana e o mesmo mau humor de sempre. Até porque, se o país não desacelera na cara de pau, esta coluna também não vai aliviar na acidez!

Buon apetito.

ASSINADO: João Pedro Mello, e uma xícara de porcelana com o resto do café de ontem que esfriou por motivos de… bom, acho que já deu pra entender bem, né. Bora comigo!

Bolsonaro preso: o sábado em que até a História acordou mais cedo

Um país ainda meio sonâmbulo assiste, enfim, o herói de barro descobrir que barro, em dias úmidos, esfarela

Abertura

A madrugada em Brasília tem aquele talento particular de parecer sempre um corredor de hospital: luz fria, silêncio desconfortável e a sensação de que alguém, em algum lugar, está prestes a receber uma notícia decisiva. Mas naquele sábado, a notícia não pediu licença, entrou abrindo portas, desligou o ar-condicionado, acendeu todas as lâmpadas e, de quebra, deu um beliscão na História para ela acordar. Às 0h08, quando a tornozeleira eletrônica de Jair Messias Bolsonaro deu seu grito digital — um “socorro, estou sendo rompida” com timbre de tragédia doméstica — até as janelas do Lago Sul pareceram piscar. Não foi apenas um bip. Foi como se o país inteiro tivesse recebido aquele SMS que muda o rumo do dia: curto, direto, e um pouco humilhante para quem o recebe. Horas depois viriam as versões oficiais: pregabalina, sertralina, paranoia súbita e uma suposta escuta clandestina escondida na tornozeleira, como se o equipamento fosse menos medida cautelar e mais central de espionagem pessoal.

O barulho foi discreto, quase íntimo, mas o Brasil sabe reconhecer o som de uma farsa se desmanchando. Este país, tão treinado em sobreviver às óperas cômicas da própria política, distingue com precisão entre o estrondo de uma bomba e o estalo de um mito quebrando. E naquela madrugada abafada, o estalo foi claro. A tornozeleira avisou, a Polícia Federal acordou como quem abre uma geladeira de madrugada — sem drama, mas com propósito —, Moraes abriu os olhos — embora ninguém realmente acredite que ele durma — e o destino, esse cronista com humor incerto, resolveu que era a hora de virar a página. Foi um movimento calculado, seco, quase elegante, como quem encerra uma crônica com uma frase breve e afiada, sabendo exatamente onde bate mais forte.

O amanhecer veio sem pressa, mas com uma serenidade enigmática. Brasília, que tem uma vocação natural para o exagero, decidiu acordar minimalista: nenhuma sirene histérica, nenhum helicóptero exibido, nenhuma manchete sendo berrada por um repórter afônico. Era o tipo de silêncio que precede mudanças importantes. Bolsonaro foi levado para a Superintendência da PF sem alarde, sem espetáculo, sem aquela ópera barroca que ele sempre tentou montar em torno de si. Uma espécie de teatro que perdeu o protagonista — e, pela primeira vez, ninguém pareceu notar a ausência. O país assistiu, meio incrédulo, ao desmonte de um personagem que sempre se imaginou imprescindível.

Há acontecimentos que medem as nações como espelhos: mostram o que somos, mas sobretudo o que deixamos de tolerar. A prisão preventiva do ex-presidente surgiu como uma dessas radiografias involuntárias. Não houve bombardeio, não houve cavalgada militar, não houve hordas uniformizadas; houve apenas o cansaço de uma democracia que, finalmente, disse “chega”. E disse com a naturalidade de quem já ensaiou a frase inúmeras vezes. Moraes, nesse papel quase literário que ocupa na vida institucional do país, fez o que personagens clássicos fazem: empurrou a narrativa para o ponto de não retorno. Não foi vingança, foi método. Não foi espetáculo, foi consequência. Não foi ruptura, foi continuidade — aquela que, por anos, tentaram enterrar sob memes, motocicletas e sermões domésticos.

Enquanto Bolsonaro prestava depoimento ao homem que ele tentara transformar em antagonista pessoal, Brasília parecia suspensa no ar. Era como se cada árvore do Eixo Monumental tivesse inclinado discretamente os galhos para ouvir. Do lado de fora, a população atravessava aquele território ambíguo entre o alívio e a incredulidade. O Brasil é um país que sempre desconfia dos próprios finais — suspeita que a trama recomeça quando a gente vira as costas. Mas naquele sábado, algo mudou. Não no grito, mas no silêncio. O silêncio, sim, foi a confirmação. Confirmou que ele estava preso. Confirmou que o mito, finalmente, virou réu com tornozeleira violada. Confirmou que o país, esse especialista em empurrar limites, finalmente empurrou alguém de volta — e com as duas mãos.

Era só o começo.

E, como sempre, o começo não pediu permissão.

A Manhã Feita de Papel e Ruídos Quase Invisíveis

A manhã de Brasília acordou com cara de repartição que abriu cedo demais. O céu, muito bem passado a limpo, parecia até recém-lavado por algum estagiário do clima. O sol batia no Eixo Monumental com a disciplina de servidor que não falta nem no recesso. Do Lago Norte à Ceilândia, o sábado tinha cheiro de café requentado e de notícia atrasada. Ninguém sabia ainda qual, mas o país já estava com aquela sensação de que o dia vinha com anexo.

Na Superintendência da PF, o clima era menos revolução e mais exame de rotina. Luz fria, ar-condicionado exagerado e agentes com a cara neutra de quem coleciona madrugadas em plantão. O agente Santos passava com um bolo de inquéritos no colo como quem leva pão na chapa para a mesa. A agente Carla conferia assinatura por assinatura, rezando em silêncio para que nenhuma rubrica saísse torta. Só Jair, sentado na ponta da mesa, parecia ter descoberto que cadeira sem palanque é inimiga da autoestima.

Em outro CEP, Alexandre de Moraes tomava seu café olhando o despacho como quem monta árvore de Natal.

Não era só decidir se prendia, bastava escolher CEP, cela, distância da janela e qualidade do colchão institucional. No rascunho mental, ele circulava a palavra “preventiva” como quem grifa ingrediente perigoso em bula de remédio. Ao lado, um assessor lembrava que o Brasil não precisava de mártir, só de réu pontual. Moraes suspirou, mexeu o açúcar e devolveu o país para dentro da frase: “que se cumpra”.

De volta à PF, o delegado Oliveira comentava que já vira traficante chegar mais calmo do que ex-presidente. O escrivão Nogueira digitava nomes e números, tentando não errar nem o acento, para não virar personagem de live futura. O copiador de crachás soltava seu barulhinho triste, imprimindo um cartão provisório para o sistema reconhecer o ilustre visitante. Nada ali cheirava a grande momento da história; cheirava a desinfetante e café de garrafa térmica esquecida.

É nesses dias modestos que a República decide coisas enormes, quase sempre usando formulários de duas vias. Jair olhava em volta como quem procura a câmera escondida, esperando que alguém grite “pegadinha do sistema”. Em vez disso, recebia perguntas sobre endereço, profissão, telefone para recado, como qualquer cidadão com dia ruim.

Ao perceber que não haveria discurso nem bandeira atrás, a ficha começou a descer devagar, como elevador de prédio antigo. Nem grito, nem sirene, nem golpe; só protocolo, que é a vingança preferida das burocracias. Para quem viveu de tumulto, descobrir que o fim da linha é uma mesa com carimbo é quase uma humilhação metafísica.

Entre Memes, Tornozeleiras e Esperança na Calçada

Na porta da casa do ex-presidente, o sábado amanheceu com cara de reunião de condomínio que nunca acaba. Cadeiras de plástico, isopor, bandeira do Brasil fazendo sombra e muita fé em voz alta. Flávio Bolsonaro, ou alguém muito parecido com ele na devoção, circulava perguntando se todo mundo já tinha água e narrativa.

Teve atos nas ruas, teve Tia Marlene do grupo de oração, que segurava o terço numa mão e o celular na outra, porque milagre sem registro não tem engajamento. A vigília parecia menos fila para o céu e mais plantão para ver se o roteiro da história ainda podia ser reescrito. Quando alguém sussurrou que a tornozeleira tinha apitado, o assunto correu mais rápido que água benta em procissão.

Falaram em ferro de solda, em mau contato, em inveja do STF. Quando começaram a circular as versões com pregabalina, sertralina, paranoia e alucinação com escuta clandestina, cada um agarrou o pedaço da história que doía menos na própria fé, numa sequência de explicações tecnicamente improváveis. Um rapaz de boné, auto-intitulado especialista em eletrônica, garantia que aquilo não era rompimento, era perseguição em 220 volts.

Ao lado, Dona Nilda perguntava se o pé dele sentia cócegas quando o aparelho vibrava, preocupação ausente do Código Penal. Entre teoria da conspiração e crendice, o bip minúsculo fez mais barulho que muito tanque na rua. Enquanto isso, no resto do país, o som oficial foi o das notificações.

O “bom dia” dos grupos de família veio com montagens da tornozeleira usando capa de super-herói verde com um B no peito. No Twitter, alguém criou em quinze minutos um perfil paródia para o aparelho, prometendo piscar duas vezes se fosse censura. Na fila da padaria, João do táxi mostrava o vídeo em que a promessa de “prisão, morte ou vitória” ganhava legenda nova. A internet cumpriu seu papel constitucional não escrito: transformar tragédia democrática em figurinha de WhatsApp antes do meio-dia.

Ao mesmo tempo, a vigília engordava. Chegou mais gente de amarelo, chegou gente sem camiseta, chegou senhor de terno que nunca pisa em calçada em dia de sol. Uns puxavam o Hino Nacional, outros puxavam o 4G, tentando o melhor enquadramento para a live. Do lado de lá da tela, o Brasil assistia como quem zapeia entre novela e documentário, sem saber em qual canal chorar.

A certa altura, já dava para dizer que tínhamos dois países: o do terço apertado e o do print maldoso. Entre um Pai-Nosso e outro, perguntava-se se aquilo dava cadeia mesmo ou só bronca de juiz. Gente jurava que Alexandre de Moraes iria se comover ao ver tanta fé na calçada, como se despacho de STF aceitasse abaixo-assinado emocional.

Do outro lado do processo, o ministro provavelmente via tudo pela TV com a serenidade de vilão oficial da turma. A vigília seguia firme, mas a decisão nascia em outro lugar, bem menos fotogênico e com ar-condicionado melhor. Ninguém largava a calçada, porque ir embora antes do milagre pega mal em qualquer religião.

O País Observa, Mesmo Quando Finge Que Não

Caricatura editorial de padaria com notícias da prisão de Bolsonaro.

Num domingo à noite, na tradicional Padaria Brasileira, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, Seu Anselmo abriu o jornal como guarda-chuva em dia de dúvida. Do balcão, dava pra ver a TV lá no fundo ligada no noticiário, som baixo, legenda correndo, enquanto o movimento de fim de domingo misturava gente voltando da praia, família saindo da missa e trabalhador espichando o dia com um café reforçado. Na tela, um infográfico paciente explicava que o ex-presidente teria misturado pregabalina com sertralina, tido “certa paranoia”, enxergado uma escuta clandestina na tornozeleira eletrônica e decidido encarar o equipamento com um ferro de solda. Leu a manchete, suspirou aquele “eu já sabia” que todo brasileiro usa para fatos que o surpreendem profundamente.

Na mesa ao lado, Dona Cláudia achou bom, mas ruim, mas talvez bom, e pediu mais um pingado para pensar melhor. Um adolescente com fone sorriu pro celular sem levantar os olhos, informando que tinha visto a notícia oito horas antes. Entre uma média e outra, o país digeria o sábado histórico na mesma velocidade com que come pão na chapa. Em Santo André e Diadema, o assunto ocupava mesa de bar, fila de lotérica e ponto de ônibus, cada um fingindo falar de futebol enquanto cutucava a manchete no celular.

O Brasil, quando não sabe o que sentir, escolhe a cautela. Ninguém comemorava demais, porque vai que o Supremo muda de ideia e a vergonha sobra para quem abriu o espumante. Também ninguém defendia em voz alta, com medo de encontrar na fila do mercado um ex-eleitor arrependido pela metade. No meio do balcão, entrava em cena a explicação farmacêutica: pregabalina, sertralina, paranoia e alucinação, como se o rodapé da ação penal tivesse virado bula. Tinha brasileiro pensando se não dava pra usar o mesmo argumento pra justificar cheque especial estourado, mensagem pro ex às duas da manhã e áudio de três minutos no grupo da família.

Era clima de final de novela em que o vilão cai da escada, mas o público espera os créditos terminarem pra ter certeza. Coração em modo avião, mas com o Wi-Fi ligado. Nas redações, apresentadores treinavam expressões de sobriedade em frente ao espelho. Era clima de final de novela em que o vilão cai da escada, mas o público espera os créditos terminarem pra ter certeza. Coração em modo avião, mas com o Wi-Fi ligado. Nas redações, apresentadores treinavam expressões de sobriedade em frente ao espelho, tentando não virar meme de Nazaré Tedesco fazendo conta na cabeça: miligramas de remédio pra ansiedade, suposta alucinação com escuta clandestina, ferro de solda na tornozeleira e tentativa de golpe, tudo somado na mesma equação em câmera lenta.

Comentarista econômico aprendeu depressa a encaixar “prisão preventiva de ex-presidente” e “mistura de pregabalina com sertralina que teria causado confusão mental”, entre inflação e dólar. O teleprompter rodava cheio de palavras compridas, mas o público ouvia só um resumo: “sim, aconteceu mesmo, e agora a culpa é dos remédios”. Até o mapa do tempo parecia mais atento, como se as frentes frias também quisessem saber o desfecho.

Na internet, o humor fazia plantão. Um perfil anotava, com zelo, todos os que em 2018 prometeram “me cobrem se der errado”. Outro produzia cards comparando o antigo “mito” com o mais novo “réu”, álbum de figurinhas do constrangimento. Já circulava montagem da tornozeleira em raio X, com setinhas apontando para a “escuta imaginária”, e thread explicando que alucinação é efeito adverso raro dos remédios, não item de série de ex-presidente em surto seletivo.

Em outra, alguém colava trecho da ata da audiência em cima da bula e perguntava em que momento “reação incomum” passou a incluir ferro de solda e tentativa de burlar medida cautelar. Tinha quem calculasse quantos segundos de pena caberiam em cada live transmitida da cozinha presidencial. Brincadeira, claro, mas brincadeira no Brasil é fase avançada do luto.

Na outra ponta, havia o silêncio. A turma que discutia política em caixa alta passou a postar só paisagem, versículo e foto de cachorro. Quando a convicção sai de férias, o primeiro refúgio é o pôr do sol. Nos grupos de família, ninguém sabia se defendia a honra, o laudo ou a bula — então, escolheram defender o silêncio, que não gera print nem jurisprudência. O país inteiro parecia ajustar o volume da própria voz, como quem entra em igreja no meio da missa. Mesmo fingindo desinteresse, todo mundo sabia em que estágio do processo estava o ex-morador do Palácio do Planalto.

A Coreografia Invisível do Poder

Ilustração editorial de Brasília vista do alto, com carros oficiais em marcha lenta, prédios do Congresso, STF e PF conectados por rampas e setas, sugerindo a coreografia invisível do poder após a prisão de um ex-presidente.

Na Esplanada, os carros oficiais circulavam em marcha lenta, como cidade inteira atravessando faixa de pedestre. Motorista de placa azul dirige como quem leva bomba-relógio, mesmo quando é só assessor atrasado para reunião. Os prédios, com arquitetura de maquete futurista dos anos 60, mantinham cara de quem já viu de tudo. Só a bandeira gigante parecia ter acordado mais tensa, balançando acima da média regulamentar.

Brasília tem talento para parecer tranquila justamente quando faz malabarismo com granadas. Nos gabinetes do STF, o ar era de domingo de prova importante. Estagiário corria com cópia de voto, cuidando para não misturar “decido” com “considero”.

Alexandre de Moraes relia parágrafos como quem revisa lista de ceia: se esquecer um item, o Natal estraga. Comentava em voz baixa se a PF tinha estrutura para receber hóspede ilustre sem parecer hotel de luxo nem masmorra. Concluiu que o melhor lugar para herói de barro é prateleira alta de processo, longe da mão de criança.

No Congresso, a movimentação lembrava recreio em escola de freira. Deputado que chamava Bolsonaro de “líder mundial” passava com o celular colado ao ouvido, em ligação imaginária. Senador veterano repetia que “isso não dura”, com a confiança de quem sempre apostou na impunidade como regime de governo.

Em meio aos corredores, ecoava o bordão “vamos aguardar os desdobramentos”, frase que não compromete e combina com qualquer gravata. O ar cheirava a café, mofo e cálculo eleitoral. Na PF, histórias de bastidor circulavam em volume baixo, como fofoca em consultório. Diziam que o agente escalado para recolher objetos pessoais foi escolhido por ter o armário mais organizado.

Comentava-se que o chefe da carceragem passou a véspera conferindo cadeado, como quem testa pisca-pisca antes de dezembro. Ninguém confirmava nada, mas todo mundo tinha um amigo que tinha ouvido de alguém que “é isso mesmo”. A possível cela virou personagem de rádio corredor antes de ser oficialmente ocupada.

Em alguma mesa de bar perto da rodoviária, alguém já fazia previsão de Natal. Mantendo esse ritmo, dizia ele, Papai Noel terá de entregar panetone na Superintendência, com senha para visita.

Outro sugeriu que a ceia do clã, se tudo seguir assim, terá peru, rabanada e detector de metais na porta. Era piada, claro, mas piada com aquele cheiro remoto de possibilidade que o brasileiro reconhece de longe. Se o golpe não teve Natal, o processo promete ter.

O Dia em que as Máscaras Procuraram Rostos

Caricatura política em salão barroco com Bolsonaro trocando máscaras diante do espelho.

No meio da tarde, as máscaras começaram a procurar novos rostos, como sempre fazem por aqui. Deputado eleito abraçado ao ex-presidente reapareceu em vídeo falando apenas em “governo anterior”. Senhora que decorou o carro com adesivo de campanha mandou o neto tirar tudo, culpando o sol pela pintura manchada.

Na frente da igreja, o pastor Clodomir explicou que nunca misturou fé com política, só boletos com doações. A memória, no Brasil, não é curta, apenas seletiva, e isso tem razão de ser: questão de sobrevivência.

Os influenciadores tiveram sua própria conversão. Vídeo antigo chamando o ex-presidente de “mito” sumiu com a rapidez de cigarro apagado na presença da mãe. No lugar, surgiram reflexões profundas sobre “erro de todos os lados” e “complexidade do momento”. É a versão 2.0 do velho “fui jovem”, agora em HD e monetizada. Quem nunca errou que atire a primeira thread.

Nos bastidores dos partidos, planilhas de apoio pareciam tabela do Brasileirão em rodada decisiva. Aliado de primeira hora descia para o meio da tabela com uma entrevista mal colocada. Figura discreta subia alguns pontos apenas por não ter falado demais quando era moda gritar.

Consultores inventavam gráficos provando que sempre defenderam a democracia, só aguardavam o momento certo de avisar. O retrovisor político só mostra quem estava no banco do carona. Na imprensa, a saturação vinha com adrenalina. Repórter de política, economia e cultura pop falava do mesmo assunto, mudando só o verbo principal. Editor-chefe, olhando o espelho de páginas, queria pôr “é isso mesmo” como manchete e ir dormir.

Como não podia, distribuiu adjetivos com cautela, feito médico passando remédio forte. O momento pedia menos exclamação e mais rodapé de página. Com o passar das horas, a mudança do sábado ficou mais clara. Não era só o ex-presidente conhecendo o lado B da instituição, mas eram seus satélites revendo a própria órbita.

A frase “estamos juntos” virou “estamos juntos na democracia”, que é jeito elegante de dizer “daqui pra frente, cada um por si”. As máscaras encontraram novos rostos, como sempre encontram. Só o rosto do país continuou o mesmo: cansado, cínico e com um pouco menos de maquiagem.

A Geografia Moral de um País em Suspensão

Cidade futurista com igrejas em estilo The Sims, espelhada num mundo invertido sombrio, simbolizando a geografia moral suspensa do Brasil contemporâneo.

À tarde, Brasília ficou com cara de sala de espera grande demais. O céu azul parecia teto de consultório onde o paciente sabe que a notícia não será simples. Nos gramados, famílias faziam piquenique com naturalidade, a poucos quilômetros de uma democracia em raio X. Criança corria atrás de bola, cachorro corria atrás de criança e adulto corria atrás de sinal de internet. A vida continuava, mas com o freio de mão meio puxado.

Nos gabinetes, o assunto oficial já era o dia seguinte. Secretário Fulano queria saber como ficava a agenda com a palavra “preso” pairando sobre certas biografias. Assessora Beltrana revisava discursos futuros, cortando elogios antigos como quem tira passas do arroz.

Todo mundo dizia “institucionalmente é importante”, frase ótima para não explicar nada. Enquanto isso, o telefone seguia tocando com convites para entrevistas que ninguém tinha certeza se era bom aceitar.

Nas calçadas largas da cidade, o clima era de sábado dividido. Casal no sorvete discutia se a coisa vai longe e se ainda dá para viajar no Réveillon. Motorista de aplicativo aproveitava o trânsito leve para ouvir mais um analista jurídico no rádio.

No banco de praça, Dona Lurdes garantiu que “já viu coisa pior”, mas não conseguiu citar nenhuma. O brasileiro se equilibra entre “nada muda” e “agora vai” desde que inventaram a palavra República. Em outras cidades, o retrato não mudava muito.

Em Recife, Seu Manoel fechou a birosca mais tarde para ver o telejornal inteiro, coisa que não fazia desde 2002. Em Manaus, uma professora explicou ao filho o que era golpe usando barquinhos de papel sobre a mesa. Em São Paulo, o metrô levava gente preocupada com boletos e, discretamente, com precedentes jurídicos. O país inteiro parecia testar um músculo novo: o da consequência.

Ao fim do dia, o saldo emocional era confuso. Espanto, porque ninguém acredita totalmente que o sistema se mexa para cima. Alívio tímido, porque é difícil comemorar sabendo o tamanho da fila de casos sem final. E cansaço, muito cansaço, porque o brasileiro já acorda exausto e ainda ganha novidade no noticiário. Mesmo assim, havia um fiapo de sensação nova, algo entre “sobrevivemos” e “talvez dê pra melhorar o roteiro”.

A Noite das Vigílias e de uma Internet em Chamas

Quando a noite chegou, a vigília já parecia cenário fixo de novela. As mesmas cadeiras, os mesmos rostos, vela queimada trocada por outra, bandeira ajeitada pra câmera. Um senhor que se apresentou como irmão Josué distribuía folhetos com versículo e link de canal no YouTube. Uma senhora de casaco em pleno calor garantia sentir “frio espiritual” desde a operação da PF. A rua tinha cheiro de vela, desodorante vencido e esperança teimosa.

Acima deles, o verdadeiro culto acontecia no céu de LED da internet. Os trending topics alternavam nome do ministro, nome do réu, hashtag de apoio e hashtag de ódio. Um vídeo da vigília foi remixado em tempo recorde com batida de funk, tornando o Pai‑Nosso dançante. Outro, com trilha épica, tratava o ex-presidente como personagem bíblico em fase de teste. Nenhum dos dois consultou o advogado antes de ir ao ar.

Velhas falas ressurgiram como fantasmas em plantão noturno. A entrevista sobre “não existe a possibilidade de prisão” voltou em câmera lenta, com novas legendas. Trechos de lives atacando o STF agora dividiam tela com o prédio iluminado do STF ao fundo. O contraste dava menos raiva e mais vergonha alheia, sentimento forte no Brasil desde sempre. Até quem nunca gostou de Moraes pegou leve na piada, com medo de precisar dele um dia.

No núcleo duro, o clima era de luto barulhento. Vídeos em tom de sermão anunciavam perseguição, apocalipse e golpe institucional em 48 horas. Fora da bolha, muita gente que já vestiu amarelo preferiu seguir a vida em silêncio. É difícil defender com entusiasmo alguém que pode passar o Natal negociando horário de visita com agente penitenciário. A fé continua, mas a agenda de fim de ano pesa.

Lá dentro, longe da vigília e do trending topic, a noite foi menos épica. Checagem de cela, registro de plantão, café ralo em copo de plástico, conversa baixa no corredor. Se depender do burocratês, o Natal de Jair será igual ao de qualquer hóspede do sistema: ceia adaptada, TV baixa, visita cronometrada. A diferença é que, do lado de fora, metade do país vai comentar o cardápio e a outra metade vai fingir que não sabe o endereço. Entre uma vela na calçada e um relatório de ocorrência, o sábado terminou avisando que a história começou a levar o próprio enredo a sério.

O peso da martelada final

Detalhe do martelo da Justiça sobre Brasília em colapso institucional.

O trânsito em julgado chegou ao noticiário como quem traz um boletim médico em voz baixa, mas o conteúdo era brutalmente simples: acabou o estoque de manobras. Nada de novo recurso criativo, embargo carinhoso, agravo de última hora. A partir daqui, o ex-presidente deixa de ser frequentador de inquérito e vira oficialmente hóspede da Superintendência da Polícia Federal, com horário de banho de sol e café aguado em copo de plástico. A palavra pomposa, “trânsito em julgado”, desceu da prateleira alta do juridiquês e entrou na sala de estar do país com uma legenda bastante direta: fim da linha para ele e para quem jurava que tudo terminaria num grande “não vai dar em nada”.

O que pegou mais fundo, porém, não foi só o destino do personagem principal, e sim o combo inédito do elenco de apoio: pela primeira vez na história recente, militares de alta patente descobrem que quartel não é casa de repouso, é só mais um CEP sujeito a mandado. Generais e coronéis, acostumados a aparecer em foto de nota oficial como tutores da República, agora aparecem na fila de depoimento, com crachá pendurado e cara de quem finalmente entendeu que “intervenção constitucional” também pode rimar com cela. A fantasia de golpe pedagógico, com tanque fazendo papel de PowerPoint patriótico, terminou em algo bem menos glamouroso: ficha criminal, cama de concreto e advogado explicando que “o momento é delicado” diante de um ventilador barulhento na sala de visitas.

No fundo, a martelada final pesa menos pela pena em si e mais pelo precedente que ela instala, quase sem querer. Não virou país escandinavo, não virou exemplo didático de justiça infalível, não virou catarse coletiva; virou outra coisa, mais discreta e talvez mais incômoda: a lembrança de que, em algum ponto da linha, até a omissão cansa. Da próxima vez que alguém ensaiar bravata de quartel, live com ameaça cifrada ou reunião em gabinete com mapa de golpe sobre a mesa, o som que vai atravessar a memória não é mais o do hino em marcha, é o do martelo seco dizendo “dá cadeia, sim”. E dói bem mais do que discurso inflamado em palanque de quartel.

O resto é o país tentando se ajustar a essa nova informação como quem experimenta sapato apertado: anda torto, reclama, tenta trocar de pé, mas sabe que não volta mais ao chinelo velho. Os mesmos que juravam que “prisão de ex-presidente é coisa de republiqueta” agora precisam administrar o fato de que a tal republiqueta resolveu prender general também. E você, leitor, fica com a parte menos cinematográfica e mais necessária da história: lembrar que esse som seco da martelada existe. Porque amanhã, quando tentarem vender de novo a ideia de que tudo não passou de “exagero” e que o golpe era só “opinião forte”, alguém vai precisar levantar a xícara, apontar para o passado recente e dizer, sem subir o tom: eu lembro do barulho. E sei exatamente quem estava debaixo dele.

EXTRA — O Dia Seguinte de um Dia Histórico

E aí chegamos a hoje, perdidos nessa maluca timelime da noite em que você abre este texto com a mesma cara com que abriu o celular ontem: um pouco incrédulo, um pouco cansado, um pouco curioso para saber “o que vem agora”. A prisão preventiva de Bolsonaro virou fato, a vigília virou paisagem, os memes viraram registro histórico e, no meio disso tudo, você também virou personagem: você que clicou, leu até aqui, compartilhou um print, discutiu num grupo ou só ficou em silêncio, absorvendo.

Dito isso: se veio aqui, se clicou quando viu que eu voltei, significa que você também voltou. Voltou a se importar o suficiente para gastar uns bons minutos na companhia deste café morno e deste cinismo velho. Então, já que está por aqui, vamos combinar: eu não prometo finais felizes, nem análises neutras, nem a tal esperança “sem perder a ternura jamais”. Prometo outra coisa, bem mais modesta e, talvez, mais útil: não deixar passar batido.

Porque sábado foi sim, um dia histórico. Mas dias históricos o Brasil tem de sobra. O que falta, quase sempre, é memória. A gente transforma golpe em anedota, agressão em “polêmica”, abuso em “excesso de linguagem”. O risco, agora, é transformar a prisão de um ex-presidente em apenas mais um link esquecido num mar de notificações.

O Café com Cinismo volta, nesta edição especialíssima, para registrar que não foi normal acordar com a notícia de que o homem que flertou com quartéis, convocou multidões, desacreditou urna, ameaçou ministro e prometeu que nunca seria preso acabou, enfim, conhecendo o lado de dentro de uma medida cautelar levada a sério. E que houve vigília, e houve meme, e houve internet em chamas, e houve um país inteiro tentando entender o que isso diz sobre ele mesmo.

Daqui para frente, o assunto não é só Bolsonaro, até porque ele seguirá preso, preventivamente. Mas o ponto fixa-se em o que fazemos com o vazio que fica quando o mito sai de cena e deixa problema seguir pingando. Ou seja, é o que fazemos com a democracia quando ela finalmente acorda de ressaca e tenta andar em linha reta. É o que fazemos com a nossa tendência irresistível de perdoar, esquecer e recomeçar do zero como se nada tivesse acontecido.

O dia seguinte é sempre menos cinematográfico que o dia da prisão. É burocrático, repetitivo, ingrato. É feito de audiência, despacho, contraditório, prazo. É justamente por isso que vale a pena olhar para ele com atenção. Porque é no dia seguinte que a gente descobre se a justiça virou rotina ou se tudo não passou de um sábado emocionante.

E é aqui que eu fico: na função chata e necessária de lembrar, reler, relatar. Se você quiser, passa por aqui de vez em quando. O café eu garanto. O cinismo, infelizmente, o país não deixa faltar.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 01/12/2025
  • Fonte: Sorria!,