Bolsonaristas transformam crise da Ypê em disputa política nas redes
Vice-prefeito de São Paulo, parlamentares e apoiadores de Jair Bolsonaro passaram a incentivar consumo da marca após alerta sanitário da Anvisa
- Publicado: 11/05/2026 13:01
- Alterado: 11/05/2026 13:03
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
A crise envolvendo produtos da Ypê ganhou uma dimensão política inesperada nos últimos dias e passou a mobilizar lideranças bolsonaristas nas redes sociais. O que começou como uma medida cautelar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), após a identificação de irregularidades em etapas da produção da fábrica da empresa em Amparo, no interior paulista, rapidamente se transformou em uma disputa pública envolvendo desconfiança institucional, militância digital e campanhas em defesa da marca.
A movimentação ganhou força depois que o vice-prefeito de São Paulo, Coronel Ricardo Mello Araújo (PL), publicou um vídeo utilizando produtos da fabricante e incentivando consumidores a comprarem itens da empresa, mesmo diante da recomendação da Anvisa para que determinados lotes não fossem utilizados até a conclusão das análises sanitárias.
Nas imagens divulgadas nas redes sociais, Mello Araújo aparece lavando louça enquanto exibe detergentes e outros produtos da marca. Durante o vídeo, o vice-prefeito afirma: “Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com essa empresa 100% brasileira. Vamos nos supermercados, vamos comprar produtos Ypê. Quem tem produtos Ypê, posta no Instagram, marca a Ypê”.
Confira:
A publicação rapidamente passou a circular entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e abriu espaço para uma campanha informal em defesa da empresa. Em diferentes plataformas, consumidores passaram a compartilhar vídeos comprando produtos da marca, exibindo prateleiras de supermercados e incentivando boicotes à Anvisa.
Parlamentares associam ação da Anvisa ao governo Lula
O discurso adotado por parte da direita nas redes sociais tenta associar a decisão da agência reguladora a uma suposta perseguição política contra a empresa. Um dos exemplos foi o deputado estadual Lucas Bove (PL-SP), que publicou vídeo defendendo a fabricante e atacando a atuação da Anvisa. “Seguindo o vídeo do nosso querido Coronel Mello Araújo, vice-prefeito de São Paulo, aqui em casa só produto Ypê, que é gente séria, gente direita, gente bolsonarista e, por isso, está sendo perseguida”, declarou o parlamentar.
O prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), também entrou na discussão. Em vídeo publicado nas redes, afirmou que os lotes apontados pela fiscalização deveriam ser substituídos, mas criticou o que chamou de tentativa de massacrar a empresa.
Outro nome que aderiu à mobilização foi o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que questionou publicamente a atuação da Anvisa e relacionou a investigação ao fato de a empresa ter realizado doações para a campanha de Jair Bolsonaro em 2022.
Michelle Bolsonaro também publicou conteúdos positivos envolvendo a marca em meio à repercussão do caso.
Com o avanço da discussão política, vídeos ainda mais radicais começaram a circular nas redes sociais, incluindo pessoas utilizando os produtos diante das câmeras como forma de protesto contra a agência reguladora. Em alguns casos, conteúdos chegaram a mostrar pessoas ingerindo detergente, comportamento criticado por especialistas e que ampliou a preocupação envolvendo a desinformação sobre os riscos sanitários.
🚨 VEJA l Bolsonarista surge mamando em frasco de detergente Ypê e chama atenção pic.twitter.com/dT6D0Wy9gn
— Notícias Paralelas (@NP__Oficial) May 10, 2026
Anvisa mantém orientação para que produtos não sejam usados

Enquanto a disputa política se intensifica nas redes, a Anvisa mantém a orientação para que consumidores evitem utilizar produtos fabricados nos lotes investigados até que o processo seja concluído.
Segundo a agência, inspeções realizadas em conjunto com órgãos estaduais e municipais identificaram “descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo”, além de falhas nos sistemas de controle de qualidade da fábrica responsável pela produção de detergentes, lava-louças líquidos, lava-roupas líquidos e desinfetantes.
A principal preocupação sanitária envolve a possibilidade de contaminação microbiológica, incluindo a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa, conhecida pela resistência a antibióticos e pela capacidade de provocar infecções em pessoas imunossuprimidas, pacientes hospitalares e indivíduos com feridas abertas.
Mesmo após a suspensão temporária da decisão administrativa pela Justiça, a agência reiterou sua posição. “Mesmo com o efeito suspensivo, a Anvisa recomenda que os consumidores não usem os produtos indicados, por segurança. É de responsabilidade da empresa orientar cidadãs e cidadãos, por meio do seu Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC), sobre procedimentos de recolhimento, troca, devolução, ressarcimento ou outras providências cabíveis”.
O presidente da Anvisa, Leandro Safatle, afirmou que o recurso apresentado pela fabricante será analisado pela diretoria colegiada da agência nos próximos dias.
Ypê afirma que linhas seguem suspensas

Em nota enviada à imprensa, a Ypê informou que mantém suspensas as linhas de produção relacionadas aos produtos líquidos investigados, independentemente da decisão judicial que suspendeu temporariamente a medida administrativa.
“A Ypê esclarece que tem mantido suspensa as linhas de produção da sua fábrica de líquidos desde o último dia 07 de maio, responsáveis pela fabricação dos produtos lava-roupas líquido, lava-louças líquido e desinfetantes de número de lote final 1 (um), objeto da RE n. 1834/2026.”
A empresa afirma ainda que “esta medida continua em curso, independentemente do efeito suspensivo obtido com o nosso recurso, e tem como objetivo acelerar o cronograma e a conclusão de medidas apontadas pela Anvisa durante a última fiscalização”.
A fabricante também declarou que segue colaborando com as autoridades sanitárias. “Com a conclusão de mais esta etapa nos próximos dias, a Ypê reforça sua colaboração máxima com as autoridades na busca por uma solução definitiva para a situação, o mais breve possível, reafirmando, acima de tudo, o seu compromisso permanente com a segurança e a saúde dos consumidores”.