Bolsa em Foco: Vale, Juros (FED) e Votação do Imposto de Renda

Temporada de balanços (Vale, Gerdau) e votação do IR no Congresso ditam o ritmo, enquanto mercado digere corte de juros do FED e espera dados do CAGED.

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Bolsa em Foco: O mercado financeiro brasileiro opera em um dia de alta tensão e expectativas cruzadas. “Hoje”, 30 de outubro de 2025, os investidores precisam equilibrar pratos que giram em velocidades e direções diferentes.

De um lado, o cenário internacional traz a “ressaca” da decisão do Federal Reserve (FED), o banco central americano, que, embora tenha cortado os juros ontem (29), sinalizou uma postura dura contra a inflação, desanimando quem esperava mais estímulos.

Do outro lado, o cenário doméstico está em ebulição. A Temporada de Balanços do Terceiro Trimestre (3T25) ganha tração com números muito aguardados, como os da Vale (VALE3) e Gerdau (GGBR4). Simultaneamente, Brasília ferve com votações cruciais no Congresso Nacional que podem alterar as regras do jogo fiscal, desde a isenção do Imposto de Renda até a criação de novos impostos.

Para a classe média, que observa o impacto desses eventos no seu bolso – seja no preço do dólar, no retorno da poupança ou na geração de empregos –, o dia exige cautela. O Ibovespa, principal índice da Bolsa em Foco, deve enfrentar volatilidade, dividido entre as boas notícias das empresas nacionais e o ceticismo vindo do exterior.


Bolsa em Foco: O Raio-X da Temporada de Balanços 3T25

A principal força motriz dos mercados nesta semana é a divulgação de resultados corporativos. É a “hora da verdade”, onde as empresas mostram se a estratégia adotada está, de fato, gerando lucro.

Big Techs: O Dilema da Inteligência Artificial e a “Ressaca” do Lucro

Nos Estados Unidos, os resultados das “Big Techs” deram o tom da semana e expuseram uma divisão clara no setor de tecnologia.

Os números já divulgados por Alphabet (dona do Google), Meta (dona do Facebook e Instagram) e Microsoft foram um verdadeiro “choque de realidade”. A Meta, por exemplo, viu suas ações despencarem quase 9% no pré-mercado. O motivo? A empresa reportou uma queda assustadora de 83% no lucro líquido do terceiro trimestre.

Isso não significa que o Facebook vai quebrar. Significa que a empresa está gastando rios de dinheiro em apostas de longo prazo, como o “Metaverso” e o desenvolvimento de Inteligência Artificial, e os investidores de curto prazo não estão gostando de pagar essa conta sem ver um retorno imediato.

Na contramão, a Alphabet (Google) viu suas ações subirem mais de 7%. A empresa provou que seus investimentos em IA já estão trazendo retorno, especialmente em buscas e serviços de nuvem. A Microsoft, por sua vez, teve uma reação mais modesta, com queda de 2%, enquanto o mercado digere seus números.

Agora, as atenções se voltam para os balanços da Apple e da Amazon, que serão divulgados em breve. Eles serão o “voto de minerva” para definir o humor do setor de tecnologia global.

Bolsa em Foco no Brasil: O Destaque para Vale, Gerdau e Bancos

No Brasil, a expectativa é igualmente alta. Hoje, após o fechamento do mercado, duas gigantes do setor de commodities (matérias-primas) apresentam seus números: Gerdau (GGBR4) e Vale (VALE3).

A Vale é o grande destaque. Após um período difícil, as estimativas de mercado apontam para um trimestre robusto. Analistas projetam um lucro líquido expressivo, variando entre US$ 2,01 bilhões e US$ 2,61 bilhões no período.

O que explica essa melhora? Dois fatores principais:

  1. Preço do Minério de Ferro: O principal produto da Vale teve uma alta significativa no mercado internacional (fechou em alta de 0,38% hoje em Dalian, a US$ 113,05 por tonelada), impulsionando a receita da companhia.
  2. Venda de Ativos: A empresa concluiu a venda de 70% da Aliança Energia, o que colocou US$ 1 bilhão “limpos” no caixa.

Além das gigantes de commodities, o mercado também repercute os resultados dos grandes bancos. Ontem (29), Bradesco (BBDC4) e Santander (SANB11) divulgaram seus números, e a expectativa é que o setor de consumo e serviços domésticos (como shoppings, transporte e saúde) mostre crescimento, apesar de um cenário econômico ainda desafiador. A Petrobras (PETR4), outra gigante da bolsa, divulgará seus números apenas na próxima semana, em 6 de novembro.


O Xadrez dos Juros: FED Corta, BCE Pondera e Copom Espera

O tópico mais sensível para o dinheiro global é a taxa de juros. Ela define o “preço do dinheiro” e para onde os grandes investimentos vão. Esta semana, os três principais bancos centrais do mundo estão em foco.

Federal Reserve (FED) Pisa no Freio (de Novo), Mas com o Pé na Embreagem

Ontem (29), como esperado, o FED cortou a taxa de juros dos EUA em 0,25 pontos-base. A nova faixa agora está entre 3,75% e 4,00% ao ano. Este foi o segundo corte consecutivo, uma tentativa de “flexibilização monetária” – ou seja, baratear o crédito para reaquecer a economia e, principalmente, sustentar o mercado de trabalho.

No entanto, a reação dos mercados em Nova York (futuros em baixa) foi negativa. Por quê? Por causa do discurso de Jerome Powell, o presidente do FED. Ele sinalizou que, embora tenha cortado agora, a inflação ainda preocupa e o banco central pode não realizar novos cortes em dezembro.

Foi o que o mercado chama de um “hawkish cut” (um “corte duro”). O FED deu o remédio, mas avisou que a dose pode não aumentar. Além disso, o FED anunciou o fim do “Quantitative Tightening” (QT) – um processo complexo onde ele estava “enxugando” dinheiro do mercado. O fim do QT é, na prática, outro estímulo.

Brasil e a Selic “Teimosa” de 15%: O Preço de Controlar a Inflação

Enquanto os EUA cortam juros, a Bolsa em Foco no Brasil vive uma realidade oposta. A próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil) acontece na próxima semana (4 e 5 de novembro), mas o mercado já tem sua aposta: a Taxa Selic deve ser mantida nos atuais 15,00% ao ano.

O Boletim Focus (pesquisa do BC com os principais economistas) mostra que a expectativa é que a Selic permaneça nesse patamar elevado pela 18ª semana consecutiva, com cortes sendo esperados apenas para 2026.

A razão é simples: inflação. Embora o IPCA (índice oficial) tenha cedido, a projeção para 2025 ainda é de 4,56%, ligeiramente acima do teto da meta (4,50%). O Banco Central prefere “errar para cima” nos juros para garantir que os preços não voltem a disparar.

O que isso significa para você?

  1. Crédito Caro: Financiamentos e empréstimos continuam muito caros no Brasil.
  2. Renda Fixa Atrativa: Investimentos atrelados à Selic (como o Tesouro Selic) seguem pagando bem.
  3. “Carry Trade”: Essa diferença gigante entre os juros dos EUA (4,00%) e os do Brasil (15,00%) atrai muito dólar para o país. Investidores estrangeiros trazem seu dinheiro para “ganhar o juro brasileiro”, o que ajuda a segurar a cotação do dólar, impedindo que ele dispare.

Banco Central Europeu (BCE) em Cima do Muro

Para completar o cenário, a Europa também define seus juros hoje. A expectativa é que o BCE mantenha suas taxas inalteradas, mas o mercado está ansioso pela coletiva de imprensa de sua presidente, Christine Lagarde. A Europa vive um dilema próprio, com inflação alta e risco de recessão econômica. A cautela domina os mercados regionais antes da fala e da divulgação de dados do PIB local e balanços de empresas como AB Inbev e Shell.


Brasília em Ebulição: Da Reforma Tributária ao Imposto de Renda

Tão importante quanto a economia, a política em Brasília define os rumos do país. O Congresso está trabalhando em ritmo acelerado em pautas que impactam diretamente o orçamento federal e o bolso do contribuinte.

O “Destravamento” da Reforma Tributária no Senado

Uma notícia estrutural importante passou pelo Senado no início de outubro e seus efeitos começam a ser sentidos: a aprovação da segunda parte da regulamentação da Reforma Tributária (PLP 108/2024).

Essa aprovação criou o Comitê Gestor do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços). Em termos simples, o IBS é o “coração” da reforma; ele será o imposto único (um IVA – Imposto sobre Valor Agregado) que substituirá a confusão atual de impostos como o ICMS (estadual) e o ISS (municipal). A criação desse comitê é o passo burocrático essencial para que a reforma, enfim, saia do papel e comece a transição, prevista para ser plena em 2033.

A Batalha pelo Imposto de Renda (IR) e o Orçamento de 2025

O foco do dia no Congresso é a deliberação sobre o Projeto de Lei (PLN) 1/2025. Esse projeto mexe com a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) – que são as “regras do jogo” para os gastos do governo no ano que vem.

O projeto tem dois pontos centrais:

  1. Isenção do IR: Garante que o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000,00 (cinco mil reais) se torne permanente. Esta é uma medida popular e muito aguardada pela classe média.
  2. Aumento de Despesas: O texto “contrabandeia” uma autorização para despesas relacionadas a um possível aumento no número de deputados federais.

Este é um clássico dilema fiscal: o governo abre mão de receita (com a isenção do IR) e, ao mesmo tempo, autoriza mais gastos (com mais deputados). Os investidores monitoram essa votação de perto para ver se a responsabilidade fiscal será mantida.

O “Rearp” e a Volta Surpresa do IOF

Para complicar o cenário fiscal, a Câmara dos Deputados aprovou ontem um projeto que institui o “Rearp” (um programa de renegociação de dívidas) e, junto com ele, reativou partes de uma Medida Provisória que envolve o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). A proposta, que agora segue para o Senado, é vista como uma vitória para o governo federal, que busca desesperadamente aumentar a arrecadação para tentar cumprir a meta de resultado primário.


O Termômetro da Economia Real: Emprego, Inflação e o “Shutdown” dos EUA

Além das decisões políticas e dos balanços, os dados macroeconômicos mostram a saúde “real” da economia.

O “Shutdown” dos EUA e o PIB no Escuro

Nos EUA, a situação é peculiar. O país enfrenta o segundo “shutdown” (paralisação do governo) mais longo de sua história, já durando 30 dias. Um shutdown ocorre quando o Congresso não aprova o orçamento, e serviços públicos “não essenciais” param de funcionar.

Isso afeta o mercado financeiro diretamente: dados cruciais, como a primeira prévia do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre e os pedidos semanais de auxílio-desemprego, podem simplesmente não ser divulgados hoje. O mercado fica “no escuro”, aumentando a incerteza e a aversão ao risco.

A “Trégua Fria” entre EUA e China

Paralelamente, o mercado reagiu com ceticismo ao “acordo comercial” anunciado entre Estados Unidos e China. Após encontro entre os presidentes, foi anunciada uma redução das tarifas de importação sobre produtos chineses de 57% para 47%.

A reação foi morna. As bolsas asiáticas fecharam em queda, refletindo a desconfiança de que isso seja uma solução real. O sentimento é de uma “trégua fria”, não de paz comercial. O Banco do Japão (BoJ) também contribuiu para a cautela ao decidir manter suas taxas de juros inalteradas.

CAGED: O Ritmo da Geração de Emprego no Brasil Desacelera?

No Brasil, o grande dado do dia é o CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) referente a setembro. O CAGED é vital por mostrar quantos empregos formais (com carteira assinada) foram criados.

As previsões indicam uma criação líquida de aproximadamente 169 mil novas vagas. Embora seja um número positivo, ele indica uma desaceleração em relação aos meses anteriores (as previsões variam de 130 mil a 247 mil). O economista Bruno Imaizumi, por exemplo, projeta um saldo mais otimista, de 185 mil novas vagas. Esse número será fundamental para entender se a economia brasileira está perdendo fôlego na reta final do ano.

IGP-M e a Sombra da Inflação do Aluguel

Também será divulgado hoje o IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado) de outubro. Este índice é conhecido como a “inflação do aluguel”, pois é amplamente utilizado para reajustar contratos de locação. Ele é mais sensível ao dólar e aos preços no atacado (matérias-primas, indústria) do que o IPCA. Uma alta no IGP-M pode sinalizar pressões inflacionárias futuras.

Além disso, o mercado aguarda os dados do resultado primário do Governo Central (setembro). Este dado mostra se o governo gastou mais ou menos do que arrecadou, antes de contar o pagamento de juros da dívida. É o principal termômetro do esforço fiscal. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que estará em um evento em São Paulo, certamente será pressionado a comentar esses números.


Conclusão: A Bolsa em Foco ao Navegar Águas Turbulentas

O dia de hoje é um teste para o fôlego do investidor. As ADRs (recibos de ações brasileiras negociadas em Nova York) da Vale caíam levemente no pré-mercado, enquanto as da Petrobras mostravam estabilidade, sinalizando uma abertura cautelosa para o Ibovespa.

A expectativa é que a cautela nos mercados internacionais, causada pelo discurso duro do FED e pela falta de entusiasmo com o acordo EUA-China, possa levar a uma “realização de lucros” na bolsa brasileira – um movimento de venda para colocar no bolso os ganhos recentes.

O foco doméstico se dividirá entre as notícias micro (os resultados de Vale e Gerdau) e as notícias macro (a votação do IR no Congresso e os números do CAGED). Para o cidadão comum, o dia é um lembrete de como a economia global e as decisões políticas em Brasília estão intrinsecamente ligadas ao seu emprego, seu poder de compra e seus investimentos.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 30/10/2025
  • Fonte: Sorria!,