Caminho sem volta: bicicletas ganham força na mobilidade urbana

Modal sustentável cresce no mundo e avança no Brasil, enquanto políticas públicas e tecnologia abrem espaço para uma nova cultura de deslocamento urbano

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No século passado, vivemos o boom da produção em massa, liderado pelas indústrias automobilísticas, que com o tempo passaram a se autodenominar indústrias da mobilidade. O fato é que, da mesma forma que houve uma transformação expressiva na oferta de vias para o transporte rodoviário, principalmente voltadas ao transporte individual, essa “solução” se converteu em congestionamentos diários nas grandes cidades ao redor do mundo, enquanto modais alternativos, como as bicicletas, seguiam marginalizados nas políticas urbanas.

O efeito dominó da cultura do carro

Países europeus, sobretudo os países da região norte, foram os primeiros, ainda no século passado, a buscar alternativas sustentáveis. Eles romperam com a dependência criada pela cultura americana das quatro rodas, impulsionada após a Segunda Guerra Mundial, e conseguiram. Com baixo investimento em infraestrutura para ciclistas, combinada a restrições parciais e até mesmo totais ao uso de automóveis em determinadas regiões, esses países viabilizaram o retorno da cultura ciclística. Como consequência, os índices de acidentalidade caíram significativamente, graças à redução da promoção do carro como único meio de transporte.

Não se trata de ser contra os automóveis, desde que seu uso seja reservado a situações de conforto, lazer ou necessidade real. O que precisamos são políticas públicas que incentivem modais sustentáveis, promovendo um ambiente seguro e saudável nos deslocamentos do dia a dia. Quando não há alternativas, e quando a expansão viária se dá apenas para o modal rodoviário individual, o recado é claro: usem exclusivamente o carro e assumam os riscos crescentes pela ausência de opções.

Mobilidade urbana em transição

Até a cidade de Nova York, considerada a capital do mundo, se rendeu às bicicletas. Desde 2014, a cidade já construiu mais de 771 km de ciclovias, incluindo 290 km de ciclovias protegidas. A rede de Greenways também foi ampliada, oferecendo mais 160 km de caminhos fora das ruas para ciclistas e pedestres. A cidade reduziu os limites de velocidade, intensificou a adoção do conceito de Ruas Completas, ampliando o leque modal, e implementou, não sem resistência, o pedágio urbano em Manhattan.

Bicicletas
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É evidente que cidades litorâneas possuem mais facilidade para a implementação das bicicletas e da cultura ciclística, seja pelas condições climáticas, seja pelo relevo mais plano. No entanto, a tecnologia tem ajudado a superar essas barreiras, e um exemplo claro são as bicicletas híbridas, que combinam pedal com motor elétrico. A cidade de São Paulo, com relevo desfavorável, já apresenta uma malha cicloviária semelhante à de Nova York e, mesmo com seus desafios, vem conquistando avanços importantes no uso da mobilidade ativa.

Políticas públicas que pedalam junto com a população

Agora, imaginemos políticas públicas que incentivem, inclusive com subsídio financeiro, o uso de bicicletas híbridas para entregas de alimentos, em substituição às motocicletas? A tendência não seria a redução do número de acidentes? E se houvesse integração plena entre bicicletários e os terminais de ônibus e estações de metrô, com estrutura adequada, conforto e segurança para que o ciclismo se tornasse parte efetiva do trajeto até o destino final, em vias segregadas? Não veríamos uma redução significativa na quantidade de automóveis e motocicletas circulando? Além disso, os ganhos em qualidade de vida e saúde pública seriam imensos. Até mesmo a emissão dos tão temidos gases poluentes seria reduzida, sem falar nos custos com internações no SUS, que tenderiam a cair.

Bicicletas
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Enquanto mais de 140 cidades brasileiras já instituíram a tarifa zero para o transporte público por ônibus, uma medida brilhante, quando bem planejada, a cidade de Niterói, em parceria com a iniciativa privada, deu um passo além. Implantou um sistema de bicicletas compartilhadas com gratuidade de até 60 minutos de uso de segunda a sábado, e 90 minutos aos domingos e feriados. Após esse tempo, há cobrança proporcional. Uma iniciativa fantástica: oferece-se a ciclovia e o meio de aproveitá-la, sem a necessidade de adquirir o bem de transporte.

Na semana em que se celebra o Dia Mundial da Bicicleta, instituído pelas Nações Unidas em 2018, não poderia deixar de escrever sobre esse modal tão fundamental para a mobilidade urbana. Se fosse olhado com mais atenção, poderia significar uma revolução no estilo de vida de muitas famílias. Contudo, segue restrito, muitas vezes, por ausência de integração, de comunicação efetiva e de uma visão de futuro nas políticas públicas da maioria das cidades brasileiras.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
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Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.


  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 05/06/2025
  • Fonte: Sorria!,