Bett Brasil encerra edição 2025 com debates sobre hiperconectividade, acolhimento e futuro

Evento destacou a urgência de políticas educacionais sensíveis à realidade escolar e o papel das escolas frente aos desafios digitais e emocionais da juventude

Crédito: Divulgação

No último dia da Bett Brasil 2025, os debates mostraram que os desafios da educação ultrapassam os limites físicos da escola. Especialistas, gestores e educadores se reuniram para discutir soluções que integram inovação, escuta ativa e políticas públicas ajustadas à realidade das comunidades escolares, com atenção especial aos impactos da tecnologia na formação dos estudantes e às transformações no ensino médio.

Hiperconectividade e o uso de celulares: dilemas e oportunidades

O Fórum de Gestores abriu espaço para um dos temas mais sensíveis da atualidade: o uso de celulares nas escolas. O jornalista, educador e escritor Alexandre Sayad defendeu uma governança digital articulada entre poder público, instituições de ensino e famílias. “Vivemos em um mundo acelerado, repleto de informações. Precisamos de regulação, educação midiática e orientação parental para navegar com segurança”, pontuou.

Sayad lembrou que, em um país desigual como o Brasil, o celular foi ferramenta fundamental para garantir o acesso à aprendizagem durante momentos críticos. Segundo ele, é possível transformar o dispositivo em um aliado pedagógico, desde que haja supervisão e diretrizes claras. “É necessário integrar os currículos da escola, do digital e da cidade.”

A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, alertou para os efeitos negativos da hiperconectividade. Segundo ela, há correlação direta entre o uso excessivo de tecnologia e o aumento da violência, do isolamento e de quadros de saúde mental entre crianças e adolescentes.

“O celular se tornou o cigarro do nosso tempo. Ignoramos os riscos em nome da praticidade, mas os efeitos já são visíveis”, afirmou Cavalieri. A juíza destacou ainda dados alarmantes: o índice de suicídio entre meninas de 12 a 14 anos aumentou 200% na última década, em grande parte devido às pressões comportamentais impostas pelas redes sociais.

Ela defendeu escolas mais acolhedoras e menos punitivas, com investimento nas relações humanas. “A violência é sintoma de necessidades não atendidas. Se não as compreendermos, continuaremos tratando apenas as consequências.”

Cavalieri mencionou ainda o Projeto de Lei 4474/2024, em tramitação na Câmara dos Deputados, que busca responsabilizar as big techs pelos conteúdos direcionados a crianças e adolescentes. O Brasil é atualmente o segundo maior usuário de redes sociais no mundo, o que amplia a urgência da discussão.

Novo ensino médio: da teoria à prática

Outro eixo central dos debates foi o novo ensino médio, tema de uma roda de conversa que reuniu educadores com experiências práticas no novo modelo. As discussões giraram em torno do projeto de vida, das habilidades socioemocionais e da reestruturação dos itinerários formativos, previstos na nova resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE).

Pelas diretrizes, os itinerários técnicos e profissionalizantes deverão ter entre 600 e 1.200 horas, com certificação reconhecida, e se organizarão a partir de quatro eixos estruturantes:

  • Método, Conhecimento e Ciência
  • Mediação e Intervenção Sociocultural
  • Inovação e Intervenção Tecnológica
  • Mundo do Trabalho e Transformação Social

A especialista em educação do SESI, Luciana Guimarães, destacou o avanço que representa a centralidade do projeto de vida: “É um caminho que aproxima o jovem da sua própria trajetória”. Ela defendeu ainda o maior envolvimento das famílias, propondo inclusive que os pais participem de aulas experimentais para compreender os novos métodos de ensino.

A coordenadora pedagógica Talita Marcília compartilhou a experiência de sua rede, que aderiu ao novo modelo em 2017. “Desde então, integramos o projeto de vida nas práticas escolares e estruturamos matérias que se tornaram itinerários.” Ela lamentou, no entanto, a redução na variedade de caminhos formativos e reforçou a necessidade de trabalhar temas como autoconhecimento, mediação de conflitos e relações interpessoais.

O painel foi mediado por Vinicius Oliveira, editor do portal Porvir, que provocou os participantes a refletirem sobre os aprendizados da jornada de implementação. O consenso foi de que escutar os estudantes e capacitar os professores são pilares para o sucesso da reforma.

Próximos passos

A organização da Bett Brasil anunciou que a próxima edição da Jornada Bett Nordeste ocorrerá nos dias 27 e 28 de agosto de 2025, no Recife. O evento itinerante visa ampliar o diálogo com educadores, instituições e empresas do ecossistema educacional nordestino.

Já a 32ª edição nacional da Bett Brasil está confirmada para os dias 5 a 8 de maio de 2026, no Expo Center Norte, em São Paulo.

Serviço – Bett Brasil 2026
Data: 5 a 8 de maio de 2026
Local: Expo Center Norte
Endereço: Rua José Bernardo Pinto, 333 – Vila Guilherme – São Paulo/SP
Mais informações: https://brasil.bettshow.com

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 02/05/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo