Bellízio transforma confusão e solidão em arte pop no single “História Mal Escrita”

Com um pé no indie pop e outro no rock alternativo com arranjos eletrônicos, “História Mal Escrita” é, acima de tudo, um retrato sensível de alguém que tenta entender onde foi que tudo se perdeu

Crédito: He_Art | @hecoverart

“Eu não lembro o que eu fiz da minha vida.”

A frase parece um desabafo perdido na madrugada, mas é também o eixo que sustenta o novo single de bellízio, “História Mal Escrita”, música que dá nome ao seu álbum de estreia e aponta o norte (ou a falta dele) de uma geração que vive entre o ruído das redes e o silêncio do próprio quarto.

bellízio, que assina a composição como Belizio Feitosa Beserra, entrega uma canção que não pede licença para entrar: ela simplesmente entra — de ressaca, de alma cansada e de coração aberto. Com um pé no indie pop e outro no rock alternativo com arranjos eletrônicos,“História Mal Escrita” é, acima de tudo, um retrato sensível de alguém que tenta entender onde foi que tudo se perdeu.

Logo nos primeiros versos, somos levados para um cenário tão comum quanto incômodo: o acordar desorientado, com a cabeça pesada, notificações no celular e uma rotina que já começa atrasada. O que poderia ser apenas uma crônica de mais uma noite qualquer vira, na voz de bellízio, um espelho de crises mais profundas.

“Mensagens perdidas / Quem são todas essas meninas?”

“Confissões de uma noite mal dormida.”

“A minha volta vejo almas de papel.”

Esses trechos revelam um lirismo urbano que combina bem com o tom do artista: introspectivo, mas direto. Não há rebuscamento artificial — há, sim, um desejo verdadeiro de fazer da confusão uma arte comunicável.

Uma vida sem roteiro — e uma música com camadas.

A estrutura da música gira em torno da repetição de sentimentos conflitantes: verdades, mentiras, contradições. Isso não é apenas um recurso sonoro, mas uma forma de mostrar que o eu-lírico está preso num ciclo — emocional, social e existencial. E se a letra se repete, o faz com propósito: dar forma ao vazio.

A escolha de trazer elementos eletrônicos por cima de uma base melódica com influências do hard rock amplia a sensação de um coração moderno e partido. A voz de bellízio vai se impondo aos poucos, ganhando força e atingindo seu ápice na nota aguda de “amantes de aluguel” — momento em que a música rasga qualquer vestígio de superficialidade e mergulha na solidão urbana.

Ainda pouco conhecido do grande público, bellízio começa a trilhar sua jornada como um artista que não tem medo de expor suas falhas, suas noites mal dormidas e suas verdades contraditórias. Esse tipo de vulnerabilidade tem ganhado espaço na nova cena independente, onde a estética lo-fi, os arranjos elaborados e a escrita confessional constroem pontes sinceras com o ouvinte.

bellízio vem de um lugar onde não basta ter voz — é preciso ter o que dizer. E ele diz, mesmo quando tudo parece desorganizado. Mesmo quando a história, como ele canta, parece mal escrita.

Como primeiro single de um álbum de estreia, “História Mal Escrita” é uma escolha ousada e certeira. Não é uma faixa feita para agradar de primeira, mas para cutucar memórias e abrir espaço para reflexão. É canção para ouvir sozinho, com fones de ouvido e luz baixa, num dia em que tudo parece estar desmoronando — ou apenas fora do lugar.

Com esse lançamento, bellízio nos lembra que a música ainda é, talvez mais do que nunca, um lugar para se perder com algum sentido. E que, mesmo as histórias mal escritas, merecem ser contadas — com honestidade, coragem e arte. 

Temos aqui não só um novo artista, mas uma nova voz a ser acompanhada de perto.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 04/07/2025
  • Fonte: Multiplan MorumbiShopping