Beija-Flor: Tema fica entre Guiné Equatorial e Polêmica

Ditadura milionária de um país muito pobre rende R$ 10 milhões de patrocínio para a escola de Nilópolis. Veja a Galeria de Fotos

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O primeiro carro alegórico da Beija-Flor tem seis integrantes fantasiados de cada lado, no chão, fazendo coreografias. Esse recurso é pouco habitual – em geral todos os fantasiados ficam sobre as alegorias. Os foliões fantasiados no chão passam despercebido por quem está nas partes mais altas da arquibancada mas fazem uma integração com o público das frisas, que ficam à margem da pista.

Passados 25 dos 82 minutos que a Beija-Flor pode usar em seu desfile, a garoa voltou ao Sambódromo do Rio. A comissão de frente da Beija-Flor buscou homenagear a cultura africana, disse o coreógrafo Marcelo Misailidis. “A arte africana das máscaras é uma das referências mais importantes da África. Elas vêm justamente representar a ancestralidade e as manifestações espirituais”, afirmou. O enredo da escola fala sobre a Guiné Equatorial.

BEIJA-FLOR TEM CORRERIA NA DISPERSÃO E CAMAROTE DA GUINÉ
Nos dez minutos finais de seu desfile, componentes da Beija-flor protagonizaram uma saída desorganizada na área da dispersão. Integrantes de diferentes alas se misturaram e houve uma pequena correria. Dois carros da escola ainda não haviam deixado a Praça da Apoteose, e havia outros dois para chegar à área de dispersão. O diretor de carnaval da escola, Laila, disse ter ficado satisfeito com a apresentação da escola, feita sem “correria”. “O tempo foi bom, a escola não teve correria. Deu para apresentar direito, foi muito bom”, comentou a jornalistas.

O governo da Guiné Equatorial, que patrocina o enredo em sua homenagem da Beija-Flor, tem um camarote grande no setor 2 da Sapucaí, decorado com as cores de sua bandeira, branco, verde e vermelho. A Beija-Flor não divulga quais integrantes do governo do país africano vieram assistir ao desfile, mas era esperada a chegada de Teodorin Mangué, que é a ponte do país com a Beija-Flor, por ser frequentador do sambódromo.

O valor do patrocínio chegaria a R$ 10 milhões. A escola só confirma R$ 5 milhões. A homenagem, que se estendeu ao continente e fez referências a tribos, religiões, fauna e flora, rendeu críticas à Beija-Flor, uma vez que o pai de Teodorin, Teodoro Obiang, é um ditador há 35 anos no poder, um chefe de Estado milionário de um país de população muito pobre, apesar da renda abundante advinda do petróleo.

DIPLOMATA DA GUINÉ SAI NA BEIJA-FLOR REPRESENTANDO PAÍS
Embora o enredo da Beija-Flor seja uma homenagem à Guiné Equatorial, país africano de 700 mil habitantes cujo presidente mantém uma ditadura de 35 anos e teria pago R$ 10 milhões à escola de Nilópolis (Baixada Fluminense), só uma autoridade desfilará representando aquela nação.

Será o embaixador de Guiné Equatorial no Brasil, Benigno-Pedro Tang. Ele estará no sétimo e último carro alegórico. O presidente do país, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, e diversas autoridades estão num camarote adquirido pelo próprio governante e não foram à concentração acompanhar os preparativos para o desfile.

O enredo patrocinado da Beija-Flor ocorre um ano após a escola homenagear o empresário José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, num enredo sem patrocínio que lhe rendeu apenas o sétimo lugar. A ditadura do país homenageado é alvo de denúncias internacionais de desrespeito aos direitos humanos, o que fez o enredo ser comparado a alguns apresentados pela Beija-Flor na década de 1970, antes da contratação do carnavalesco Joaosinho Trinta. Na época, a escola de Nilópolis fez homenagens a aspectos da ditadura militar brasileira. A direção da Beija-Flor rechaçou a comparação.

HOMENAGEM À GUINÉ FORTALECE RELAÇÕES, DIZ EMBAIXADOR
Em meio à dispersão da Beija-Flor e sem chamar atenção com esquemas de segurança, o embaixador da Guiné Equatorial no Brasil, Benigno Pedro Matute Tang, disse acreditar que a homenagem feita pela escola de samba ao país africano é uma maneira de fortalecer as relações culturais entre as duas nações.

“Nós estamos confiantes de que estamos promovendo e materializando a relação entre Brasil e Guiné Equatorial. É algo cultural”, disse ao Estadão. As notícias de que a Guiné teria financiado em R$ 10 milhões o desfile da Beija-Flor – fato negado pelo embaixador – não atrapalharam o ânimo de Tang, que desfilou no último carro da escola, ao lado do ator Milton Gonçalves.

“As polêmicas… bem, não pode fazer tudo bem, que as pessoas fiquem contentes”, afirmou. Segundo ele, apenas patrocinadores culturais ajudaram a escola de Nilópolis, sem um centavo do governo. “Foi uma boa apresentação, estamos contentes, pois é algo cultural que une os dois povos. Para que as pessoas possam conhecer a cultura da Guiné Equatorial no Brasil e em todo o mundo”, afirmou.

O intérprete da Beija-Flor, Neguinho da Beija-Flor, afirmou que a polêmica envolvendo o tema da escola neste ano não atrapalhará o desempenho. “(Não vai atrapalhar em) Nada. Nós já ganhamos falando do jogo do bicho”, disse o intérprete, ao lembrar do título de 1976, quando o tema foi “Sonhar com rei dá leão”. O enredo foi criticado à época. Neguinho disse ainda que o samba, desde quando foi gravado, “tinha sido cogitado como um dos melhores do carnaval 2015”.

GOVERNO DA GUINÉ EQUATORIAL NEGA PATROCÍNIO À BEIJA-FLOR
O embaixador da Guiné Equatorial no Brasil, Benigno-Pedro Matute Tang, negou que o governo de seu país tenha financiado o desfile da Beija-Flor. A escola de samba homenageou o país africano com o enredo “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade” e teria recebido R$ 10 milhões para colocar o samba na Sapucaí.

“Foram financiadores culturais. Um deu 50 euros, outro deu 100 euros. Não temos como saber quanto cada um deu, o valor exato. O governo não tem nada a ver com isso. Somente pessoas do meio cultural”, disse Tang ao jornal O Estado de S. Paulo. “O que a imprensa divulgou é uma soma muito excessiva. Se quiserem, podemos verificar e fazer a estimativa em detalhes em vez de falar no ar”, acrescentou.

Segundo o embaixador, autoridades do país vieram acompanhar o desfile com uma comitiva de quase 40 pessoas, incluindo o vice-presidente, Teodoro Nguema Obiang Mangue e alguns ministros. O presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, contudo, não viajou ao Brasil “por questão de agenda”, disse o embaixador.