Bebês Reborn e a sociedade da perversão
A ascensão dos bebês Reborn revela uma profunda crise na relação da sociedade com a Realidade, marcada por fantasias coletivas, pós-verdade e um perigoso avanço da perversão psicossocial
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 21/05/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Nessas últimas semanas, venho sendo solicitado por muitas pessoas — da família, clientes, seguidores, colegas — a levantar a minha voz para falar do fenômeno dos bebês Reborn (em tradução livre, bebês nascidos novamente — percebe? O problema já começa no nome). Para quem vive protegido do mundo das Redes Sociais e do Fantástico, bebês Reborn são bonecas super realistas que gemem, se mexem, “comem”, “dormem”, “choram”, como um bebê nascido de forma tradicional, com mãe e pai humanos. Isso está gerando uma série de comportamentos bizarros, como reuniões de “mães”, postagens nas redes sociais e a criação de uma espécie de tribo de bonecas realistas — com seus orgulhosos (e preocupados) pais e mães desses bebês-bonecas. Uma advogada postou que uma “mãe” do quase bebê veio discutir a guarda do mesmo com o marido. A guarda. E as despesas.
Confesso que estava fugindo do tema. Quando assisti psicanalistas, psiquiatras e pastores falando sobre o assunto, aprofundou-se minha preguiça. É fácil espinafrar essas pessoas e enquadrá-las em algum transtorno delirante ou dissociativo, previstos pelos manuais de psiquiatria. Levantar a voz para me somar à onda de ridículo e escândalo voltada a esse grupo. Isso é obviamente um comportamento bizarro numa sociedade que joga os holofotes sobre pessoas com comportamentos bizarros. Gostaria de avisar que esse artigo vai recusar apontar dedos ou diagnósticos contra essas pessoas. Vamos recuar as nossas lentes e tentar entender como nosso isolamento do Real está criando grupelhos e tribos que não se sentem limitados por essa velha e fora de moda senhora — a Realidade — criando sua própria narrativa, imposta ao mundo como verdade.
Posso usar como exemplo a história desse menino-pastor, que propaga que sua capacidade de pregar deriva de um milagre: ele nasceu surdo e mudo e, através da oração de sua mãe, formou cordas vocais e tímpanos que não existiam. Não existe nenhum exame de imagem ou avaliação médica que comprovem essa narrativa. Sua mãe — e empresária — afirma que perdeu todos os registros. Mas isso é secundário. A narrativa fantástica encontra sempre gente desesperada para acreditar, sem necessidade de comprovação.
Quando eu dava aula de psiquiatria na faculdade de medicina, ensinava sobre a importância de se testar nos pacientes a Função do Real. O que seria isso? É a capacidade de avaliar se aquilo que se percebe ou acredita corresponde, ou não, à realidade factual. Um marido que acusa a esposa de infidelidade, por exemplo. Ele pode basear sua acusação em mensagens no WhatsApp, curtidas no Instagram ou na chegada da esposa com cheiro de sabonete de motel — seja lá o que isso signifique. Ou simplesmente afirmar que encontrou um maço de cigarros na mureta da casa. Mas quem garante que aquele maço pertence ao Ricardão? O delirante afirma com convicção que o cigarro não é seu e foi deixado pelo amante antes de fugir. Essa é uma alteração da Função do Real: uma convicção delirante, sem necessidade de comprovação.
Hoje, vivemos em nossa civilização digital a era da Pós-Verdade: cada um espalha notícias e narrativas falsas, que são prontamente propagadas como verdade — pelos tiozinhos do WhatsApp, como verdades absolutas. Nos EUA, uma pizzaria foi destruída por uma multidão enfurecida porque circulou a história falsa de que em seu subsolo havia um centro de pedofilia. Sem necessidade de checagem dos fatos.
A Perversão, do ponto de vista psicodinâmico, é justamente essa tendência de impor à realidade a minha vontade, sem necessidade de ancoragem no Real. O perverso inventa e manipula vontades e consciências no sentido de seu próprio desejo e prazer. Se eu tenho vontade de apalpar uma moça bonita, vou lá e faço, sem precisar saber se ela consente. Impor a vontade: essa é a dinâmica do abuso. Eu quero, eu imponho, e pronto. Lembro de um cliente que adoeceu com um chefe que prometeu ao diretor uma meta inatingível e passou a pressionar a equipe para entregar o impossível. Isso é uma forma de Perversão: impor a própria vontade sobre a Realidade. E dane-se o outro.
O mal-estar que sentimos com o fenômeno dos bebês Reborn é o mesmo que meu cliente sentia com a mentira do chefe: a imposição de uma fantasia sobre a Realidade, criando uma espécie de realidade paralela que ignora e não se incomoda com a verdade. Não é um bando de adultos brincando de boneca. É uma vivência que ignora a instância do Real. Quem está fora desse túnel de Realidade tem a impressão que o mundo está acabando. O apocalipse é um bando de pessoas ninando bebês de plástico, levando-os para o posto de saúde com uma gripe imaginária.
Essa é a Perversão que nos assola a todos: vivemos dentro do virtual, uma fantasia de perfeição enquanto ignoramos a dor e a imperfeição ao nosso redor. Pois a Realidade é suja e imperfeita. Um bebê de verdade vomita, tem cólicas, tira o sono dos pais. Não é uma experiência fácil nem previsível.
O mundo virtual promete uma vida sem frustrações, sem noites em claro. Só sorrisos e fotos para colocar nos chás de bonecas e encontros dessa nova comunidade. O que incomoda não é a fantasia levada ao extremo. O que incomoda é a perda impressionante do contato com a Realidade. E ignorar a realidade nunca termina bem para ninguém.
Marco Antonio Spinelli

Marco é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress – o coelho de Alice tem sempre muita pressa”.