Na batida da periferia: o hip-hop do ABC pede respeito

Mais do que entretenimento, batalhas de rima no ABC são vistas como centros de formação, pertencimento e uma resposta direta ao descaso do poder público

Crédito: Fernanda Lininberg

Nas vastas e complexas paisagens urbanas das periferias paulistanas, a cultura emerge não apenas como forma de expressão, mas como uma ferramenta essencial de resistência, identidade e sobrevivência. No Grande ABC, um conglomerado de cidades que pulsa com a energia da classe trabalhadora, essa realidade é diária. Longe dos holofotes da mídia tradicional, uma cena vibrante de hip-hop, centrada nas batalhas de rima, organiza-se, forma artistas e redefine o significado de comunidade.

Movimentos como a Batalha da Martinha e vozes como a do MC Mezadrak exemplificam essa efervescência. Eles operam em um ecossistema de autogestão, paixão e desafios constantes, lutando por espaço, visibilidade e, acima de tudo, respeito. Através das perspectivas de quem organiza e de quem rima, é possível mapear a anatomia dessa cultura de rua: suas origens, suas dificuldades e seu impacto inegável.

O Ponto de Partida: Paixão e Acaso

Toda iniciativa cultural tem um estopim. Para a Batalha da Martinha, fundada em 2021, esse momento foi uma mistura de acaso e desejo latente. Lakan, um dos fundadores, relembra que a ideia surgiu de forma espontânea após a gravação de um clipe em Diadema. “A gente parou na frente do estúdio e começamos trocar ideia. Puxamos as ideias de ‘ah, sempre quis fazer uma batalhas de rima’, ‘pô, eu também'”.

Esse desejo, compartilhado entre Lakan, Prachesqui e a Fê, encontrou um contexto: a pandemia. Após um mapeamento inicial na praça e a criação de redes sociais, a primeira edição presencial ocorreu em novembro de 2021, assim que a vacinação avançou. O objetivo, segundo Lakan, sempre foi “fomentar e agregar os encontros entre artistas da região”.

Para o MC Mezadrak, a entrada no mundo das rimas também partiu de um momento de definição pessoal. Em 2022, após perder o emprego, ele decidiu se “jogar rumo ao sonho“. Inspirado pelo filme do N.W.A. e pela “época de ouro” da Batalhas de rima da Aldeia (2017-2018), ele encontrou no freestyle um caminho. Sua estreia foi na Batalha da VL: “Colei sozinho, na minha primeira vez acabei chegando na final pra primeira vez foi meu melhor desempenho possível”.

Batalhas de Rimas no ABC: Resistência e Autogestão
Divulgação/@opoeta

Evolução Forçada e a Luta contra a Estagnação

As batalhas de Rima do ABC não se contentam em ser apenas um ponto de encontro; elas são vistas como centros de formação. Lakan detalha uma preocupação central da Batalha da Martinha: a evolução dos artistas. Ele observa que, no pós-pandemia, com a explosão da internet, muitos MCs “acabam, por bem ou por mal, se estagnando em alguns sentidos”, acostumando-se a rimar da mesma forma, com as mesmas pessoas e, até mesmo, se apoiando no conhecimento do que foi visto online para basear nas rimas ou na própria evolução, “uma generalização das referências, tentando fazer coisas iguais e invés de fazer coisas novas”

A resposta da Martinha é a inovação: “A gente tenta trazer o máximo possível de edições difíceis e que desafiem os MCs para conseguir, para forçar uma evolução”. O objetivo é expandir o repertório dos artistas e, ao mesmo tempo, “furar a bolha” da própria região. Lakan lamenta que o ABC, outrora “a principal zona de freestyle, de batalha de São Paulo“, tenha perdido esse posto e hoje seja, por vezes, visto como “interior“. A meta é recuperar essa visibilidade, não porque a qualidade tenha caído, “a qualidade nunca se perdeu“, mas porque os holofotes mudaram.

Os Desafios da “Correria”: Autogestão e Omissão

Manter essa estrutura funcionando é um exercício diário de resistência, e o maior desafio é a gestão. Lakan é categórico: o principal problema é a falta de mão de obra. “A gente é em três pessoas até hoje“, explica. A ambição de manter uma alta qualidade, com vídeos, “reels” para Instagram (essenciais para a visibilidade), formatos de edição complexos e boa estrutura, esbarra na realidade.

Nós três da organização somos CLT ainda“, confessa Lakan. A “correria” para equilibrar o trabalho formal com a paixão pelo hip-hop é exaustiva. Todo o esforço é voluntário: “A gente não ganha um real, para fazer a parada. É bem difícil, mano.”

Batalha de rima - Batalha da Martinha
Vitor Romano

Se o desafio interno é a falta de braços, o externo é a completa ausência de apoio. “Cara, apoio não existe”, afirma Lakan. O poder público não apenas falha em fomentar, como por vezes atua como um obstáculo. “O processo de edital é um pouco complexo“, e a burocracia afasta o coletivo, que já está sobrecarregado.

Pior do que a ausência de apoio é a omissão. Lakan cita o caso da Batalha da Palavra, em Santo André, que sofre com o descaso na Concha Acústica da Praça do Carmo: “Tiveram alguns problemas ali, que inundou a concha e ficaram dias para esvaziar. Existe uma omissão de presença bem forte em relação a isso também.”

Mezadrak ecoa o sentimento, descrevendo a relação com o poder público como uma “luta“. Ele espera que a prefeitura “respeite mais o espaço” e “valorize a importância do movimento“. Ele também cita a Batalha da Palavra e a Batalha da Matrix como exemplos de quem “sofreu opressão há anos“.

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Mais que Arte: Pertencimento, Política e Diversão

Apesar das dificuldades nas batalhas de rima, o impacto social dessas ações é profundo. Para Mezadrak, rimar na periferia “representa mais na parte de luta por espaço social, resistência da periferia é uma forma de educação por meio da arte“. No entanto, ele sente que a sociedade ainda marginaliza o movimento: “Infelizmente sinto que não [muda a visão], porque o rap desde sempre segue sendo discriminado”.

Batalhas de Rimas no ABC: Resistência e Autogestão
Divulgação/@felipemazzucatto

Lakan enxerga o impacto na criação de um senso de comunidade. O hip-hop, para ele, oferece uma “sensação de pertencimento” fundamental para o jovem em desenvolvimento. “O jovem tem muito essa questão do pertencimento, tá ligado, mano? E eu acredito que o hip-hop, mano, ele traga muito isso.”

Além disso, Lakan faz questão de ressaltar a natureza política do movimento “O hip-hop é um movimento político, o rap é um movimento político”, mas também sua função de lazer. Ele quebra o estigma de que a cultura periférica deve ser apenas sobre a luta: “Existe muito essa questão de que os movimentos periféricos não merecem entretenimento. Muitos desses MCs, além de ver um foco como uma perspectiva de trabalho, gostam de se divertir, também é uma forma de diversão.”. Inclusive, o organizador ressalta que mesmo sendo uma cultura periférica, ela acontece no centro e que isso acaba gerando uma grande mobilização dos MCs da região.

Batalhas de Rima no ABC é Ecossistema Próprio

Enquanto a conexão com o restante da Grande São Paulo é “muito pontual” e marcada por um sentimento de isolamento, Lakan sente que o ABC está “um pouco mais separado”, a cena interna é coesa. A comunidade se envolve no “boca a boca“. Os MCs circulam: “Os MCs que rimam na Martinha, eles também rimam na Palavra e eles também rimam na VL“.

Os próprios coletivos se ajudam. Lakan conta sobre emprestar equipamentos para o aniversário da Batalha da Palavra: “A gente emprestou os rádios, tripé pra gravação, a gente vai se ajudando na melhor forma como a gente pode”.

No fim, as batalhas de rima do Grande ABC são um pequeno mundo da produção cultural periférica: feitas com paixão, autogestão, suor e uma teimosia obstinada. A cena é vibrante, os artistas são talentosos e o impacto na comunidade é inegável. O que falta, como deixam claro Lakan e Mezadrak, não é qualidade, mas sim o reconhecimento e o respeito estrutural que um movimento dessa magnitude merece. Enquanto isso não chega, a resistência continua a cada rima, a cada evento, a cada microfone aberto na praça.

  • Publicado: 03/02/2026
  • Alterado: 03/02/2026
  • Autor: 12/11/2025
  • Fonte: Pocah