Uma Batalha Após a Outra — O cinema sangra e vence(rá) o Oscar 2026

Paul Thomas Anderson entrega um épico político que sangra e encanta, misturando drama, ironia e vísceras em um espetáculo cinematográfico sobre comunidade e fúria

Crédito: © PTA Films / Warner Bros. Pictures

Abertura

Prepare-se pois vem Oscar para o novo delírio de Paul Thomas Anderson (PTA), que chega como quem já venceu a briga antes de entrar em cena, estamos falando de Uma Batalha Após a Outra. O vencedor do Oscar de melhor filme já está em cartaz nos cinemas do Brasil.

Diz-se que é thriller, dança como comédia, morde como drama — e, no fundo, é um raio-X político que não pede anestesia. Anderson filma o pulso e não o relógio — é cinema que entra na corrente sanguínea. Cada batida é uma lembrança: camadas sobre camadas… e feridas também, mas afunda de modo em que você nem irá perceber o que lhe atingiu. É cinema que se instala na carne e convida o público a se perder nas fraturas. No fim, Uma Batalha Após a Outra ergue a tese sem didatismo: feridas contam mais que slogans.

Da febre ao salto narrativo

Esqueça os traumas de Vício Inerente. Lembre do instinto cru, direto, quase animal, que Anderson já havia ensaiado em Embriagado de Amor. Uma Batalha Após a Outra parte do ‘agora’ confortável só para sabotá-lo com método. Ele pega Thomas Pynchon só de carona, agradece no acostamento e segue por conta própria. O começo estaciona no “agora”, confortável, em meio a uma sequência de atos que certamente causarão polêmica. A ironia é que esse conforto dura pouco: a narrativa atropela e não olha para trás.

Então, de supetão somos jogados direto para um salto 16 anos à frente. Troca o calendário, mas a febre intensa da narrativa permanece na quinta marcha. Não há aviso, apenas deslocamento brusco, como se o filme dissesse que o tempo é acessório diante da pulsação. O choque é proposital e conduzido com frieza. O corte serve de estímulo para um fôlego mais pesado.

Tudo regado a cenas de pura angústia e ação, um chicote de dois lados cortantes. Assim, partimos de uma invasão a um centro de detenção na fronteira dos EUA-México — com fogos estourando como nervo exposto, Perfidia (Teyana Taylor, magnética) comandando, o ogro-galã Capitão Steven J. Lockjaw (Sean Penn, caricatura que sabe ser caricatura) babando vingança e desejo. O encontro vira algo que beira o grotesco, e esse loucura tem método: faça a revolução, baby — vá em frente. E sim, a câmera vai e registra sem piedade. O choque é cálculo: em Uma Batalha Após a Outra, a febre é estratégica.

O pai, a filha e a paranoia

Anos depois, Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio, uma idiota completo, mas adorável) virou ex-guerrilheiro de chinelo, cabana e sessões repetidas na piscadinha ao referenciar A Batalha de Argel pra não esquecermos de onde veio, mas em sua construção. O ex-combatente agora é um fantasma caseiro entre a glória antiga e o ridículo doméstico. Ele existe num limiar onde memória e pose tentam negociar trégua. O rastro é tão contraditório quanto humano. O passado insiste em ficar sentado no sofá.

Willa (Chase Infiniti, retumba com os olhos), é o centro moral de Uma Batalha Após a Outra, corta a pose e deixa só a vida. Quando encara o pai rasga a vista como quem edita. O olhar dela é bisturi que desmonta o mito sem precisar de palavra. Essa relação funciona como espelho rachado da história, fragmentando o que parecia sólido. A franqueza dela devolve escala às manias do pai. Cada troca de olhar ajusta o foco do filme.

De conselho torto em conselho torto, a paranoia — justa na dose — se espalha close, pelo teto do texto. Primeiro aperta. Depois faz rir. O espectador, inerte, aceita o convite e vai junto com os humores no jeito maniático do personagem guia. Assim, de pouco em pouco, os delírios alimentam o caldo. O real, desregrado, encontra lembranças que podem ter evaporado e o filme gruda na pele.

Set-pieces de vertigem

Em Uma Batalha Após a Outra, a montagem respira como faca: cadência que dita o fôlego. montagem? Um primor que você torce o tempo todo pra não termine, deixando a audiência sempre na ponta da cadeira pra saber o que acontece a seguir. É uma coreografia de nervos em que a tensão nunca se dissipa. O corte é lâmina que rasga em silêncio e marca a respiração do público. A cadência do plano impõe regra ao fôlego. O cinema vira metrônomo da ansiedade.

Diante da mais densa e divertida forma de se contar uma trama, PTA constrói um tempo de respiro que engasga num plano colado ao rosto. Depois abre um abismo — corte que acompanha o diafragma entre diálogos nervosos e atuações febris. A respiração do público espelha a respiração dos atores. O intervalo parece descanso e volta como pancada. O filme sabe dosar vertigem e pausa.

De modo que nos faz testemunhas diante de uma obra-prima em tela, é uma marcha épica de frames e grandiosidade com precisão e vertigem. O que sobra de Uma Batalha Após a Outra são as tais cenas de espetáculo — os set-pieces — pensados para estourar, acender, queimar e desaparecer na telona. Espetáculo como pólvora: dissolve, mas marca. A lembrança fixa na carne como cicatriz. O estalo ecoa depois do crédito.

O vilão e o ritual

Penn, em Uma Batalha Após a Outra, performa um autoritarismo que sabe ser grotesco. Em atuação memorável, Penn (digno de prêmios pela frente) encarna Lockjaw, que retorna como candidato a um clube de puristas ex-militares — fraternidade de supremacistas brancos com verniz natalino — onde pureza é senha e hipocrisia “interracial” vira pecado. É a caricatura do autoritarismo, moldada em fogo e saliva. O sorriso é máscara de ferro. A pose é manual de ressentimento.

Quer apagar passado, “higienizar” arquivo, sequestrar a prova viva do “crime”. O delírio é um chamado de extinção, a tentativa de reescrever a história com fogo. O vilão não teme ser grotesco e cresce a cada gesto ensaiado. O projeto é higienista e delirante. A obsessão vira trilha de migalhas incendiadas.

No delírio final, o fogo de Uma Batalha Após a Outra acende mais que a farda: tochas, fogos e símbolos queimados em ritual de entrada. É como se cada grossa labareda fosse passe para a obsessão de pertencer ao tal grupo. A liturgia do ódio organiza os passos. O rito veste a ignorância com fantasia. A missa macabra fecha o círculo com fumaça.

Feridas expostas

E sim, sobra “apito de cachorro” em Uma Batalha Após a Outra, mas o que convenhamos, hoje o procedimento é só um: rir ao descarte do lixo. A ironia é tratamento e vacina ao mesmo tempo. O sarcasmo esteriliza o truque, transforma o gesto em farsa e devolve a violência como piada. O filme não explica, apenas mostra e desfaz o truque à luz.

No caminho, o filme insinua outra ferida: o macho alfa de armário mal trancado em meio a fagulhas de desejo reprimido exposto e ridicularizado pelo brilhantismo do roteiro — depois um questionamento, direto e sem cerimônia. Não há misericórdia, apenas exposição crua. A máscara não só cai, ela se dissolve. A agressividade vira confissão involuntária.

A cena é mais que tese, vira fissura. Assim, uma frase nunca foi tão bem(-)dita sem ser dita com gosto. Tanto fogo quanto racista entram no miolo da narrativa — o espaço natural da obsessão do vilão. Zero risco de didatismo e sem pendurar moral no fim. Somente palmas secas encerram o gesto.

Comunidade e resistência

A trama de Uma Batalha Após a Outra não pede licença: acelera e arrasta quem hesita, com cheiro de Oscar ao exigir a cadência de uma fuga alucinante. Ao mesmo tempo, sabe andar no passo miúdo de quem avança pé por pé como num certo personagem, medindo cada terreno antes do golpe, enquanto, no embalo firme de Anderson, já se sabe o destino de cada pisada e se esmaga o acelerador sem hesitar. O ritmo não concede pausa e a pulsação empurra cena atrás de cena. O tempo aqui não é cronômetro, mas batida surda em motor de uma narrativa que respira correndo — a narrativa insiste nessa batida, o compasso move personagens e plateia guiada por DiCaprio, e o ritmo pensa por dentro do corpo.

Benicio Del Toro aparece como sensei parceiro, pra resolver o que importa e some como quem só veio passar a faca no cordão. É aparição relâmpago de precisão cirúrgica. A presença curta equilibra a balança. O gesto vale mais que discurso. A sombra pesa mais que a fala.

Entre as costuras de PTA, existe até infiltrado do Exército (codinome “Van Halen”) que entra e sai de cena com um coquetel molotov na mão — não é sutileza, é recado. E, entre uma explosão e outra, o filme reforça o conceito pulsante de comunidade. Gente que se encontra pelo olhar, se ajuda nas frestas e vive à espreita do Governo. Marginais permanecem inteiros e sustentam a ponte.

A navalha estética

Anderson sabe rir com a navalha. Muita atenção na perseguição em linha reta — três carros saltando lombadas cegas — é daquelas que a memória tatuará no músculo. É ação com cicatriz imediata. A curva vira assinatura e transforma o asfalto em trilha de suor. O enquadramento comprime o fôlego e grava o susto no corpo.

A trilha de Jonny Greenwood range como porcelana arranhada: não pede licença, impõe clima de indicação ao Oscar. É música que arrasta e dobra o espaço. O som atravessa o corpo e reorganiza o pulso. O ruído vira melodia torta que encosta lâmina no ouvido. O silêncio que sobra pesa mais do que um acorde.

O tema de Uma Batalha Após a Outra tem a cara da premiação da academia do Oscar, assim merecidamente, bate forte em meio à balística num estalo feito tapa: não há Trump no texto, mas há Trump no ar — não há sigla, mas há método, e brilha como o sol de uma desconhecida highway condado ninguém. O filme mira a fantasia da “pureza” racial, o velho mito que tenta branquear estatística, história e culpa. Supremacistas brancos de terno e gravata exibem sorriso de foto de formatura enquanto posam para a ordem que imaginam preservar. A América tenta desfazer mistura e tropeça no próprio gene; a conta não fecha porque a história resiste nos corpos. Aqui, o cinema refaz a pergunta à altura daquele que é, sem dúvida, o principal candidato a melhor filme do ano.

Pôster de Uma Batalha Após a Outra, dirigido por Paul Thomas Anderson, com Leonardo DiCaprio e elenco indicado ao Oscar.

O eixo das performances

No eixo das performances, Uma Batalha Após a Outra possui o melhor “fio condutor” possível, DiCaprio, que abraça uma certa burrice amorosa sem pedir desculpa, está brilhante. A ingenuidade é arma e disfarce que o aproxima do público. Ele carrega a cena com humor torto entre fragilidade e carisma. Essa leitura o torna alicerce quando a trama ameaça a vertigem. O ator encontra força justamente na simplicidade.

Teyana queima os quadros da telona com magnetismo cru e presença que arrasta os olhos mesmo em silêncio. Del Toro respira ironia sem derramar uma gota de suor, genial na contenção e no gesto mínimo. Ele paira sobre a narrativa como quem não precisa provar nada. A ironia seca amplia cada diálogo. O trio ancora a fúria do filme.

E Penn — num excesso calculado — entrega um dos grandes vilões da temporada e um dos que o tempo lembrará, a indicação ao Oscar é mais que obrigatório. Sobrevive até ao que não devia e ainda encontra microfone pra vitimizar o próprio crime. As pérolas são grotescas: “fui violentado ao contrário, sofri ‘estupro reverso’… fui dopado e apaguei”. O roteiro entende o absurdo e o deixa ao vento, ridículo como deve ser. A caricatura ultrapassa a tela e vira acusação.

Almodóvar no detalhe

Uma Batalha Após a Outra tempera cor e fetiche com veneno de sátira. Visualmente, tem uma sacada venenosa à la Almodóvar ao nos brindar com cores, texturas, fetiches e desgostos em trama maluca. O detalhe é exagero com lógica, veneno transformado em pincel. A paleta provoca o olho e o obriga a escolher lado. O figurino carrega ironia prática. A composição ri do bom gosto enquanto morde.

Difícil lembrar a última vez em que um jacarezinho bordado numa polo rendeu tanta raiva em tela. Símbolos ganham dentes quando a história decide morder e mastigam sem educação. É a moda como violência, a estética virando soco repetido. O adorno vira arma de cena. A superfície confessa o subterrâneo.

Cada textura é golpe. Cada cor é sentença. PTA transforma a estética em ataque calculado, arma que funciona no escuro. É um carnaval sombrio, um desfile de sarcasmo tingido de sangue e ironia. De modo que, assim temos uma plástica virando prova do crime que se fecha uma conta, sem apelação.

O relojoeiro debochado

No saldo, Uma Batalha Após a Outra, sob o barulho do estrondo, tem a mão do relojoeiro Paul Thomas Anderson — que aqui regula pulso, sem propaganda com agenda barata. O grito é partitura e a câmera trabalha a frio, sem carimbo, mas de deboche agudo. As proporções são precisas e escorrem como espuma do que precisa ser dito. A comunidade, vingada como nos filmes do Tarantino, sorri de canto.

De resto, você capta o respiro no plano do diretor — ao fundo, a engrenagem persiste sinuosa — um trabalho de relojoeiro vertido em imagem. É cálculo transformado em fúria e tempo transfigurado em cena. Nada escapa porque tudo retorna como motivo. O gesto pequeno repercute no conjunto. A máquina narrativa fecha o dente.

Assim, Uma Batalha Após a Outra faz rir pra depois doer. Abre ferida, lambe o sangue e pergunta se vale o curativo. E responde correndo, desajeitado, com pouca roupa se perdendo por entre telefones públicos e culpas amargas na seguinte resposta: VALE, porque “comunidade” ainda é a única tecnologia que pode salvar uma nação. A resposta ecoa como veredicto prático.

Fechamento

Pra quem “pegou”, missão cumprida. Próximo passo: assistir ao vencedor do — me cobrem no pós-créditos do Oscar. Então, quando o palco silenciar e o envelope for aberto, este nome será ouvido — dito assim, de roupão aberto, café frio na mão e uma certeza desvairada no olhar de quem já sabia. É o pós-crédito escrito antes do filme acabar e a vitória que já se anunciava. A sensação é de caminho concluído antes do anúncio.

O país sangra, o cinema vence. O resto é história repetida no escuro da sala e na lembrança que se arrasta. PTA fecha o ciclo com precisão e sem pedir desculpa. O público sai com a marca na pele e o zumbido no ouvido. A tela apaga e o pulso continua.

Fica o rastro de um filme que ri do poder enquanto exibe suas costuras. Sobra a lembrança de uma comunidade que aprende a se defender no breu. Resta o incômodo como método, não como efeito colateral. Termina a prova de que estilo também é argumento e descansa a pergunta que não se encerra no crédito. Com isso, Uma Batalha Após a Outra sangra e vence: o resto é silêncio e pulso.

SERVIÇO

Título: Uma Batalha Após a Outra (2025)
Gênero: Drama, Ação, Suspense Político
Diretor: Paul Thomas Anderson
Roteirista(s): Paul Thomas Anderson
Elenco: Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Teyana Taylor, Chase Infiniti, Benicio Del Toro
Distribuidor: Warner Bros. Pictures
Duração: 142 minutos

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 21/10/2025
  • Fonte: Sorria!,