Bancada evangélica tem racha por disputa entre aliados de Lula e Bolsonaro
Silas Câmara e Eli Borges se dividem na disputa pela presidência da frente parlamentar
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 04/02/2023
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
A polarização política entre aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e parlamentares próximos ao governo do petista Luiz Inácio Lula da Silva divide a Frente Parlamentar Evangélica que, pela primeira vez desde sua criação, em 2003, terá uma disputa pela presidência. Se enfrentam os deputados Silas Câmara (Republicanos-AM) e Eli Borges (PL-GO).
O deputado amazonense é o favorito, tem diálogo com integrantes do governo, como o ministro da Integração, Waldez Góes (PDT-AP), e conquistou o apoio do PT. Já Eli Borges busca forças dentro do principal partido de oposição, o PL. Aliados de Silas receiam que Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, possa articular uma reviravolta.
No ano passado, a frente chegou a ser composta 181 deputados e 8 senadores. Integrantes da bancada dizem que o grupo hoje tem 132 deputados e 14 senadores, força suficiente para influenciar em qualquer votação.
Eli é pastor da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira e também tem aproximação com o setor do agronegócio. Silas faz parte da ala mais antiga da Assembleia de Deus, chamada de Missão ou Belém foi responsável por convidar Bolsonaro para a Marcha para Jesus em Amazonas no ano passado – que, foi um evento usado em diferentes lugares do País para promover o ex-presidente na disputa eleitoral.
Nos bastidores, foi negociado o revezamento durante os dois anos de comando, mas a oferta foi recusada. Segundo o presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), o impasse foi pelo primeiro comando. Ambos argumentam que querem inaugurar o período na presidência.
Para Sóstenes, independentemente do nome escolhido, o grupo enfrentará o PT com mais força em pautas identitárias e em temas sensíveis às igrejas, como o aborto. “A frente terá um papel ainda mais protagônico porque o governo afrontou muito os nossos valores. A frente nasce no primeiro ano do governo Lula, em 2002”, disse o deputado. “Vamos esperar. Mas se o governo vier com o que já demonstra, como nas posses dos ministros usando pronome neutro, vamos ter um trabalho de enfrentamento ideológico com o governo, independetemente de quem seja o candidato eleito.”
Para a deputada petista Benedita da Silva (RJ), que é evangélica e faz parte da frente, alega que a opção por Silas, mais próximo ao governo, ocorreu apenas porque foi o primeiro a se apresentar para conversar. “Eli não veio falar com a gente”, disse Benedita. “Não temos nada contra o Eli. Mas quando Eli veio falar, Silas já tinha nos procurado e nós o apoiamos.”
O deputado José Medeiros (PL-MT) diz que há o componente da polarização da disputa, sem nomear quem está de cada lado, mas minimiza. “É mais retórica de campanha do que realidade”, afirma.
A bancada evangélica é composta por 80% dos partidos representados na Câmara – do PT ao PL – e vota mais alinhada às propostas do governo Bolsonaro (PL) do que o conjunto de deputados. Ainda assim, a pauta de costumes não avançou na Câmara ao longo da atual legislatura, considerando o total absoluto de projetos.
A primeira votação para a presidência estava marcada para esta quinta-feira, 3, e teve acusações de fraude, discussões e gritos em uma sessão a portas fechadas para a imprensa e assessores parlamentares. Foram inúmeros impasses. A sessão, que iniciou às 10h, foi à segunda chamada por falta de quórum. Sóstenes pediu para que jornalistas e assessores parlamentares se retirassem da sala para resolver o impasse. A discussão seguiu de portas fechadas por mais quatro horas.
Deputados relataram problemas para se inscrever na Frente pelo Infoleg, o sistema da Câmara. Sóstenes afirmou que houve divergência entre a quantidade de votos e o número de parlamentares que assinaram a lista de presença. Sem impasse, a votação foi adiada para o dia 15 de fevereiro.
O deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) disse que diversos parlamentares votaram sem estarem inscritos. “Simplesmente ‘apareceram’ no plenário. As normas são para todos os parlamentares e pleitos, certo? O não cumprimento de uma delas, pode sugerir, inclusive, fraude”, afirmou, em nota enviada pela assessoria de imprensa. Otoni abriu mão da candidatura à presidência e apoia Eli Borges na disputa.
O deputado Pastor Sargento Isidório gritou reclamando que o nome dele não estava incluso. “Se tiver algum problema na eleição, se houve fraude, isso não é ato do povo de Deus”, disse Isidório. “O povo, principalmente os fiéis, não tem culpa dessa coisa. Se esse povo que se diz de Deus, imaginem se fossem do diabo.”
O deputado Lucio Mosquini (MDB-RO) fala que a disputa gera um desgaste que é perigoso para a frente. “Faço parte dela há oito anos e nunca houve uma disputa pela presidência. Na votação, eu pedi várias vezes (por uma pacificação). Mas não foi possível. Essa disputa, apesar de ser legítima, não a vejo com bons olhos” disse, mas minimiza que o fator partidário é uma influência.
O parlamentar faz parte da base governista e foi eleito quarto-secretário da Mesa Diretora. O Republicanos, partido de Silas, teve o apoio do PT para eleger o 1º vice-presidente da Câmara, o presidente da legenda, Marcos Pereira (SP), e para indicar o novo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jhonatan de Jesus (RR), que busca atrair o partido para a sua base de apoio.