Aves representam 90% dos animais resgatados do tráfico em SP
O tráfico de animais silvestres movimenta milhões para o crime organizado e mobiliza a maior força policial ambiental da América Latina
- Publicado: 20/06/2026 12:30
- Alterado: 20/06/2026 12:30
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: Agência SP
O tráfico de animais silvestres consolidou-se como uma das principais fontes de financiamento do crime organizado no estado de São Paulo. Dados da Polícia Militar Ambiental revelam que, de janeiro de 2023 a abril deste ano, mais de 43 mil animais foram apreendidos, dos quais 90% correspondem a aves. O comércio ilegal é impulsionado por espécimes de canto, que chegam a ser valorizadas em até R$ 300 mil no mercado clandestino após passarem por fraudes e maus-tratos severos.
O Modus Operandi e a Crueldade do Tráfico

As aves de canto como o trinca-ferro, curió, bicudo, azulão e coleiro são o alvo preferencial das facções. O crime organizado atua desde a captura na mata até a lavagem de dinheiro, utilizando torneios irregulares com premiações falsas para inflar o valor de mercado dos pássaros.
Para simular a procedência legal dos animais, os traficantes recorrem a adulterações graves:
- Mutilação de Anilhas: Os criminosos capturam pássaros adultos na natureza e, para forçar o encaixe da anilha (o aro metálico de identificação do Ibama, que só entra naturalmente nos primeiros dias de vida), quebram ou deformam os dedos das aves;
- Logística Letal: Devido às lesões nas patas, muitas aves perdem a capacidade de se fixar nos poleiros. O transporte precário faz com que grande parte dos animais morra antes de chegar ao destino final;
- Outras Espécies: Embora as aves liderem o ranking, répteis como o jabuti-piranga também registram altos índices de apreensão, muitas vezes alimentados pela falsa crença popular de que manter o bicho sob a cama cura a asma infantil. Casos raros incluem felinos africanos e onças-pintadas.
Canais de Denúncia e Fiscalização
A Polícia Militar Ambiental de São Paulo conta com 2.147 policiais e mais de 400 viaturas, sendo considerada a maior força voltada à proteção da natureza na América Latina. O planejamento das blitze baseia-se no cruzamento de dados de inteligência e em denúncias anônimas da população.
A legislação brasileira (Lei de Crimes Ambientais nº 9.605/1998) prevê detenção de seis meses a um ano para quem mantém animais silvestres sem autorização, além de multas. Para denúncias, o Estado disponibiliza os seguintes canais 24h:
- Telefone de Emergência: 190 (Polícia Militar);
- Anonimato Garantido: Disque-Denúncia 181 ou Delegacia Eletrônica de Proteção Animal (DEPA);
- Plataformas Digitais: Aplicativo Denúncia Ambiente ou pelo portal (
denuncia.sigam.sp.gov.br).
Triagem e Reabilitação no Cetras-SP

Os animais resgatados na Região Metropolitana são encaminhados ao Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres (Cetras-SP), localizado no Parque Ecológico do Tietê, na Zona Leste da capital. Gerido pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), o espaço recebeu 26,6 mil animais desde 2023.
Na instituição, biólogos e veterinários realizam exames clínicos para documentar os maus-tratos que servirão de prova nos processos criminais. Em seguida, os espécimes passam por quarentena e treinos para recuperar o tônus muscular, a capacidade de voo e o instinto de caça. Em 2025, metade dos animais atendidos conseguiu retornar ao seu bioma original. Aqueles que restaram com sequelas irreversíveis foram destinados a zoológicos e criadouros científicos autorizados.