O avanço da alfabetização de crianças negras

Estudo pioneiro da UFJF em 14 estados mapeia desigualdade e prova o impacto positivo da equidade racial na alfabetização de crianças negras

Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil

Um avanço histórico e promissor: a inclusão da conscientização sobre identidade racial nas primeiras etapas da educação tem se mostrado um fator decisivo para impulsionar a alfabetização de crianças negras. Um novo estudo realizado pela Aliança pela Alfabetização, a partir de dados coletados em 14 estados brasileiros, demonstra que ações focadas em equidade racial resultaram em um progresso notável, superando o ritmo de aprendizado observado entre as crianças brancas em um período de apenas um ano.

A pesquisa é um marco no cenário educacional do país, oferecendo dados segmentados que historicamente são ausentes em avaliações nacionais de grande escala, como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e o Indicador Criança Alfabetizada (ICA). O trabalho foi executado no âmbito da Parceria pela Alfabetização em Regime de Colaboração (Parc), uma iniciativa apoiada pela Fundação Lemann, Instituto Natura e Associação Bem Comum, com avaliação aplicada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

O salto na fluência: O Progresso na alfabetização de crianças negras

crianças negras
Marcelo Camargo/Agência Brasil

O estudo se concentrou na avaliação da fluência leitora de alunos do 2º ano do ensino fundamental, uma fase considerada crucial para a consolidação da alfabetização. Os números apurados, comparando o período entre 2023 e 2024, são expressivos e sinalizam uma mudança positiva no combate à desigualdade educacional.

Entre os estudantes que se autodeclararam pretos e pardos, a porcentagem que atingiu o nível de fluência leitora saltou de 58,9% para 66,7%. Em comparação, a taxa para estudantes brancos aumentou de 71,7% para 78% no mesmo intervalo.

Para ser considerada fluente, a criança precisa demonstrar a capacidade de ler pelo menos 65 palavras por minuto ou alcançar 90% de compreensão do conteúdo de um texto simples.

O progresso alentador frente à desigualdade histórica

Marcello Casal jr/Agência Brasi

A vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, Daniela Caldeirinha, vê o progresso na alfabetização de crianças negras como um sinal significativo. A especialista ressalta que o aumento nas taxas de alfabetização é alentador, especialmente em um contexto em que os dados educacionais no Brasil tendem a apontar para a estabilidade ou até mesmo o aumento das disparidades raciais nos últimos anos.

Caldeirinha reforça a urgência do tema, alertando que as dificuldades enfrentadas neste momento formativo podem gerar consequências duradouras e prejudiciais em toda a trajetória escolar e vida futura dos estudantes. A garantia da alfabetização de crianças negras é, portanto, um pilar para a construção de um futuro mais equitativo.

O combate ao racismo como fator de melhoria do aprendizado

O foco na equidade racial e a criação de ambientes escolares acolhedores estão no cerne do avanço. Alessandra Benedito, também da Fundação Lemann, detalha o impacto direto do racismo no processo de aprendizagem:

“O racismo pode minar a autoestima e a autoconfiança das crianças desde cedo. O ambiente escolar frequentemente não é acolhedor para elas, levando à exclusão,” explica Benedito, defendendo a necessidade de reconhecer e combater o racismo nas instituições de ensino.

A estratégia adotada pelo programa de equidade vai além da sala de aula, mirando a capacitação de toda a comunidade escolar. O objetivo é que todos se sintam responsáveis pela construção de um ambiente de acolhimento e representatividade. Isso envolve ações concretas, como a inclusão de material didático com imagens em que os alunos negros possam se identificar, e a preparação e o suporte aos professores para que compreendam a complexidade de uma educação genuinamente antirracista.

A inclusão da conscientização racial, portanto, não é apenas uma questão social, mas uma ferramenta pedagógica que assegura o direito à aprendizagem.

O desafio da identificação racial para a implementação de políticas

Helber Aggio

O fato de esta pesquisa ser uma das primeiras a analisar as disparidades raciais nas taxas de alfabetização de crianças negras no Brasil expõe um desafio estrutural: a dificuldade em obter dados precisos sobre a autoidentificação racial dos alunos nas escolas.

Apesar de uma melhora significativa, o problema da “não-declaração” ainda persiste. Enquanto em 2007 mais de 60% dos alunos brasileiros estavam sem essa informação no Censo Escolar, em 2024, cerca de 19,1% dos estudantes continuavam sem ter suas identidades raciais declaradas.

Daniela Caldeirinha manifesta preocupação com a situação, destacando a importância urgente de conscientizar escolas e famílias sobre o preenchimento desse dado. “Sem conhecer quem são nossos alunos e onde estão localizados, torna-se muito mais desafiador implementar ações eficazes” para garantir a alfabetização de crianças negras e o sucesso de todos os estudantes. É a partir do reconhecimento da diversidade que as políticas educacionais podem ser traçadas com a precisão necessária para transformar a realidade da desigualdade.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 20/11/2025
  • Fonte: Fever