Aumento dos preços de ovos: desafios e perspectivas para produtores brasileiros

Pequenos produtores lutam contra a alta de custos enquanto os preços disparam

Crédito: Rodrigo Felix Leal/AEN

No início deste ano, o setor avícola brasileiro enfrenta um desafio significativo: o aumento expressivo nos custos de insumos como milho, rações e embalagens, que tem pressionado os produtores de ovos. Em busca de evitar repasses ao consumidor final, muitos estão tentando absorver as altas sem comprometer suas margens de lucro.

Joaci Medeiros, analista técnico do Sebrae, destaca que pequenos produtores são os mais vulneráveis a essa escalada de preços. “Os grandes produtores têm a capacidade de armazenar grãos e adiar o impacto financeiro, enquanto os pequenos não têm esse recurso”, explica Medeiros. Ele observa que os repasses ao consumidor tendem a ocorrer quando os produtores atingem seus limites operacionais, levando-os a buscar alternativas mais econômicas.

Essa realidade é compartilhada por pequenos empresários do setor. Rafael Camacho, sócio da Turma do Ovo, uma empresa de ovos orgânicos em São Paulo, relata que notou um aumento considerável nos preços do milho e das embalagens. Ele ressalta que a produção de ovos orgânicos acarreta custos mais elevados em comparação aos convencionais; atualmente, uma caixa com 20 ovos orgânicos está sendo vendida por R$ 41,81, enquanto ovos brancos podem ser encontrados a partir de R$ 20 na mesma região.

Camacho enfatiza que apesar dos aumentos, sua empresa conseguiu absorver parte dos custos. “Acredito que os preços devem voltar ao normal em breve; até agora, apenas ajustamos em função da inflação”, afirma.

Jovelina Fonseca, proprietária do Sítio Cultivar em Nova Friburgo (RJ), também percebeu o aumento nos custos de produção no início de 2024. “Com a elevação dos insumos, tivemos que ajustar nossos preços para refletir essa realidade”, declara.

Por sua vez, Renato Holanda, dono da Holanda Avicultura em São José de Mipibú (RN), especializada na criação convencional de galinhas em gaiolas, informou que seu negócio tem implementado reajustes desde meados de janeiro. “Ovo é uma commodity; é desafiador para uma empresa diferenciar-se muito no preço. Quando há alta no mercado, o setor como um todo tende a seguir essa tendência”, comenta.

A classificação entre pequenos e grandes produtores no Brasil não é simples. A Lei 8.629 define pequenas propriedades como aquelas com até quatro módulos fiscais e médias entre quatro e 15 módulos, sendo que um módulo varia conforme a região. Em Santa Maria de Jetibá (ES), polo produtivo de ovos, um módulo equivale a 18 hectares.

De acordo com o Censo Agropecuário de 2017 do IBGE, aproximadamente 2,2 milhões de estabelecimentos estavam envolvidos na produção de ovos no Brasil; 95,5% desses tinham entre 1 e 200 hectares.

Dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da USP revelam que os preços dos alimentos aumentaram até 52,9% entre janeiro e fevereiro deste ano nas principais regiões produtoras. Comparado ao mesmo período do ano anterior, a alta foi de 18,7% em termos reais.

No atacado, o preço médio da caixa com 30 dúzias de ovos tipo extra branco em Santa Maria de Jetibá era R$ 220,22 em fevereiro, uma significativa alta em relação aos R$ 144,06 registrados em janeiro.

A ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) informa que os custos totais de produção tiveram um acréscimo acumulado nos últimos oito meses: o preço do milho subiu 30%, enquanto os insumos para embalagens apresentaram um aumento superior a 100%. Cláudia Scarpelin, pesquisadora do Cepea responsável pela área de ovos, observa que embora aumentos sazonais sejam normais nesse período do ano, a magnitude atual é atípica.

Edival Veras, presidente do IOB (Instituto Ovos Brasil), acrescenta que o setor enfrentou margens negativas recentemente e muitos produtores optaram por reduzir a produção na tentativa de estabilizar o mercado. Ele enfatiza que pequenos produtores sofrem mais devido à menor escala das operações.

Marcus Menoita, CEO da Raiar – uma empresa focada em ovos orgânicos – descreve a situação atual como uma “tempestade perfeita” devido ao calor excessivo e ao aumento simultâneo dos preços dos insumos. Ele compara essa situação à crise dos ovos nos Estados Unidos e ressalta que no Brasil existe uma desconexão pontual entre oferta e demanda.

Os especialistas projetam que a inflação nos preços dos ovos deve persistir até o final da quaresma. Cláudia Scarpelin prevê que os valores continuarão elevados até abril e que somente após este período será possível determinar se os preços seguirão altos dependendo da oferta disponível.

No entanto, Joaci Medeiros aponta que os preços do milho e das rações podem continuar elevados e sugere que o término da quaresma pode não ser suficiente para provocar uma queda significativa nos preços. “Esperamos que haja uma redução ao longo do ano; contudo, não será abrupta”, conclui.

Aumento do preço dos ovos em números:

  • O preço dos ovos subiu até 52,9% entre janeiro e fevereiro de 2025 segundo o Cepea;
  • Comparado ao mesmo mês do ano anterior, a alta foi de 18,7% em termos reais;
  • Em Santa Maria de Jetibá (ES), o preço médio da caixa com 30 dúzias de ovos extra branco foi R$ 220,22 em fevereiro; no mês anterior era R$ 144,06;
  • A inflação medida pelo IPCA foi de 15,39% em fevereiro para os ovos – o maior aumento mensal desde o início do Plano Real.
  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 26/03/2025
  • Fonte: Fever