Audiovisual negro brasileiro fecha série de podcast
O projeto sonoro do FICINE conclui sua primeira fase resgatando nomes históricos. A jornada explora pensamentos e vozes que moldaram o cinema nacional de forma independente
- Publicado: 20/10/2026 17:01
- Alterado: 20/10/2026 17:01
- Autor: Leonardo Nogueira
O audiovisual negro brasileiro encerrou um ciclo estrutural para a memória cinematográfica do país. O Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE) finalizou a primeira temporada do podcast Oferendas Narrativas. A série documental em áudio reuniu grandes pesquisadoras para mapear a história das imagens produzidas fora do eixo hegemônico. Kênia Freitas, Janaína Damasceno e Tatiana Carvalho Costa acompanharam Janaína Oliveira nessa imersão profunda.
Zózimo Bulbul e o audiovisual negro brasileiro
Revisitar o passado exige método e intuição. O último episódio da temporada resgata a trajetória pioneira do diretor Zózimo Bulbul. Ele idealizou e dirigiu o histórico curta-metragem Alma no Olho em 1974.
A pesquisadora Janaína Oliveira conduz a narrativa diferenciando a simples presença de corpos negros na tela da verdadeira autonomia criativa. A construção da identidade do audiovisual negro brasileiro depende dessa independência narrativa para sobreviver às oscilações do mercado tradicional.
“Hoje proliferam filmes, mostras e estudos, apesar das adversidades políticas e a escassez de financiamentos. Mas a gente sabe que um movimento assim, uma vez em curso, não há retrocesso possível”, crava Janaína Oliveira.
Afrofuturismo e novas epistemologias visuais

A jornada sonora ignora a linha cronológica rígida. Os primeiros episódios dissecaram temas urgentes como ficção especulativa e imaginação radical negra. Kênia Freitas aproximou conceitos do passado e do futuro para explicar a força do afrofuturismo.
Janaína Damasceno assumiu os microfones para destrinchar obras de Walter Firmo e Gordon Parks. Ela debateu o direito de olhar e a construção de mundos visuais estritamente autônomos. As ferramentas teóricas acadêmicas tradicionais costumam falhar ao analisar obras fora do padrão eurocêntrico. A curadora Tatiana Carvalho Costa apresentou o conceito de QuilomboCinema para corrigir essa distorção.
O programa entrega um acervo intelectual estruturado em cinco frentes principais:
- Mapeamento das experiências pioneiras nos Estados Unidos com Oscar Micheaux.
- Cruzamento entre o tempo presente e a imaginação radical na ficção especulativa.
- Criação de epistemologias próprias a partir de saberes sociológicos ancestrais.
- Valorização das fotografias que registram a existência negra sem filtros externos.
- Fortalecimento da curadoria moderna aplicada à sétima arte.
A equipe executiva do FICINE disponibiliza todos os cinco episódios nas principais plataformas digitais. O portal oficial da iniciativa também organiza as referências bibliográficas citadas durante as gravações. A escuta atenta dessa produção transforma a forma de consumir e entender as imagens em movimento. A base do audiovisual negro brasileiro pulsa forte nos fones de ouvido. Ela aguarda quem deseja investigar o cinema autêntico pela ótica de quem o constrói.