Ator e diretor de teatro Antônio Abujamra falece em SP

Abu, como era conhecido, morreu na manhã desta terça-feira, 28, em sua casa em São Paulo.

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O corpo do ator e diretor de teatro Antônio Abujamra, 82 anos, será velado a partir do final da tarde desta terça-feira (28) no Teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista, Centro de São Paulo. Ele morreu pela manhã em sua em casa. A causa da morte foi um infarto no micárdio. Ele deixa dois filhos e dois netos.

O diretor foi encontrado desacordado e o filho Alexandre chamou os médicos, que atestaram a morte. O sobrinho, João Abujamra, contou que conversou com o tio nesta segunda-feira (27) e afirmou que ele “estava ótimo”. João também disse que ele não estava fazendo nenhum tratamento médico.

FAMILIARES, COLEGAS E AMIGOS LAMENTAM A MORTE DE ANTÔNIO ABUJAMRA
“Um grande amigo, uma pessoa com quem eu trabalhei muitas vezes. Fomos sócios no TBC, tocamos o teatro juntos. Outro dia mesmo ele estava começando um trabalho com o André, o filho dele. Uma pessoa muito amiga, uma pessoa inquieta, um artista sempre em busca de novidades, de caminhos novos, coisas que saíssem do lugar comum. Ele era uma anti-lugar comum.”, disse o cineasta Ugo Giorgetti.

Para Iara Jamra, atriz e prima do ator, “ele foi um homem muito especial pra todos nós, vai deixar pro Brasil uma grande lembrança. Um homem forte, genial. Vai deixar uma parte da cultura desfalcada. Mas eu acho que ele vai em paz. Estava sofrendo muito com a morte da esposa no ano passado, então estava muito triste. Vai em paz e que gente guarde ele pra sempre. Foi um grande homem.”

“Uma tristeza”, foi assim que expressou Aderbal Freire-Filho, diretor teatral. “O Abujamra é o cara, ele participou e liderou a geração que mudou o teatro brasileiro. É da primeira geração de diretores brasileiros arrojados, inteligentes, cultos, inventivos. O Abu é o nosso mestre. Um grande mestre. Ele atravessa um período importante da história do teatro, esse período que vai de quando ele começa até agora, hoje. É um período de reinvenção do teatro, ele é um desses inventores. Ele simboliza um momento importante do teatro brasileiro.”

HISTÓRIA
Natural de Ourinhos, onde nasceu em 1932, o ator e diretor foi um dos primeiros a introduzir os princípios e métodos teatrais de Bertolt Brecht, Roger Planchon e outros mestres da contemporaneidade em palcos brasileiros. Abujamra participa da revolução cênica efetivada nos anos 1960 e 1970, caracterizando seu trabalho pela ousadia, inventividade e espírito provocativo. Nos anos 1980 e 1990, desenvolve espetáculos em que crítica e lúdico se fundem num ceticismo bem-humorado, que é o eixo de sua personalidade.

Formado em filosofia e jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC/RS, Porto Alegre. Sua primeira peça foi como ator, na fase dos seus 20 anos, no Teatro Universitário de Porto Alegre em “Assim é se lhe parece”, de Luigi Pirandello. Abujamra estreia profissionalmente em 1961, em São Paulo, no Teatro Cacilda Becker – TCB, onde dirige Raízes, de Arnold Wesker, e no Teatro Oficina, com José, do Parto à Sepultura, de Augusto Boal. Antígone América, de Carlos Henrique Escobar, 1962, é a primeira de uma série de montagens que dirige para a produtora Ruth Escobar.

Em 1963 funda o Grupo Decisão com Antônio Ghigonetto e Emílio Di Biasi, disseminando o teatro político com base na técnica brechtiana.

PRÊMIOS
Entre os principais prêmios recebidos por Abujamra, estão o Juscelino Kubitschek de Oliveira em 1959, pela direção de “A Cantora Careca”, de Eugène Ionesco; melhor ator com “O Contrabaixo”, de Patrick Suskind, em 1987; Kikito de melhor ator em Gramado em 1989, pelo filme “Festa”, de Ugo Giorgetti; melhor ator de TV por sua participação como Ravengar na novela “Que rei sou eu?”, de Cassiano Gabus Mendes, na TV Globo, em 1989;  Molière em 1991, pela direção de “Um Certo Hamlet” com o grupo Os Fodidos Privilegiados; e o Lifetime Achievement, em 1996, no XI Festival Internacional de Teatro Hispânico em Miami, Estados Unidos.

PRODUÇÕES TEATRO:
1963
Sorocaba, Senhor, uma adaptação de Fuenteovejuna, de Lope de Veja
Terror e Miséria no III Reich de Brecht
Os Fuzis da Sra. Carrar de Brecht

1964
O Inoportuno, de Harold Pinter

1965
Electra, de Sófocles
O Berço do Herói, de Dias Gomes interditada pela censura no dia do ensaio geral
O Fardão de Bráulio Pedroso

1968
Os Últimos, de Máximo Gorki
As Criadas, de Jean Genet

1970
O Cão Siamês ou Alzira Power de Antônio Bivar

1972
Longe Daqui, Aqui Mesmo de Antônio Bivar

1975
Abajur Lilás, de Plínio Marcos, interditada pela censura
Dirige Antônio Fagundes no monólogo Muro de Arrimo, de Carlos Queiroz Telles
Roda Cor de Roda, de Leilah Assumpção onde recebe o Prêmio Molière

1980
Dona Rosita, a Solteira, de Federico García Lorca, retomando a parceria com Nicette Bruno e Paulo Goulart

NA TELEVISÃO
Como diretor
1968 – O Estranho Mundo de Zé do Caixão – TV Tupi
1968 – Nenhum Homem é Deus – TV Tupi
1978 – Salário Mínimo – TV Tupi
1979 – Gaivotas’ – TV Tupi
1980 – Um Homem Muito Especial – TV Bandeirantes
1981 – Os Imigrantes – TV Bandeirantes
1981 – Os Adolescentes – TV Bandeirantes
1982 – Ninho da Serpente – TV Bandeirantes
1997 – Os Ossos do Barão – SBT

Como ator
1967 – As Minas de Prata … Frazão
1987 – Sassaricando … Totó
1989 – Cortina de Vidro … Arnon Balakian
1989 – Que Rei Sou Eu? … Ravengar
1992 – Amazônia … Dr. Homero Spinoza
1993 – O Mapa da Mina … Nero
1995 – A Idade da Loba … Piconês
1997 – Os Ossos do Barão … Sebastião
1999 – Andando nas Nuvens … Álvaro Luís Gomes
1999 – Terra Nostra … Coutinho Abreu
2000 – Marcas da Paixão … Dono Do Cassino
2004 – Começar de Novo … Dimitri Nicolaievitch
2009 – Poder Paralelo … Marco Iago
2011 – Corações Feridos … Dante Vasconcelos

NO CINEMA
1989 – Festa, com direção de Ugo Giorgetti
1989 – Lua Cheia, com direção de Alain Fresnot
1990 – Os Sermões – A História de Antônio Vieira, com direção de Júlio Bressane
1991 – Olímpicos, com direção de Flávia Moraes
1992 – Atrás das Grades, com direção de Paolo Gregori
1992 – Perigo Negro, com direção de Rogério Sganzerla
1993 – Oceano Atlantis, com direção de Francisco de Paula
1995 – Carlota Joaquina, princesa do Brazil, com direção de Carla Camurati
1996 – Quem matou Pixote?, com direção de José Joffily
1996 – Olhos de Vampa, com direção de Walter Rogério
1998 – Caminho dos Sonhos, com direção de Lucas Amberg
2000 – Villa-Lobos – Uma Vida de Paixão, com direção de Zelito Viana
2005 – Concerto Campestre, com direção de Henrique de Freitas Lima
2005 – Quanto vale ou é por quilo?, com direção de Sérgio Bianchi
2008 – É Proibido Fumar, com direção de Anna Muylaert
2010 – Syndrome, com direção de Roberto Bomtempo
2011 – Assalto ao Banco Central, com direção de Marcos Paulo
2013 – Babu – A Reencarnação do Mal, com direção de Cesar Nero
2012 – Brichos – A Floresta é Nossa

Na primeira metade dos anos 1980, Abujamra se engaja no projeto de recuperar artisticamente o Teatro Brasileiro de Comédia – TBC. Inaugura novas salas e implanta um movimento que faz vir à luz alguns novos autores e diretores. Entre seus espetáculos mais significativos no TBC estão: Os Órfãos de Jânio, de Millôr Fernandes, 1981; Hamletto, de Giovanni Testori, 1981 (peça que ele dirigirá mais duas vezes: no próprio TBC, 1984, e em Nova York, para o Theatre for the New City, 1986); Morte Acidental de um Anarquista, de Dario Fo, 1982; e A Serpente, de Nelson Rodrigues, 1984. Um dos maiores sucessos de sua carreira, Um Orgasmo Adulto Escapa do Zoológico, de Dario Fo, 1984, traz um solo virtuosístico que projeta a atriz Denise Stoklos para uma carreira internacional e é aplaudido em vários festivais fora do Brasil.

Em 1987, encerrado o projeto do TBC, Abujamra dirige, para a Companhia Estável de Repertório – CER, de Antonio Fagundes, a superprodução Nostradamus, de Doc Comparato, grande êxito de bilheteria.

Aos 55 anos de idade, Abujamra inicia sua carreira de ator. Em dois anos, atua em duas telenovelas e três peças e é premiado pelo desempenho no monólogo O Contrabaixo, de Patrick Suskind, 1987. No ano seguinte, encena mais uma colaboração com Nicette Bruno e Paulo Goulart, À Margem da Vida, de Tennessee Williams.

Em 1991, recebe o Prêmio Molière pela direção de Um Certo Hamlet, espetáculo de estréia da companhia Os Fodidos Privilegiados, fundada por Abujamra para ocupar o Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro.

O crítico Macksen Luiz, alega, a respeito do espetáculo, que o deboche vulgar nas mãos de Abujamra torna-se algo paradoxal, algo como um “morde assopra”, suscitando reações adversas na platéia: “(…) Antônio Abujamra faz questão de chocar, de provocar reações pelo exagero. Não tem qualquer pudor em ser vulgar até o limite da banalidade. O deboche é alçado como linguagem, o que em mãos menos experientes poderia redundar apenas em gratuidade e agressão. Tanto um quanto outro estão presentes em Um Certo Hamlet, mas a personalidade teatral de Abujamra parece justificar esses aspectos através de formato cênico tradicional. (…) Abujamra, como bom frasista, não perde a oportunidade de provocar. É dele a definição de que Um Certo Hamlet é ‘profano, perverso e ultrajantemente engraçado’. Todos esses adjetivos funcionam para o bem e para o mal na sua montagem. A preocupação em ampliar cada um deles até o exagero, faz com que, muitas vezes, o diretor caia na mera vulgaridade. A provocação se transforma em efeito. Tudo se combina para que o espectador não tenha dúvidas sobre de quem (ou contra o que) o espetáculo trata. Shakespeare não está ausente: é o substrato da encenação. Popularizado, subvertido, pulverizado, Hamlet emerge numa leitura pessoal, que provoca repulsa ou adesão. Não há meios tons possíveis. Ao aceitar a chave de Antônio Abujamra, o espetáculo flui com algumas surpresas e com um namoro firme com o melhor do estilo besteirol. A mistura não chega a ser tão explosiva quanto parece desejar o diretor, mas se legitima no fundamento teatral do diretor”.2

À frente de Os Fodidos Privilegiados, Abujamra dirige regularmente espetáculos na década de 1990, dividindo mais tarde essa tarefa com João Fonseca. Com o grupo, ganha o Prêmio Shell de melhor direção de 1998, numa adaptação do romance O Casamento, de Nelson Rodrigues.

Abujamra trabalha também, ativamente, como diretor e ator de televisão, em novelas, especiais, programas educativos e teleteatros, e em 2000 inicia um programa de entrevistas na TV Cultura, Provocações.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 28/04/2015
  • Fonte: FERVER