Meu recado aos prefeitos do Grande ABC
Região cresce 6,5%, mas Santo André encolhe. Uma análise dura sobre os desafios dos prefeitos do Grande ABC (Por Thiago Quirino*)
- Publicado: 16/02/2026
- Alterado: 23/12/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Gustavo Mioto
A propaganda dos últimos nove anos mostra Santo André como uma cidade inovadora, produtiva, acolhedora e para frente. O discurso político, bem treinado, pode iludir os mais desatentos, mas os números, no entanto, não mentem.
O relatório recente do Centro de Inteligência de Mercado (CIM) da Strong Business School sobre o PIB do Grande ABC traz um diagnóstico agridoce que deve ser lido com atenção pelos prefeitos do Grande ABC: crescemos, sim, mas estamos ficando para trás. E, no coração da região, Santo André acende um sinal de alerta vermelho que a nova gestão não pode ignorar.
À primeira vista, as sete cidades do Grande ABC comemoraram um crescimento regional de 6,52% no biênio 2022-2023, período que compõe o relatório do CIM. Contudo, quando olhamos para os vizinhos, os motivos de comemoração acabam. Enquanto o ABC considerava que seus números eram bons, a economia do Estado de São Paulo crescia quase o dobro (11,1%) e a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) avançava 12,2%.
Um olhar macro revela o que de fato enfrentamos: um voo de galinha regional. E o buraco é mais fundo: a região ainda não recuperou o patamar de atividade econômica de 2011. Estamos operando 12% abaixo do que éramos há mais de uma década.
E vou além. Entre 2011 e 2021, enquanto o Brasil crescia timidamente, o ABC encolheu assustadores 17,6%. O que justifica esse resultado, segundo a análise da pesquisa, é que estamos vivendo uma simplificação da estrutura produtiva, perdendo a corrida da complexidade econômica.
A estagnação em Santo André

Aqui que precisamos “dar nome aos bois“. Sou morador de Santo André desde 2017 e é notório o desenvolvimento que a cidade apresentou nos oito anos de gestão do ex-prefeito Paulo Serra (PSDB). A cidade pareceu mais organizada, limpa, com serviços públicos funcionando ligeiramente melhor.
O esforço de Serra em fazer a cidade crescer foi visível, porém, o político que é constantemente exaltado por aliados como um excelente gestor apresentou um desempenho pífio em seus dois últimos anos de gestão, dissonante de todo o resto da região.
Os dados são claros e cruéis. Santo André foi a única cidade a apresentar retração do PIB (Produto Interno Bruto) no último biênio analisado. O PIB recuou -0,50% em 2022 e aprofundou a queda para -0,65% em 2023. Enquanto São Caetano do Sul voava com 22,06% de alta e até Rio Grande da Serra surpreendia com 10,30%, Santo André, segundo os dados concretos dos números de desenvolvimento econômico municipal, andou para trás.
A gestão Paulo Serra, frequentemente auto-intitulada como eficiente e inovadora, entregou uma cidade economicamente estagnada em sua reta final. O marketing político não sustentou a realidade dos números: a cidade perdeu capacidade de gerar riqueza real. E o cidadão ficou sem saber o motivo, já que a propaganda até agora não trouxe respostas claras sobre o que ocorreu na cidade.
Meu recado ao prefeito Gilvan Ferreira (PSDB)

Diante disso, preciso me dirigir diretamente ao atual prefeito de Santo André. Gilvan, você herdou o apoio político, mas também herdou uma bomba-relógio econômica. Os números mostram que seguir a “cartilha” dos últimos dois anos do seu antecessor é um convite ao desastre.
Dar sequência, neste caso, significa continuar encolhendo. Seu desafio não é fazer mais do mesmo, mas ter a coragem de romper com a inércia. Santo André precisa urgentemente de inovação real para atrair serviços avançados e investimentos, áreas onde a cidade perdeu feio para os vizinhos.
Se não “abrir os olhos”, sua gestão será lembrada como a que administrou o declínio. Por isso eu recomendo que você pare imediatamente o sangramento. Com dois anos seguidos de queda, sua prioridade zero é a retenção de empresas.
Você tem ao seu lado uma pessoa de boa competência, o senhor Evandro Banzatto, mas já ficou provado que ele sozinho é insuficiente para conter a maré negativa. Por isso, crie um gabinete de crise econômica e reúna um time de especialistas qualificados. A cidade precisa de um choque de atratividade para serviços de alta tecnologia, ou voltará a ser o que era há décadas, apenas um dormitório de luxo.
Meu conselho aos prefeitos do Grande ABC, cidade por cidade
A análise setorial mostra que a Indústria hoje responde por apenas 24% do nosso PIB, enquanto os Serviços Privados dominam com 49%. Senhores prefeitos do Grande ABC, não seria o momento de vocês prestarem atenção nesses números? O desafio é qualificar esses serviços.
Baseado nos dados do CIM, aqui vai um conselho prático para o executivo de cada cidade:
Tite Campanella (PL)

Distribua a bonança. Com um crescimento impressionante de 22,06% em 2023 é fruto do trabalho do seu antecessor. Seria importante reconhecer que o Auricchio não deixou só armadilhas escondidas em sua gestão. O desafio para você não é crescer, mas garantir que essa riqueza não fique concentrada apenas nos balanços corporativos.
Invista o excedente em bem-estar social para evitar a gentrificação excludente. Que, por sinal, parece ser essa sua bandeira de gestão. São Caetano cresce, mas você tem tentado fechar as fronteiras no que diz respeito ao uso de serviços públicos.
Enquanto você diz que ouviu especialistas e fez estudos, a realidade mostra uma gestão hostil ao trabalhador que vem de fora da cidade para trabalhar nas empresas e nas casas das famílias sul-caetanenses. Essas pessoas estão sendo proibidas de usufruir dos serviços públicos municipais somente porque não possuem um CEP na cidade, embora contribuam sim para a arrecadação municipal.
Tarifa Zero somente para morador da cidade? Sério, Tite? Ouça a população que não seja apenas os homens brancos de meia-idade.
Marcelo Lima (Podemos)

Mantenha o ritmo, mas inove. Crescer 7,54% é positivo, mas a cidade não pode depender eternamente da velha indústria. Use esse fôlego para incentivar polos de logística e tecnologia, diversificando a matriz antes que a próxima crise industrial chegue.
É preciso ainda fazer uma limpa na gestão e nos amigos que circulam pelos corredores da Prefeitura. Não basta ser honesto, tem que parecer honesto, sabe?
Como diretor de um veículo de imprensa de relevância na região, posso te sugerir mais um ponto. Não há dúvidas de que seu secretário de comunicação, o senhor Renato Targino, tem competências elevadas. Porém, sua fraqueza é não conhecer a imprensa regional, não abrir diálogo e considerar que todo veículo de imprensa seja um subalterno do poder público. Reveja esse cenário, Marcelo. Promova um relacionamento mais sério com a imprensa da região, ou então instrua seu secretário como fazê-lo.
Akira Auriani (PSB)

Crescimento sim, mas com preservação. O salto de 10,30% é uma excelente notícia, mas perigosa. Meu conselho a você, Akira, é blindar o manancial em duas frentes.
A primeira, use o crescimento econômico para financiar o turismo sustentável, evitando que a expansão imobiliária predatória destrua seu maior ativo.
A segunda, encare corajosamente seus desafios políticos e reconheça quando a paciência doer. Isso vai encurtar a delicada situação pela qual você vem passando. Não permita que um político tire vantagem de você por meio de chantagem. Todo mundo já sabe sobre o vídeo do gabinete. Em breve publicaremos um artigo sobre o assunto.
Taka Yamauchi (MDB)

Saia da média. Um crescimento de 3,84% é morno e você tem na ponta da língua o discurso para acusar seu antecessor de má gestão. De todos os prefeitos das Sete Cidades, você é que cumpre maior carga horária diária de trabalho e tem mostrado visivelmente desejo de virar a página da história da cidade.
Diadema precisa se livrar do estigma de “cidade de passagem“. O foco deve ser a qualificação da mão de obra local para atrair empresas que buscam custos menores que a capital, mas com qualidade técnica.
A cidade tem mostrado apoio ao combate aos pancadões. Mas a política de segurança pública precisa ter coerência. Não adianta nada se gabar de ter recebido emendas parlamentares para compra de equipamentos que os próprios GCMs não vão usar, enquanto que os equipamentos necessários não são comprados.
Já usaram o drone comprado por milhares de reais? Eu respondo: não. Enquanto isso, a GCM não tem sequer spray de pimenta (segundo me relatou uma fonte da própria corporação).
Guto Volpi (PL)

Profissionalize o Turismo. O crescimento de apenas 2,05% é pouco para o potencial da cidade e é inteiramente sua responsabilidade. A Estância Turística precisa transformar visitantes em receita recorrente.
Menos eventos pontuais, mais infraestrutura permanente de serviços e gastronomia é um direcionamento que precisa estar em pauta em todas as reuniões com seus secretários.
O desenvolvimento de uma rede hoteleira e do atendimento profissional focado no turista por parte do comércio da cidade é fundamental para esse desenvolvimento. Desde a época da ex-prefeita Maria Inês (PT) a cidade tem o título de Estância Turística, mas ainda não foi possível convencer os moradores ou potenciais turistas de que Ribeirão Pires consegue abrigar visitantes tão bem quanto Saquarema, São Bento do Sapucaí ou mesmo Ilhabela.
Marcelo Oliveira (PT)

Desburocratize ou estagne. Com apenas 1,73% de crescimento, Mauá está perigosamente perto da estagnação. O recado é simples: facilite a vida de quem quer empreender.
A cidade precisa de um choque de liberdade econômica para sair da lanterna do crescimento positivo. Seu trânsito com o governo federal pode lhe render bons resultados atraindo para a cidade investimentos federais, tecnologia no serviço público e entregas que resolvam os problemas reais da população.
Sou nascido e criado em Mauá, conheço muito bem as mazelas da cidade e posso dizer que você está em um bom caminho, mas é necessário fazer mais e melhor.
Posso concluir esse artigo dizendo que o Grande ABC tem potencial, mas os dados do professor Sandro Maskio , da Strong, mostram que a retomada da competitividade regional não cairá do céu e os desafios que aguardam os prefeitos do Grande ABC exigem planejamento urbano e articulação política séria. Para Santo André, especificamente, o tempo das desculpas acabou. Ou a nova gestão muda a rota, ou continuaremos assistindo ao empobrecimento de uma das cidades mais importantes do país.
*Thiago Quirino é Diretor de Jornalismo do portal ABCdoABC