Eram os deuses patriotas?

Quando o amor à pátria se confunde com a idolatria religiosa nacionalista que afasta o indivíduo de Deus - Por Thiago Quirino*

Crédito: Ilustração de Eram os Deuses Patriotas? (imagem gerada por IA)

Antes de iniciar a leitura, um esclarecimento: este artigo não defende um espectro ideológico. É, antes, um estudo sobre a interseção entre o comportamento religioso e a ideologia política, focando em como o fervor patriótico pode se metamorfosear em nacionalismo autoritário. Analisaremos o fenômeno com base em movimentos históricos e atuais. Estando isso claro, vamos ao conteúdo:

Em 1968, o escritor suíço Erich von Däniken propôs uma tese que, embora cientificamente implausível, era narrativamente sedutora: as maravilhas do mundo antigo, das pirâmides de Gizé às linhas de Nazca, eram complexas demais para as mãos humanas “primitivas“. A solução? Eram os Deuses Astronautas. O divino, segundo o autor, não era mágico, inexplicável ou mesmo fruto da revelação espiritual, era apenas tecnologia incompreendida pela mentalidade humana. Seu livro virou um best-seller.

Na adolescência, ‘Eram os Deuses Astronautas? foi um dos meus livros favoritos. As descrições bíblicas de ‘carros de fogo’ ou ‘serafins com mil olhos’ pareciam, de fato, descrições óbvias de aeronaves e de tecnologia avançada. A tese era atraente porque oferecia uma resposta grandiosa e simples para mistérios complexos.

Porém, o amadurecimento intelectual exige reconhecer quando uma ideia, por mais sedutora que seja, falha. Hoje, é claro para mim que a teoria de Von Däniken subestima grosseiramente a engenhosidade humana, baseando-se em especulações que distorcem o contexto cultural. Reconhecer isso, no entanto, me fez perceber como esse padrão de pensamento — o de aceitar uma simplificação dramática da realidade — é um fenômeno recorrente. E é exatamente esse padrão que me leva a analisar um delírio muito mais atual e perigoso.

Posso dizer que, ironicamente, hoje vivemos uma versão desse mesmo delírio. Não estamos vendo tecnologia e a confundindo com deuses, é claro; estamos olhando para uma construção humana, complexa e inteiramente política, que popularmente chamamos de Estado-Nação, e a tratando com a reverência do sagrado. O delírio contemporâneo não é que os deuses sejam astronautas, mas que sejam patriotas. 

Assim, este artigo visa explorar a perigosa fusão entre o fervor religioso e o nacionalismo identitário, uma teologia política que transforma o patriotismo em idolatria e fornece a justificação moral para o autoritarismo.

Afinidade eletiva da Fé patriota que anseia pela Nação

O conceito de “Wahlverwandtschaft”, ou a afinidade eletiva definida pelo sociólogo alemão Max Weber, exemplifica bem o fenômeno que observo entre as correntes conservadoras e o universo político. Weber descreve que duas ideias ou grupos diferentes — por exemplo, a ética protestante e o espírito do capitalismo — não têm a mesma origem, mas atraem-se mutuamente, se encaixam e se reforçam.

Mais do que isso, Weber entendia que as ideias religiosas têm o poder de direcionar o curso da história, não como meras crenças, mas como forças ativas. Em sua famosa metáfora, ele explica:

Muito frequentemente, as ‘imagens mundiais’ criadas pelas ‘ideias’ determinaram, qual manobreiros, os trilhos pelos quais a ação foi levada pela dinâmica do interesse. ‘De que’ e ‘para que’ o homem desejava ser redimido e, não nos esqueçamos, ‘podia’ ser redimido, dependia da imagem que ele tinha do mundo.1

E a questão central do que tento explicar não é se os religiosos são mais ou menos patriotas, mas, precisamente, esta: por que o nacionalismo radical e certas correntes do conservadorismo religioso demonstram essa afinidade eletiva tão intensa?

A resposta reside na busca por absolutos. A modernidade liberal, com sua complexidade, pluralismo e inescapáveis “tons de cinza”, é profundamente desconfortável para uma visão de mundo que depende de verdades absolutas: o bem e o mal, o culpado e o inocente, o “nós” (os salvos) e o “eles” (os condenados).

Essa visão de mundo religiosa prospera sob a narrativa de um conflito espiritual. O nacionalismo radical, então, oferece uma solução sedutora: traduz essa guerra espiritual para o campo político.

E é aqui que encontramos a análise de outro sociólogo. Descobri Émile Durkheim ainda nos bancos da universidade e, desde então, tenho grande dificuldade em observar a sociedade sem aplicar as lentes do brilhante sociólogo francês. Simplificando ao máximo, Durkheim previu que a sociedade moderna, ao se afastar das religiões tradicionais, não se tornaria menos religiosa; ela simplesmente criaria novas religiões. Para ele, o nacionalismo é a religião cívica do Estado-Nação.

Em sua obra-prima, As Formas Elementares da Vida Religiosa, após analisar o totemismo, Durkheim chega à sua conclusão bombástica sobre a verdadeira natureza da adoração:

O deus do clã, o princípio totêmico, só pode ser o próprio clã, mas hipostasiado e representado às imaginações sob as aparências  sensíveis do vegetal ou do animal que serve de totem.2

Nessa visão, em que o patriotismo se funde com a fé, a Nação deixa de ser um contrato social (uma convenção humana) e passa a ser uma muralha sagrada contra o caos percebido da modernidade: o globalismo (que dissolve fronteiras), o secularismo (que ataca a fé) e o progressismo (visto como decadência moral).

Defender a Nação, portanto, não é mais um ato cívico. Torna-se, literalmente, defender a obra de Deus. 

Essa transmutação do político em sagrado não é apenas uma abstração sociológica. Para que a Nação funcione como um ídolo, a pátria precisa ser adorada. E toda adoração, como Durkheim nos ensinou, exige rituais, símbolos e, o mais importante, um credo que possa ser professado.

Nação como ídolo apoiada na teologia do slogan

Eram os Deuses Patriotas?
Ilustração de Eram os Deuses Patriotas? (imagem gerada por IA)

Toda religião precisa de uma liturgia. O nacionalismo-religioso a tem: a bandeira torna-se a relíquia sagrada, o hino, um cântico de louvor, e os monumentos aos heróis, seus altares. Mas, acima de tudo, ele precisa de um credo.

No Brasil, esse credo foi sintetizado com uma precisão teológica assustadora: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.”

À primeira vista, o slogan parece hierarquizar Deus como supremo. Na prática, ele faz o oposto: cria dois absolutos paralelos e os funde na figura do líder político. “Brasil acima de tudo” estabelece a lealdade terrena absoluta; “Deus acima de todos” invoca a sanção divina. Quem, então, interpreta a “vontade de Deus” e o que é “melhor para o Brasil“? O líder. 

O resultado é a transformação da política em teocracia. A dissidência política deixa de ser um direito democrático e torna-se, simultaneamente, dois pecados capitais: traição (contra a Nação) e heresia (contra Deus).

Este não é um fenômeno local. Vemos o mesmo mecanismo no nacionalismo cristão norte-americano. Lá, o slogan político “Make America Great Again” (MAGA) é teologicamente inseparável da crença de que os Estados Unidos são uma “nação escolhida” por Deus, um “farol no monte” (a city upon a hill puritana), cuja grandeza foi perdida para o secularismo, a cultura woke e as pautas progressistas.

Nessa visão, o líder político (neste caso, Donald Trump) é frequentemente enquadrado por seus apoiadores religiosos como uma figura bíblica, por vezes comparado ao rei Ciro — um líder pagão e imperfeito “ungido” por Deus para cumprir um propósito divino: salvar a nação dos “infiéis” (globalistas, comunistas, imigrantes ilegais, comunidade LGBTQIAPN+, etc.). A idolatria à nação (“America First“) e a obediência a Deus tornam-se, novamente, indistinguíveis.

Esse padrão é a espinha dorsal da “Internacional Nacionalista” que conecta movimentos na Hungria de Viktor Orbán (que se posiciona como o defensor da “Europa Cristã”) à Rússia de Vladimir Putin (que usa a Igreja Ortodoxa para santificar suas ambições geopolíticas), todos unidos por uma defesa de uma suposta “civilização cristã” contra seus supostos inimigos.

Mas o que acontece quando essa teologia política sai dos slogans e é convocada à ação? O que ocorre quando os “infiéis” — neste caso, as próprias instituições democráticas que garantem a alternância de poder — produzem um resultado que contradiz a “vontade do Deus” ou de seu “porta-voz autoproclamado” e o “destino da nação“?

Acontece a heresia democrática. E a resposta a ela é a guerra santa.

Heresia democrática leva à Guerra Santa no Capitólio e no Planalto

As cores podem ser diferentes. De um lado, as “flags” são azuis, vermelhas e brancas. Do outro lado, são verdes e amarelas. Mesmo havendo um hiato entre elas, as cenas são ecos uma da outra, separadas por dois anos e um continente, mas unidas por uma fé idêntica. O 6 de janeiro de 2021, em Washington, e o 8 de janeiro de 2023, em Brasília, não foram meros “protestos políticos” que saíram do controle.

Foram, na prática, rituais violentos de purificação. Foram a consequência lógica de uma teologia que não pode, por definição, aceitar uma derrota eleitoral.

Nesses eventos, não vimos apenas “cidadãos” exercendo seus direitos; vimos “crentes” em uma cruzada. A bandeira nacional, ou “totem” descrito por Durkheim, não era usada como símbolo da nação inteira, mas como um manto sagrado, o estandarte da facção que se via como a única representante legítima da “Nação de Deus“.

A presença de Bíblias, de pessoas orando ajoelhadas, de hinos cantados em meio à depredação (veja aqui uma coleção de imagens da destruição), bandeiras nacionais entrelaçadas com cruzes, gritos de “Jesus” misturados a pedidos de intervenção militar não é uma contradição: é a chave para entender o fenômeno. 

O alvo, em ambos os casos, foi profundamente simbólico. O Capitólio (o Congresso) e, de forma ainda mais explícita, a Praça dos Três Poderes (com foco no Supremo Tribunal Federal) são os “templos” da democracia liberal. Na teologia nacionalista, quando essas instituições “hereges” validam uma eleição “fraudada” ou “perseguem” o líder-messias, as mesmas organizações profanam o templo. Seus representantes são indignos de permanecer no solo sagrado e precisam ser defenestrados em nome do patriotismo espiritual.

O vandalismo, portanto, não é visto pelos perpetradores como um crime contra o patrimônio. É um ato iconoclasta: é a destruição justificada dos “falsos ídolos” (a cadeira de um ministro da Suprema Corte, a Constituição) em nome do “Deus verdadeiro” (a pátria, a vontade do povo). Os atos seriam uma versão moderna das Cruzadas. O expurgo dos hereges é autorizado por Deus, para que a Terra Prometida se mantenha limpa para abrigar o povo escolhido.

Ambos os eventos revelam a conclusão inescapável dessa fusão: quando o patriotismo se torna uma religião fundamentalista, qualquer processo democrático que frustre sua vontade é, por definição, ilegítimo. A “Heresia Democrática” é o diagnóstico que essa fé dá à democracia. A “guerra santa” é o seu tratamento. 

A Lei dos Homens (a Constituição) foi subjugada pela suposta “Lei de Deus”.

A geopolítica como profecia do Povo Escolhido 2.0

Eram os Deuses Patriotas?
Ilustração de Eram os Deuses Patriotas? (imagem gerada por IA)

Agora, o que apresento neste momento pode, a princípio, parecer contraditório, mas trata-se de uma evolução natural do fenômeno do patriotismo religioso. Nossos patriotas não são estritamente fiéis à sua terra-mãe; sua fidelidade se desprende da fronteira geográfica da nação para se apegar a símbolos que reforcem seu discurso espiritual. Para os patriotas, esse laço é mais importante do que o bairrismo do local de nascimento, logo, o discurso tem mais valor que a própria pátria.

Assim, a teologia política estende-se para além das fronteiras nacionais, reescrevendo a geopolítica como profecia. O exemplo mais claro é a adoção fervorosa da bandeira de Israel por movimentos evangélicos, exemplificados neste artigo com o Brasil e os EUA.

Esse apoio não se baseia primariamente em uma análise de política externa, mas sim na escatologia, ou seja, na teologia do fim dos tempos. E aqui preciso ser específico. A grande teologia acadêmica, como a “Teologia da Esperança” do alemão Jürgen Moltmann3, vê a escatologia como uma força de esperança radical que deve nos impulsionar a criticar as injustiças do presente em nome do futuro prometido por Deus.

No entanto, a escatologia popular que impulsiona o patriotismo religioso é outra. Trata-se, em grande parte, do dispensacionalismo premilenarista: uma interpretação literalista que divide a história em eras, ou dispensações, e lê a profecia bíblica como um “roteiro” político e militar rígido.

Nessa visão de mundo, o restabelecimento do Estado de Israel em 1948 não é um evento geopolítico complexo; é o sinal previsto nas sagradas escrituras, o cumprimento obrigatório da profecia. É como um gatilho divino necessário para iniciar a contagem regressiva da Grande Tribulação, o Arrebatamento e, finalmente, a Segunda Vinda de Cristo.

Portanto, apoiar o Estado de Israel — independentemente de suas ações políticas — torna-se um dever religioso. Veja, não é sobre diplomacia; é sobre garantir que o “relógio de Deus do fim do mundo” continue andando. É uma forma de alinhar-se ao “lado de Deus” na batalha final. Em resumo, é uma forma de interpretar os livros sagrados do cristianismo de maneira peculiar, para não dizer distorcida.

Esse alinhamento permite que o grupo patriota ignore completamente massacres, abusos e violações de direitos humanos que são difíceis até mesmo de descrever. Paralelamente, enquanto Israel se torna o povo santo, a Palestina é vista como a principal inimiga produtora de terroristas.

A consequência trágica é a desumanização do “outro“. O povo palestino deixa de ser um grupo com reivindicações nacionais e com direitos humanos legítimos. Em vez disso, ele é escalado no drama divino como o antagonista, o herege, o terrorista que se opõe ao plano de Deus. Sua desumanização é justificada teologicamente pelo patriotismo religioso.

O resultado dessa desumanização teológica é medido em estatísticas que mal conseguem captar a tragédia. Segundo os dados mais recentes do Ministério da Saúde de Gaza (utilizados por agências da ONU, como o OCHA), o número de palestinos mortos desde outubro de 2023 ultrapassou 68.800 pessoas4.

O dado mais contundente, que fala diretamente à tese da desumanização, é quem são as vítimas. De acordo com o colapso de dados do MoH de Gaza (citado pelo OCHA em outubro de 2025), entre as dezenas de milhares de vítimas identificadas, 30% são crianças e 16% são mulheres5.

Mesmo essa estatística de 46% não conta a história toda, já que dezenas de milhares de pessoas continuam desaparecidas sob os escombros. Ainda assim, o número absoluto é devastador: mais de 20.100 crianças identificadas como mortas. São pessoas que não pegam em armas, que não planejam atentados terroristas, que não fazem parte de exércitos, que não militam em nenhuma causa e que sequer são consideradas cidadãs em certas culturas.

Para colocar em perspectiva: a UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo) reportou ainda em março de 2024 que o número de crianças mortas em Gaza em poucos meses já havia superado o total de crianças mortas em todos os outros conflitos do mundo somados, durante um período de quatro anos6. Desde então, o número de crianças mortas em Gaza mais do que dobrou.

Muitas dessas mortes, aliás, não vêm apenas de mísseis, mas também da fome e de doenças. Em agosto de 2025, o IPC (Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar)declarou oficialmente a fome (Fase 5) em partes de Gaza7. Seus relatórios são explícitos ao classificar a fome como um “desastre causado pelo homem” (man-made disaster), resultado direto do bloqueio da ajuda humanitária — uma tática de guerra que só é moralmente palatável quando o “outro” já foi teologicamente desumanizado.

Esta realidade estatística, em que a fome se torna uma arma de guerra justificada por uma profecia, é o ponto onde o argumento deixa de ser teórico e se torna uma tragédia humana. Esse mecanismo — a desumanização do outro santificada pela fusão da Nação-Ídolo com a vontade divina — não é, infelizmente, original. Ele é o exato padrão que define o flerte fatal entre nacionalismo e o fascismo.

No entanto, é precisamente neste ponto de horror que a análise exige sua nuance necessária. É preciso ter a coragem intelectual de diferenciar esta patologia da fé de outras formas de patriotismo e religião que, historicamente, se revelaram o exato oposto: a maior fonte de resistência à tirania.

Gott mit uns“: o alerta fascista e a Fé como antídoto

Historicamente, essa fusão entre a cruz e a espada, entre o altar e o trono, é a pista de pouso do fascismo. O movimento “Deutsche Christen” (Cristão Alemão) tentou ativamente fundir o nazismo ao protestantismo, pregando um “Cristianismo Positivo” que expurgava as origens judaicas de Jesus. O lema inscrito nos cinturões dos soldados da Wehrmacht era, afinal, “Gott mit uns” (Deus conosco).

A lição é clara: se Deus está incondicionalmente conosco (com nossa nação, nosso líder), então toda atrocidade é permitida contra aqueles que não estão conosco.

Aqui, no entanto, a honestidade intelectual exige duas distinções cruciais.

Primeiro, nem todo nacionalismo é este nacionalismo. Seria um erro grosseiro equiparar a idolatria étnico-religiosa da extrema-direita a, por exemplo, o nacionalismo anticolonial de esquerda. Movimentos de libertação na Ásia ou na África, ou o nacionalismo de recursos na América Latina, podem ter levado (e levaram) a seus próprios autoritarismos, mas sua base filosófica era outra: soberania popular, anti-imperialismo, justiça social. O objeto de nossa crítica aqui é especificamente a patologia que funde a fé fundamentalista à identidade nacional.

Segundo, e mais importante, assim como Von Däniken estava errado ao subestimar a engenhosidade humana (os egípcios construíram as pirâmides), estaríamos errados ao afirmar que a fé é inerentemente totalitária. A história prova o exato oposto.

O pastor alemão Dietrich Bonhoeffer foi executado pelos nazistas por usar sua fé cristã para resistir a Hitler, argumentando que quando o Estado se torna Igreja, exigindo obediência total, o cristão tem o dever de agir e “emperrar a roda” se necessário. Creio que Bonhoeffer compreendia o conceito de patriotismo religioso e seus riscos.

Nos EUA, Martin Luther King Jr. usou sua fé não para idolatrar a nação, mas para criticá-la. Seu patriotismo era crítico; ele usava os valores religiosos de justiça e fraternidade para cobrar da América seus pecados (o racismo), exigindo que ela se tornasse digna de seus próprios ideais.

Semelhantemente, o próprio conservadorismo não é sinônimo de fascismo, e a Operação Valquíria é a prova trágica disso. O atentado à vida do Führer em 20 de julho de 1944 foi liderado por oficiais de alta patente da Wehrmacht, muitos deles conservadores aristocráticos e cristãos devotos, como o Coronel Claus von Stauffenberg.

O que moveu Stauffenberg não foi uma súbita conversão à democracia liberal; foi a convicção patriótica e moral de que Hitler era um anticristo niilista que estava destruindo a alma, a honra e a fé da Alemanha. Os líderes da operação usaram seu patriotismo contra o Führer, em nome de um padrão moral superior.

Tanto Bonhoeffer quanto Stauffenberg ilustram a distinção final e mais importante deste ensaio: a diferença entre idolatria e patriotismo crítico.

O cristão alemão, ou o patriota religioso, fundiu Deus e a Nação, transformando a fé em um carimbo de borracha para o genocídio. Bonhoeffer e os conservadores da Operação Valquíria, ou os patriotas críticos, por outro lado, usaram seus valores — cristãos, éticos, morais — para julgar sua nação e declarar suas ações monstruosas.

O antídoto para o patriotismo religioso que descrevemos não é a ausência de fé ou de amor à pátria. O antídoto é a presença de uma consciência — seja ela religiosa ou secular — que se recusa a transformar a nação em um ídolo.

É com essa distinção crucial que podemos, enfim, retornar à nossa pergunta original.

Deixar os deuses no Céu

O delírio de Erich von Däniken era, em retrospectiva, inofensivo. Ele nos deu ficção científica de qualidade duvidosa. O delírio contemporâneo — o de que os deuses são patriotas e que nossa nação é seu instrumento divino — é infinitamente mais perigoso.

Ele oferece a seus seguidores a mais potente das drogas: a certeza moral. Ele dá permissão divina para desumanizar opositores, justificar a violência e desmantelar a democracia em nome de uma guerra santa.

Os deuses não eram astronautas. E eles, certamente, não são nacionalistas. O verdadeiro desafio intelectual e cívico é resistir à tentação da idolatria, retirar o manto do sagrado da política e forçar nossos líderes a operar onde eles devem: na terra complexa, humana, falível e desesperadamente secular.

Afinal, o patriotismo de que a humanidade precisa não é o que desumaniza em nome de um ídolo, mas o que se ancora na justiça e na digna tarefa de cuidar do outro. É o que pensa o patriota que assina este texto.

*Diretor de jornalismo do Portal ABCdoABC

Referências

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 02/12/2025
  • Fonte: Multiplan MorumbiShopping