Arábia Saudita enfrenta embargo marítimo dos houthis
Houthis anunciam embargo marítimo contra a Arábia Saudita, elevando a tensão no Mar Vermelho e ampliando riscos ao comércio global.
- Publicado: 21/07/2026 09:59
- Alterado: 21/07/2026 10:06
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Assessoria
Os rebeldes houthis, que controlam parte do território do Iêmen e contam com apoio do Irã, anunciaram nesta segunda-feira (20) a imposição de um embargo marítimo contra a Arábia Saudita. A medida, segundo o grupo, entrou em vigor imediatamente e foi apresentada como resposta ao bloqueio imposto por Riad a portos e aeroportos localizados no noroeste iemenita.
O anúncio foi feito pelo porta-voz militar dos houthis, que classificou a iniciativa como uma retaliação direta às restrições sauditas. Apesar de não detalhar como o bloqueio será executado, um representante do setor de comunicação do movimento informou que embarcações sauditas não poderão mais utilizar o Estreito de Bab al-Mandab, passagem estratégica que dá acesso ao sul do Mar Vermelho.
Até o momento, o governo saudita não se pronunciou oficialmente sobre a declaração.
Arábia Saudita amplia uso do Mar Vermelho para exportação de petróleo
O Mar Vermelho ganhou importância estratégica para a Arábia Saudita durante o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que provocou o fechamento do Estreito de Ormuz e obrigou o reino a buscar rotas alternativas para suas exportações de petróleo.
A nova ameaça dos houthis ocorre apenas uma semana após a maior escalada nas hostilidades entre o grupo e a Arábia Saudita desde a trégua informal estabelecida em 2022.
Recentemente, os rebeldes afirmaram ter disparado mísseis contra o aeroporto de Abha, localizado no sudoeste saudita, em resposta aos bombardeios contra o aeroporto de Sanaa, que atribuíram às forças sauditas.
Os ataques, no entanto, foram reivindicados pelo governo iemenita apoiado por Riad, que alegou ter atuado para impedir o pouso de uma aeronave iraniana na capital sem autorização.
Guerra no Iêmen já deixou mais de 150 mil mortos
O conflito no Iêmen começou em 2014, quando os houthis derrubaram o governo instalado em Sanaa. No ano seguinte, a guerra se intensificou após a intervenção de uma coalizão de países árabes liderada pela Arábia Saudita, que buscava restaurar o governo reconhecido internacionalmente.
De acordo com as Nações Unidas, a guerra já provocou mais de 150 mil mortes e desencadeou uma das maiores crises humanitárias do planeta. Atualmente, mais de 22 milhões de pessoas dependem de ajuda humanitária para sobreviver.
Durante o anúncio desta segunda-feira, o porta-voz militar houthi, Yahya Sarea, acusou os sauditas de manterem um “cerco injusto e opressivo” ao povo iemenita por quase 12 anos, explorando recursos do país e impondo bloqueios por terra, mar e ar.
Segundo ele, a resposta do grupo será baseada na lógica de “olho por olho”, por meio da implementação de um embargo marítimo contra o que chamou de “inimigo criminoso saudita”.
Sarea ainda advertiu que qualquer nova escalada promovida pelos sauditas será respondida com ações “abrangentes e decisivas”.
Estreito de Bab al-Mandab volta ao centro das preocupações
Embora o porta-voz militar não tenha explicado como o embargo será aplicado, o vice-chefe do escritório de comunicação dos houthis, Nasruddin Amer, publicou na rede social X (antigo Twitter) que as forças do grupo estavam fechando o Estreito de Bab al-Mandab para navios sauditas.
Com cerca de 32 quilômetros de largura, o estreito separa o sudoeste do Iêmen do Chifre da África e conecta o Golfo de Aden ao Mar Vermelho, que possui ligação com o Mar Mediterrâneo por meio do Canal de Suez.
Desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, os houthis passaram a atacar embarcações comerciais que navegavam pelo Mar Vermelho e pelo Golfo de Aden utilizando mísseis, drones e pequenas embarcações. O grupo afirma que essas operações representam apoio aos palestinos.
Os ataques resultaram no afundamento de quatro navios, deixaram nove tripulantes mortos e reduziram o tráfego comercial no Estreito de Bab al-Mandab ao menor nível já registrado. Diante dos riscos, empresas de navegação passaram a desviar suas embarcações pela rota do Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África.
Apesar da suspensão dos ataques após o cessar-fogo em Gaza, anunciado em outubro do ano passado, o fluxo de navios ainda não retornou aos níveis anteriores, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Exportações de petróleo aumentaram pela nova rota
Com as restrições no Estreito de Ormuz, a Arábia Saudita passou a enviar mais de 70% de suas exportações de petróleo bruto pelo porto de Yanbu, localizado às margens do Mar Vermelho.
Nas últimas semanas, aproximadamente 4 milhões de barris de petróleo por dia foram embarcados pelo terminal, ante cerca de 973 mil barris diários registrados no mesmo período do ano anterior, conforme dados das consultorias Kpler e Signal Ocean.
O volume total de petróleo transportado pelo Estreito de Bab al-Mandab também aumentou, alcançando 7,4 milhões de barris por dia em junho, o equivalente a cerca de 7% da produção mundial.
Para Mohammed Albasha, da consultoria de risco Basha Report, sediada nos Estados Unidos, ainda é cedo para afirmar se os houthis realmente iniciarão ataques contra embarcações que tenham como destino a Arábia Saudita.
Em entrevista, o especialista avaliou que, mesmo sem ações militares imediatas, o anúncio já deve afetar o transporte marítimo e ampliar a insegurança nos portos sauditas.
“Mesmo que nenhum navio seja atacado, o anúncio por si só provavelmente interromperá o transporte marítimo e criará incerteza para os portos sauditas. Se os houthis passarão das ameaças para a ação direta continua sendo a questão crucial“, afirmou.