Apostas em bets: o custo emocional de um mercado bilionário
Com movimentação de R$ 37 bilhões em um ano e altos índices de dependência entre jovens, especialistas defendem que a educação financeira nas escolas é o caminho para prevenir o vício e o endividamento em bets
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 27/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: PMM
O encerramento do Janeiro Branco, mês focado na saúde mental, traz um alerta urgente: a explosão das apostas online (bets) está cobrando um preço alto dos brasileiros. Em 2025, o setor movimentou R$ 37 bilhões em receita bruta — valor superior ao faturamento anual de gigantes do varejo.
Embora os números econômicos impressionem, o rastro social é preocupante. Mais de 217 mil brasileiros pediram o bloqueio de suas próprias contas em plataformas de bets em apenas 40 dias, sendo que 37% deles admitiram a perda de controle sobre sua saúde mental.
Vício em bets:
O impacto atinge com mais força os grupos mais vulneráveis. Segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas – LENAD III, cerca de 10,8 milhões de brasileiros jogam de forma problemática, sendo que os adolescentes e as pessoas de menor renda são os principais alvos. Entre os menores de 18 anos que apostaram no último ano, 55% já apresentam comportamentos de dependência.
A Especialista em educação financeira e cofundadora da Bem Educação, Ana Leoni explica que esse ciclo é alimentado pela neurociência: o estímulo constante de dopamina cria uma sensação de prazer e recompensa que se torna um vício difícil de quebrar, especialmente para quem ainda não possui repertório emocional para estabelecer limites.

Essa dependência é intensificada por um investimento massivo em publicidade, que somou R$ 1,4 bilhão em 2025. A exposição constante normaliza o jogo e vende a ilusão do dinheiro fácil, enquanto, na realidade, o capital investido nas apostas é drenado da economia produtiva. De acordo com a Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, o dinheiro que deixa de ser gasto no comércio e em serviços para alimentar as bets interrompe o ciclo de geração de empregos e desenvolvimento social. Como alerta Thiago Godoy, cofundador da Bem Educação, trata-se de uma atividade que não cumpre papel social e acaba por empobrecer e adoecer as famílias brasileiras.

“A primeira coisa a fazer é acabar com a propaganda e fechar as brechas que mantêm esse mercado vivo. Sem isso, estamos apenas enxugando gelo.”, diz Thiago. “Quando alguém não consegue controlar a vontade de apostar, não é falta de força de vontade. E este é um problema que destrói finanças, relações e a saúde mental. Jogos de aposta não são uma brincadeira, são armadilhas montadas para fazer as pessoas perderem”, explica.
O mercado global de apostas, que movimentou US$ 101 bilhões em 2024, deve quase dobrar até 2030, segundo projeções internacionais. Embora o crescimento seja mundial, o impacto atinge com mais força as populações mais vulneráveis. No Brasil, o grande desafio é equilibrar a regulação do setor com a proteção social e a educação. “Conheça os riscos, busque ajuda e bloqueie anúncios”, orienta Thiago Godoy, reforçando que ignorar o tema não é mais uma opção.
Educação financeira nas escolas
Diante desse cenário, a educação financeira nas escolas surge como uma estratégia de prevenção essencial. Mais do que ensinar a lidar com números, essa disciplina deve focar no comportamento e na análise crítica sobre promessas de ganho rápido. Ao desenvolver autonomia e autocontrole desde a infância, é possível formar adultos capazes de diferenciar desejo de necessidade e de resistir às armadilhas do jogo compulsivo. O debate sobre saúde mental no Brasil precisa, necessariamente, passar pela educação financeira consciente, garantindo que o dinheiro e o comportamento sejam discutidos com a seriedade que o bem-estar coletivo exige.
Segundo Ana Leoni, formar crianças e jovens financeiramente conscientes é investir em saúde mental coletiva. “A educação financeira não fala só de números. Ela fala de comportamento, emoção e escolhas. Quando ensinamos desde cedo, reduzimos drasticamente a chance de adultos adoecerem por decisões financeiras impulsivas”, afirma.