Após cancelamento de show de Caetano, MTST faz caminhada até o Morumbi
Movimento pretende caminhar 23 quilômetros até a sede do governo do Estado para pedir desapropriação do terreno ocupado por mais de 7 mil famílias
- Publicado: 06/11/2025
- Alterado: 31/10/2017
- Autor: Redação
- Fonte: Live Nation
A juíza Ida Inês Del Cid, da 2.ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo do Campo, no ABC, decidiu proibir a realização do show marcado pelo artista Caetano Veloso em uma ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) no bairro Planalto. O show estava marcado para ocorrer às 19 horas desta segunda-feira, dia 30. A juíza impôs multa de R$ 500 mil caso a decisão não fosse cumprida e autorizou “ordem policial, se necessário”, segundo sentença publicada nesta tarde. Caetano cancelou a apresentação após a decisão judicial, a qual chamou de “manobras legais”, mas manteve o ato na ocupação.
“Nós viemos aqui com vontade de cantar e com a missão de cantar para mostrar solidariedade ao movimento que vocês levam à frente. Mas, como vocês já sabem, manobras legais foram feitas para que o show não pudesse acontecer”, afirmou o cantor em cima do palco onde se apresentaria. “Nós estamos aqui, estamos juntos.” O cantor subiu ao palco sob queima de fogos e aplausos.
O pedido para impedir o show foi feito pelo Ministério Público Estadual em São Bernardo. “É local que não possui estrutura a suportar show, mormente para artistas da envergadura de Caetano Veloso, um dos requeridos nesta ação”, diz a decisão.
“Seu brilhantismo (de Caetano) atrairá muitas pessoas para o local, o que certamente colocaria em risco estas mesmas, porque, como ressaltado, não há estrutura para shows, ainda mais, de artista tão querido pelo público, por interpretar canções lindíssimas, com voz inigualável”, escreveu a magistrada.
“A decisão se baseia inclusive na ideia de que o lugar é fechado o que mostra que as pessoas que tomaram a decisão sequer tiveram a preocupação de olhar o lugar. Não é um lugar fechado, como todos que passam por aqui percebem”, afirmou o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que antecipou à imprensa a decisão de Caetano de respeitar a decisão judicial. “É muito estranho ver instituições tão importantes, como o Tribunal de Justiça, o Ministério Público – e a gente não pode generalizar – se empenharem tanto para impedir um ato musical, um ato artístico de solidariedade a movimento social.”
Durante a tarde desta segunda, antes de haver a confirmação do show, ativistas e artistas vinham se queixando da ação da Guarda Civil Municipal de São Bernardo, que teria impedido a entrada de equipamentos de som no terreno ocupado. Paula Lavigne, empresária de Caetano, postou em sua conta no Twitter que havia se dirigido à prefeitura de São Bernando para tentar uma audiência com o prefeito da cidade, Orlando Morando (PSDB).
A ocupação, em um terreno de construtora MZM, é de uma área de 70 mil m², ocorreu há dois meses. Segundo o movimento, o lugar está ocupado por 7 mil famílias.
Moradores e apoiadores da Ocupação Povo Sem Medo, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, iniciaram uma marcha em direção à zona sul de São Paulo por volta das 7 horas da manhã desta terça-feira, 31. O grupo anuncia que vai caminhar 23 quilômetros em direção ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado, no bairro do Morumbi. O protesto partiu do entorno da Rodovia Anchieta e a previsão é chegar ao destino no início da tarde. Cerca de sete mil famílias, que vivem no local desde o início de setembro, temem o despejo já autorizado pela Justiça.
De acordo com o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Guilherme Boulos, cerca de 5 mil militantes partiram do terreno. “É uma forma de cobrar do governo a desapropriação desse terreno e o cumprimento de políticas habitacionais”, declarou à reportagem. “A gente só sai do Palácio hoje com resposta”, disse no palanque antes da partida.
Para as 13 horas, está marcado um encontro com apoiadores na estação Morumbi da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), no qual Boulos calcula que devem se juntar mais 10 mil pessoas de outras ocupações da capital e Região Metropolitana.
A marcha já estava prevista antes de a Justiça proibir o show do cantor Caetano Veloso que aconteceria dentro da ocupação nesta segunda-feira, 30. O cancelamento da apresentação, sob o argumento da falta de estrutura e segurança, gerou uma manifestação prévia durante a noite. Em um palco de madeira, participaram do ato apoiadores como o cantor Criolo, as atrizes Sônia Braga, Alinne Moraes, Letícia Sabatella, Marina Person e a empresária de Caetano, Paula Lavigne, além do próprio músico.
Presente desde a noite anterior, o vereador da capital Eduardo Suplicy (PT) dormiu em um dos barracos no terreno. “O Guilherme (Boulos) me convidou para passar uma noite aqui há cerca de um mês. Achamos que essa seria a data ideal, por ser depois do show. Foi um gesto de apoio”, comentou ao Estado. “Foi uma noite curta. Ouvi os foguetes por volta das 5 horas, mas dormi mais uma meia hora”, disse o vereador, que, como em outras ocasiões, cantou um trecho de “Blowin’ in the wind”, de Bob Dylan.
MILITÂNCIA POR MORADIA
O ato saiu de um terreno de 70 mil metros quadrados que pertence a uma construtora e, segundo o MTST, está ocioso há cerca de 40 anos. Para levantar o número de participantes, a entidade distribuiu fichas que devem ser devolvidas no fim da caminhada.
Dentre os militantes, estava a costureira Lucicleide Campos Duarte, de 48 anos, que mora na ocupação com o marido, desempregado, a filha de 10 anos e duas irmãs. É dela a única fonte de renda da família, de R$ 1.500, utilizada também para bancar os remédios do filho de 19 anos, portador de epilepsia. “Sou de Diadema, mas agora eu vou ser de São Bernardo, eu tenho fé”, comentou.
Com uma placa de isopor e arame escrita “Eu não aguento mais pagar aluguel”, estava o segurança Adilson Teles, de 48 anos, baiano de Poções, há 19 anos em São Paulo. “Eu vim para ajudar a minha cunhada, trazer as crianças dela, mas acabei ficando. Foi o destino. Quando a gente está lá fora, a gente tem uma visão diferente de São Paulo, que aqui é mais fácil de conseguir as coisas”, disse.
O segurança afirma que vai continuar no movimento até conseguir uma casa. “Vinte quilômetros vai ser para mim como se eu tivesse andado um quilômetro, porque sem sacrifício a gente não consegue as coisas. A vontade e a necessidade que eu tenho é tão grande que essa caminhada se torna pequena”.
Já a metalúrgica desempregada Jaqueline Severina da Silva, de 27 anos, vai participar da caminhada mesmo grávida de oito meses de Emanuelly Sophia. “Ela vai nascer de parto normal de tanto eu andar na ocupação”, afirma ela, que pretende passar parte do trajeto nos dois ônibus disponibilizados pelo movimento para quem precisar descansar.
Também no ato, Isac de Oliveira Messias completa cinco anos nesta terça-feira. “Não tenho ideia de como vai ser essa caminhada, se vai ser cansativa, mas a gente precisa, mora de favor”, diz Maria José de Oliveira da Silva, de 42 anos.