Antônio Ermírio de Moraes ganha biografia às vésperas de completar 85 anos
Escrita por José Pastore – amigo do empresário há 35 anos –, biografia fala da trajetória, das ideias e dos pensamentos de um dos maiores homens de negócios que o Brasil já teve.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 24/05/2013
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
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Protagonista de grandes acontecimentos da história recente do país, Antônio Ermírio de Moraes é um dos mais importantes homens de negócios do Brasil. À frente do Grupo Votorantim, destacou-se nos cenários econômico, político, social e artístico e levou uma vida dedicada ao trabalho, com valores raros como honestidade e humildade, que sempre estarão associados ao seu caráter. Sua trajetória – desde a infância até o seu envolvimento com a política e com as artes no Brasil – está no livro Antônio Ermírio de Moraes – Memórias de um diário confidencial (Planeta, 360 págs., R$ 39,90), escrito por José Pastore, seu melhor amigo há 35 anos, com prefácio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
O livro é recheado de revelações inéditas e histórias saborosas, sem jamais deixar de lado a personalidade forte e as opiniões incisivas de Ermírio. A proximidade entre biógrafo e biografado garante ao livro um tom confessional. No relato, Pastore aborda o que sabe sobre a personalidade de Antônio, sua atuação como empresário e como homem público, sem se esquecer da sua militância no campo social e a incursão no teatro.
Autor de frases como “quem não confia no Brasil deve ir para o exterior com passagem só de ida” e “no Brasil, tudo é tido como prioritário, desde o jogo do bicho até a bomba atômica. Não pode dar certo”, Antônio Ermírio foi um incansável patriota que acreditava no Brasil na mesma medida que queria dar jeito no que via de errado. Foi assim que entrou e teve uma passagem meteórica pela vida político-partidária, em 1986, quando saiu candidato ao Governo do Estado de São Paulo, mas acabou perdendo para Orestes Quércia (embora por muito tempo tenha se conservado no primeiro lugar das pesquisas para intenções de voto).
Fernando Henrique Cardoso define Antônio Ermírio como o tipo ideal de empresário nacional. “Não no sentido menor, de quem defende interesses pessoais, mas no sentido de quem efetivamente acredita que o país necessita de pessoas que acumulam para investir e não para consumir e que arriscam ao inovar para expandir a riqueza”, diz, no prefácio.
A SIMPLICIDADE
O jeito despojado de se vestir, nada condizente com a sua riqueza, garantiu a Ermírio o recorrente título de homem mais mal vestido do Brasil. Pastore defende que isso demonstra o caráter e a simplicidade do empresário. “Antônio Ermírio de Moraes é um dos homens mais ricos do país e, ao mesmo tempo, o dono da mais genuína simplicidade. Seu modo de vestir sempre refletiu fielmente seu jeito de ser: despojado, simples, modesto e sem afetação “, explica.
A educação de seus nove filhos foi pelo mesmo caminho. Tinha horror à ideia de que crescessem e se acostumassem ao luxo e à vida mansa e sempre dizia: “o melhor que posso deixar para eles é educação e o apego ao trabalho. Ganhar sem trabalhar pode ser bom para o bolso, mas é péssimo para o caráter”.
PROJETOS SOCIAIS
Outra marca essencial de Antônio Ermírio foi a sua dedicação às obras sociais. Na maioria das vezes, fazia esse trabalho no mais completo anonimato. Acredita que os empresários, além de pagar seus impostos, têm a responsabilidade de ajudar na melhoria das condições de educação, saúde e bem-estar da população.
Ao longo da vida, apoiou uma infinidade de projetos nos quais acreditava, mas o seu maior xodó sempre foi a Beneficência Portuguesa, o maior hospital privado da América Latina, com quase dois mil leitos, mais de três mil funcionários e por onde circulam mais de cinco mil pessoas por dia, dois terços delas atendidas pelo SUS – Sistema Único de Saúde.
À Beneficência dedicou boa parte do seu tempo e a administrava com o mesmo profissionalismo que dedicava às 96 empresas do Grupo Votorantim. Na sua memória prodigiosa, sabia de cor os números do hospital: quantos pacientes estavam internados, quantas cirurgias eram feitas.
SAÚDE
Desde 1998, Antônio Ermírio enfrenta problemas de saúde. Naquele ano, passou a sentir um cansaço pouco usual à figura acostumada a trabalhar mais de doze horas por dia, sem se importar se era ou não final de semana. O coração dava sinais de cansaço e a fraqueza o obrigou a implantar um marca-passo. Em 2004, passou por um problema ainda mais grave: mesmo com a saúde fragilizada por uma pneumonia, teve que ser submetido a uma cirurgia para retirar um tumor no intestino. A recuperação foi complicada, com recorrentes crises de hipertensão. “Os médicos temiam um derrame cerebral. A preocupação tinha fundamento. Sim, porque, depois daquele episódio, Antônio mudou. Passei a ver nele nítidos sinais de cansaço, e ele até mesmo passou a se deitar durante o expediente – coisa inédita”, relembra Pastore.
Em 2006, os médicos suspeitaram de uma combinação de hidrocefalia (excesso de líquido na caixa craniana) e mal de Alzheimer. “Foi um destino cruel. Duas doenças se irmanaram para aniquilar o dinamismo e a criatividade de um homem inteligente permanentemente animado e que sempre pediu a Deus para que o mantivesse trabalhando até os últimos dias de sua vida. Deus quis diferente”, lamenta Pastore.
Teatro
Antônio Ermírio sempre foi um amante do teatro. Não perdia um único espetáculo do antigo TBC e sempre dizia: “o Brasil tem tantos problemas que bons assuntos para o teatro não faltam. Dá para fazer várias peças”. E ele fez três: Brasil S/A (1995), SOS Brasil (1999) e Acorda Brasil! (2002). Apesar disso, não se considerava dramaturgo. Certa vez, o jornalista Matinas Suzuki perguntou se Antônio era dramaturgo e ele, bem humorado, respondeu: “Eu sou engenheiro. Você sabe que a luz caminha a 300 mil km/s e uma hora são 3.600 segundos e um ano tem 8.670 horas? Se você multiplicar tudo isso, você tem um ano-luz, que são nove trilhões de quilômetros. Há pelo menos uns seis anos-luz, uns 54 trilhões de quilômetros, entre a dramaturgia e o Antônio Ermírio. Não tenho a menor pretensão nesse campo”.
De acordo com Pastore, o teatro mudou a vida do amigo. “De executivo fechado e carrancudo, transformou-se num sujeito alegre, aberto a brincadeiras e extremamente tolerante. Uma mudança radical”, conta. Envolvidos nas produções de suas peças estavam grandes nomes do teatro brasileiro, como Irene Ravache, Marcos Caruso, Rogério Froes e Jussara Freire.
TRECHOS DO LIVRO
“Antônio Ermírio cobra do empreendedor devoção, desprendimento, coragem e ação social. Não por acaso, ele se tornou um pregador.” (Fernando Henrique Cardoso)
“Antônio é um homem comprometido com o progresso do Brasil até último fio de cabelo. Para tanto, trabalhou de forma alucinada.” (José Pastore)
“Ele sempre viu o Brasil como uma grande fábrica que precisava ser alavancada de forma pragmática. Esse era seu plano, e assim o realizou” (José Pastore)
SOBRE O AUTOR
José Pastore é doutor Honoris Causa em ciência e Ph.D. em sociologia pela University of Wisconsin (EUA). Na década de 1970, atuou como diretor acadêmico da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) e foi chefe da Assessoria Técnica do Ministério do Trabalho. Hoje, é professor titular aposentado da Faculdade de Economia e Administração e docente ativo da Fundação Instituto de Administração, ambas da Universidade de São Paulo, além de profissional de referência na área de relações do trabalho e recursos humanos. É membro da Academia Paulista de Letras.