CFM proíbe anestesia em estúdios e reacende debate entre tatuadores e médicos

Decisão do Conselho Federal de Medicina veta sedação e anestesia em tatuagens feitas fora de ambientes hospitalares

Crédito: Divulgação

O Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou uma resolução proibindo a aplicação de qualquer tipo de anestesia, seja geral, local ou sedativa, para procedimentos estéticos, como tatuagens, quando realizados fora de ambiente hospitalar e sem a supervisão de médicos. A norma busca preservar a segurança dos clientes e evitar a prática ilegal de atos médicos.

De acordo com o CFM, “a aplicação de medicamentos anestésicos, seja de forma injetável, tópica ou por sedação, é um ato privativo de médicos”, o que torna irregular sua utilização por tatuadores ou outros profissionais não médicos em estúdios convencionais.

Comunidade de tatuadores apoia a medida e defende preservação da prática tradicional

A decisão foi recebida com compreensão e apoio por parte de entidades representativas da tatuagem. Esther Gawendo, presidente da Associação Nacional de Tatuadores – Tattoo do Bem, reforçou que a prática não é comum e que o setor já discutia o tema internamente. “A gente acata a decisão pensando na maior parte da nossa comunidade e entende que ela protege o cliente. Já havia um debate sobre isso na nossa comunidade desde o início do ano, e a grande maioria [mais de 90%] não faz uso desse tipo de anestesia”, afirmou.

Ela também destacou que “a dor protege o cliente, porque permite que ele se manifeste quando algo está incomodando”. Segundo a associação, nem mesmo a anestesia local é recomendada, ainda que pomadas anestésicas sejam utilizadas com mais frequência.

Uso de pomadas anestésicas é comum, mas exige cautela

As pomadas anestésicas, por serem de uso tópico, continuam sendo utilizadas em estúdios de tatuagem, ainda que sua aplicação também exija atenção e conhecimento técnico. Elas podem ajudar a reduzir a dor durante o procedimento, mas seu uso excessivo pode causar efeitos colaterais.

Médicos alertam que, mesmo sendo menos invasivas, essas substâncias são anestésicos locais e podem levar à intoxicação se aplicadas em grandes quantidades ou de forma inadequada.

O Dr. Romulo, anestesista da Azoto Tattoo, reforça esse ponto: “Se você usar essa pomada anestésica de forma exorbitante, tem o risco da intoxicação.” Ainda assim, muitos clientes optam por esse tipo de produto, inclusive adquirindo-o por conta própria, sem prescrição.

Um morador de São Caetano do Sul, que preferiu não se identificar, relatou que utiliza pomadas anestésicas adquiridas pela internet para conseguir realizar sessões longas de tatuagem. “Eu não suporto sentir dor, a pomada não faz mal e tenho usado. Dessa forma, consigo terminar uma tatuagem grande em uma única sessão”, contou. Segundo ele, o produto foi comprado na Shopee e é aplicado antes do início da sessão, sem supervisão médica.

Esse tipo de relato preocupa especialistas, que alertam para o risco do uso indiscriminado e sem orientação de substâncias anestésicas, mesmo as de uso tópico.

Tatuadores experientes também criticam anestesia

1ª Tattoo Week On-line democratiza concurso de tatuagem
Divulgação/Tattoo Week

Para o tatuador Rogério Rocha, que atua no ABC Paulista desde 2004, a medida do CFM já era esperada. “Sim, concordo completamente. Na verdade, até demorou!”, declarou.

Ele nunca utilizou o método de anestesia para tatuar e é contra sua adoção. “Não aceitaria de forma alguma. Não usaria porque, além do perigo que a anestesia tem… Isso sem falar que tattoo é uma espécie de ritual! É demorado e doloroso, você tem que estar muito afim de fazer pra merecer ela.”

Rogério também afirmou que usa pomadas anestésicas e nunca teve problemas. “Pomadas sim. Nunca tive problemas! Nem na aplicação e nem na cicatrização da tatuagem.”

Crítico do que chama de “interferência de pessoas que são tudo menos tatuadores”, ele acredita que empresários e influenciadores têm prejudicado o setor. “São empresários, influencers, mas muitos nem sequer fizeram um desenho na vida! São verdadeiros atravessadores que viram na tattoo uma forma de explorar e ganhar dinheiro”, desabafa.

Médicos defendem uso seguro em ambiente cirúrgico

Médicos da Azoto Tattoo, empresa que oferece o serviço de tatuagem com anestesia em São Paulo, defendem que o procedimento pode ser realizado com segurança, desde que sob os devidos protocolos médicos. “Quando a gente vai realizar um procedimento de anestesia para tatuagem, primeiramente, precisa existir uma avaliação pré-anestésica individualizada”, explicou o Dr. Fernando, anestesista e idealizador do projeto.

Segundo ele, exames laboratoriais e eletrocardiogramas são exigidos antes do procedimento. “Todo o procedimento nosso é realizado dentro de um centro cirúrgico com total capacidade”, reforçou. Já o Dr. Romulo, também anestesista da equipe, lembra que, nesses casos, o paciente dorme durante toda a sessão.

Categoria pede valorização da arte

Tatuadores experientes como Rogério Rocha também chamam atenção para a importância da escolha do profissional. “A dica que dou é procurar bem o profissional pra realizar o trabalho! Pois hoje tem muita gente que entrou na tattoo visando várias coisas, menos evoluir seu trabalho. Então, o que temos hoje em dia é uma baixa qualidade… devido ao tanto de tatuadores que não estão comprometidos com a arte.”

A nova regulamentação do CFM sobre anestesia, além de estabelecer limites legais claros, reforça a valorização da tatuagem como prática tradicional e artística, reconhecendo os riscos envolvidos na tentativa de medicalizar um processo que, para muitos, tem um valor simbólico e cultural profundo.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 31/07/2025
  • Fonte: Multiplan MorumbiShopping