Andreense alertou Moraes em 2021 sobre plano Punhal Verde e Amarelo
Denúncia de morador de Santo André sobre ameaça ao ministro Alexandre de Moraes foi arquivada pelo MPF um ano antes de ação dos Kids Pretos
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 15/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: MIS Experience
Em setembro de 2021, mais de um ano antes da concepção do plano “Punhal Verde e Amarelo“, que visava assassinar o ministro Alexandre de Moraes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente Geraldo Alckmin, um cidadão de Santo André (SP), o supervisor de segurança privada Hélio Ferraz Falcochio, tentou alertar as autoridades sobre a grave ameaça. A denúncia, no entanto, foi arquivada pelo Ministério Público Federal (MPF), que considerou não haver “condição de procedibilidade“.
No dia 4 de setembro de 2021, Hélio registrou uma manifestação na Sala de Atendimento ao Cidadão do MPF, em São Bernardo do Campo. Ele notificava uma “possível ameaça de vida” ao ministro Alexandre de Moraes, após identificar um comentário em um vídeo do YouTube com “termos de ameaça específicos e precisos“. Dispôs-se a abrir mão do sigilo de seu nome e dados pessoais, solicitando a devida apuração.

(Reprodução/Google Street View)
A motivação de Hélio, conforme ele mesmo relata, era fundamentalmente evitar um mal maior. “A minha principal motivação foi proteger a vida“, afirmou. Por trabalhar no mercado privado de inteligência militar, Falcochio circulava entre as mais variadas patentes do serviço militar. Em um encontro ocorrido ainda em 2021 em Goiânia, o morador de Santo André relata ter testemunhado integrantes dos “Kids Pretos”, a linha de elite do exército, comentando abertamente a possibilidade de um plano de assassinato do ministro.
Contrariando a urgência dessa denúncia, em 18 de setembro de 2021, o procurador da República Ricardo Luiz Loreto, do MPF em São Bernardo do Campo, indeferiu a instauração de uma Notícia de Fato e determinou o arquivamento da manifestação de Hélio Ferraz Falcochio. A justificativa era que o crime de ameaça exige representação da vítima, ou seja, o próprio Ministro Alexandre de Moraes deveria ter formalizado a queixa para que a investigação prosseguisse. Para Hélio, o arquivamento dessa denúncia em 2021 pelo MPF “ignorou totalmente o perigo“.
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O próprio Alexandre de Moraes foi avisado
Inconformado com o arquivamento, Hélio não desistiu. Em 23 de setembro de 2021, apenas cinco dias após o despacho do MPF, ele enviou um e-mail diretamente para o gabinete do Ministro Alexandre de Moraes. No e-mail, informou sobre a denúncia arquivada pelo MPF.

(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
Na sequência, ele relata ter contatado o Supremo Tribunal Federal por telefone, conversado com a secretária pessoal do ministro e enviado uma carta com provas e documentos ao gabinete de Moraes. Além disso, estendeu seus alertas à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Embaixada Americana no Brasil.
Persistente, o denunciante declarou: “Quando você está fazendo o certo, pouco importa o que as pessoas falam. E você vai até o fim.” Falcochio acreditava que suas ações permitiram que o STF realizasse investigações “bem antes de tudo ter começado, de forma mais direta“.
A revelação do plano “Punhal Verde e Amarelo”
Os eventos que se seguiram dariam uma dimensão aterradora à premonição de Hélio. Em novembro de 2022, o general Mário Fernandes, ex-secretário executivo da Secretaria-Geral da Presidência, idealizou o plano “Punhal Verde e Amarelo”. O documento detalhava planos de assassinar as principais autoridades brasileiras tidas como rivais do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.

(Foto: Reprodução)
As investigações da Polícia Federal (PF) revelaram que o plano, que previa o uso de arsenal de guerra como pistolas, fuzis, metralhadoras e lança-granadas, também incluía o monitoramento constante do Ministro Alexandre de Moraes. A data planejada para os assassinatos era 15 de dezembro de 2022, apenas três dias após a diplomação de Lula no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Foi somente em novembro de 2024 que a Polícia Federal deflagrou uma operação, revelando publicamente a existência do plano “Punhal Verde e Amarelo”.
Em julho de 2025, o general Mário Fernandes admitiu em interrogatório no STF ter idealizado o plano, descrevendo-o como um “pensamento digitalizado” e “estudo de situação”. Em setembro de 2025, com o início do julgamento do núcleo crucial da trama golpista, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, citou o plano “Punhal Verde e Amarelo”, enfatizando que as provas demonstraram o início de sua execução, com o monitoramento e perseguição do Ministro Alexandre de Moraes.
A cronologia dos fatos, portanto, expõe um lapso significativo: a denúncia precoce de Hélio Falcochio a Moraes em 2021, que alertava para uma ameaça específica à vida do Ministro Moraes, foi arquivada um ano antes do plano de assassinato ser elaborado e anos antes de sua revelação pública.
Religioso, Hélio Falcochio se reconhece como uma pessoa conservadora, defensor de princípios patrióticos e valoriza a defesa da família, porém sua percepção sobre a movimentação da extrema-direita e o interesse de setores militares em saber sobre o paradeiro do ministro formaram a motivação necessária para que seguisse com a denúncia.
A reportagem do ABCdoABC questionou o MPF sobre a negativa a respeito da denúncia original protocolada pelo cidadão andreense. Em resposta, por meio de sua assessoria, o MPF reforçou que a denúncia de Hélio “baseou-se em um comentário que o denunciante teria lido em postagens vinculadas a um vídeo disponibilizado no YouTube. Os fundamentos do arquivamento estão descritos no despacho ao qual você já teve acesso. Em virtude dessa conclusão pelo arquivamento, não houve comunicação do fato a outras instituições“.
A reportagem do ABCdoABC recebeu com exclusividade cópia dos documentos que comprovam a história contada pelo morador de Santo André. Veja alguns documentos: