Análise sobre o acordo entre Mercosul e União Europeia
Eduardo Galvão, professor de Relações Internacionais do Ibmec Brasília analisa a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia
- Publicado: 03/02/2026
- Alterado: 12/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Michel Teló
O recente avanço do acordo entre o Mercosul e a União Europeia não pode ser lido como um simples desfecho técnico de uma negociação longa. Ele acontece em um momento em que o comércio internacional voltou a ser atravessado por geopolítica, segurança e estratégia. A União Europeia, pressionada por um ambiente global mais instável, passou a olhar o Mercosul menos como um parceiro periférico e mais como uma alternativa concreta para diversificar cadeias produtivas, reduzir dependências externas e ampliar sua margem de manobra econômica.
O aval político dado por uma maioria dos países europeus nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026 sinaliza uma mudança relevante de clima. O acordo ainda não entrou em vigor e seguirá um caminho complexo de ratificações, mas o fato de resistências históricas terem sido superadas indica que, para muitos governos europeus, o custo de não avançar passou a ser maior do que o custo político de seguir adiante. Isso não elimina conflitos, mas mostra que o tratado ganhou status estratégico dentro da União Europeia.
Os obstáculos, no entanto, continuam claros. A agenda ambiental segue como o principal ponto de tensão, especialmente no que diz respeito ao desmatamento e às políticas de sustentabilidade no Brasil. Ao mesmo tempo, setores agropecuários europeus permanecem mobilizados contra o acordo, temendo maior concorrência de produtos sul-americanos. Os protestos recentes mostram que o debate está longe de ser apenas técnico e envolve disputas eleitorais e narrativas internas sensíveis em vários países do bloco europeu.
Para o Brasil, o acordo vai muito além da redução de tarifas. Ele representa acesso preferencial a um dos mercados mais sofisticados do mundo, maior previsibilidade para investimentos e a possibilidade de integração a cadeias globais de maior valor agregado. Ao mesmo tempo, impõe desafios, pois pressiona o país a demonstrar coerência entre discurso ambiental, políticas públicas e práticas regulatórias, algo que tende a moldar a relação com a Europa nos próximos anos.
No fim das contas, o acordo Mercosul–União Europeia virou um termômetro do comércio internacional do século XXI. Ele mostra que tratados comerciais hoje dependem menos de planilhas e mais de política, confiança institucional e capacidade de gerir tensões internas. O acordo está mais perto do que esteve em muito tempo, mas seu sucesso não será automático. Ele dependerá da habilidade dos governos de transformar convergência estratégica em implementação concreta, reduzindo ruídos e evitando que disputas domésticas inviabilizem uma oportunidade construída ao longo de décadas.