Análise das propostas de EDUCAÇÃO - Candidatos à Presidência – 2018

A pedagoga Janaína Spolidoro elaborou um rico texto no qual, após analisar as propostas dos principais candidatos à presidência, separou-as de duas formas: Viável ou Utópico/Opinativo

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Recentemente, me propus um desafio diferente, algo novo para mim. Difícil, na verdade. Antes de começar, devo dizer que, pessoalmente, não tenho propensão à política, embora esteja em uma área (da Educação), que por si só carrega a política consigo.

Raramente acompanho notícias e de política menos ainda. Algo, contudo, que posso dizer que entendo, é a área de Educação. Já trabalhei tanto na parte pública quanto privada, em cargos variados. Conheço bem o ponto de vista e necessidades de cada um deles.

Meu grande desafio era analisar as propostas dos candidatos à presidência, no que diz respeito à educação, da maneira mais neutra que eu conseguisse.

Para conseguir, pedi que uma outra pessoa colocasse em etiquetas as propostas, sem os nomes dos candidatos, e comecei a organizá-las em duas categorias. Viável e utópico ou opinativo. Foram considerados apenas 5 candidatos e eu não sabia quais seriam.

Depois de separadas as categorias, me foram revelados os candidatos e exatamente como dividi, elaborei um infográfico. As cores centrais das propostas se referem aos candidatos, à esquerda. Note que o círculo de borda das fotos revelam esta associação às propostas (como se fosse uma legenda de cores).

Até agora, tudo lindo! Mas minha tarefa mesmo, neste artigo, começa a partir daqui que é a explicação de cada categoria, fundamentando os motivos de minhas escolhas.

VIÁVEL:

Nesta categoria, nem todas as propostas são 100% viáveis, mas elas possuem um fundo de crédito, do ponto de vista da educação. Algumas delas, como o investimento na formação e qualificação dos professores (Geraldo Alckmin) e alfabetizar crianças até 7 anos (Marina Silva) são promessas recorrentes, que aparecem vez ou outra nas eleições e sabemos que dificilmente o resultado será total, mas é necessário ter ações neste sentido sempre. Na verdade, seriam mais no sentido de serem objetivos a serem traçados para uma lenta melhoria na educação do que ser viável.

Uma das propostas nesta categoria fiquei em dúvida, mas mantive, mais pelo objetivo, porém a proposta de Alckmin de zerar a fila de crianças entre 4 e 5 anos na escola e ampliar vagas nas creches deveria ser vista como um objetivo, como as mencionadas acima, a longo prazo, porém mexe um pouco com a categoria de utópico ou opinativo, que explicarei mais à frente. Mantive então a proposta nas duas categorias (não foi um erro ela se repetir ali!)

O fortalecimento do ensino técnico e tecnológico (Alckmin) tem sentido e pode ser algo positivo ao país, ainda mais com a dificuldade econômica que temos visto todos os dias. Se a proposta for bem estruturada, realmente valeria a pena investir na ideia. A expansão do Ensino Superior, técnico e profissional (Alckmin) e o fortalecimento da CNpQ e instituições de pesquisa, estimulando ainda um avanço em parceria com empresas e universidades (Ciro Gomes) também fazem muito sentido desta mesma forma.

Já a defesa de uma escola laica (Marina Silva), na verdade, antigamente era muito difícil os educadores colocarem pontos de vista político dentro da escola. Atualmente, com a abertura de informação que temos, tem ficado cada vez mais difícil ter esta neutralidade e ela é muito necessária, pois não devemos nos intrometer em valores pessoais da população, enquanto estamos no papel de ensinar a aprender. Quando a criança aprende, ela mesma pode desenvolver suas opiniões, pois terá os instrumentos necessários para ter uma visão mais clara de assuntos polêmicos como política e religião. Considerei viável porque a escola tem perdido esta neutralidade e se faz necessário dar ao cidadão a possibilidade de ter sua própria opinião e respeitar a dos demais.

UTÓPICO ou OPINATIVO:
Fiquei muito na dúvida ao eleger este nome de categoria. Quando fiz a separação das propostas, considerei que elas mexem com algo muitíssimo poderoso, que é a esperança das pessoas, portanto considerei utópicas, pois uma parte delas, já que é preciso que passem por um processo no Congresso, têm a possibilidade de não serem aprovadas. Além disso, todas as propostas que estão aqui apelam para a opinião das pessoas, por isso opinativo.

São propostas que considero de alta periculosidade, porque apelam para o emocional das pessoas, trazem à tona um certo egoísmo, pois em lugar de considerar a educação como um todo, consideram condições específicas de grupos e são usadas na política desde sempre para manipular votos.

A primeira proposta é interessante. Fiz uma pesquisa – que até confesso, deveria ser mais aprofundada e descobri, por exemplo, que de 2003 até 2015 o Brasil teve sim um crescimento significativo no PISA, teste internacional que mede a excelência de aprendizagem em algumas áreas. Durante esses 12 anos que mencionei, tivemos, em matemática, um crescimento de 34 pontos no ranking. A proposta menciona 50 pontos em 8 anos (Alckmin).

Se eu não conhecesse a situação real da educação no país, ficaria encantada com a proposta e até a colocaria no viável, por ser talvez um objetivo a se traçar. Esta seria eu, sendo manipulada a votar porque quero muito acreditar que seja possível – nota como mexe com a esperança, mas ao mesmo tempo é utópico?

Talvez eu a tivesse mudado de categoria se tivesse um número mais baixo ou até se eu tivesse visto a proposta mais detalhadamente, mas ao realizar esta análise, me limitei aos dados que recebi.

Propostas vinculadas à gênero e cotas (Bolsonaro/Ciro Gomes) não consideram a educação de forma ampla. Claro que são questões polêmicas (e exatamente por isso são usadas em eleições), e devem sim ser estudadas e mexidas de tempos em tempos, mas se queremos mudar a educação do país, precisamos considerar primeiro de forma ampla, o que favorece o todo e não as partes. Este tipo de proposta ganha votos de quem tem empatia pelo tema e traz maior visibilidade ao candidato, estando o eleitor a favor ou contra ele. Em uma análise racional, também mexe com o emocional e acaba manipulando votos. Teoricamente, deveríamos considerar as propostas de uma forma mais geral e descartar as de favorecimento, seja qual for este favorecimento.

A questão da creche, mencionei no viável o caso de Alckmin, mas acho que você deve estar se perguntando por que coloquei a proposta de Ciro Gomes aqui. Alckmin propõe a ampliação de vagas. Ok e possível, mexendo um pouco com interesses pessoais, mas também com a necessidade geral que acabei de mencionar. No caso de Ciro Gomes, bacana pensar no tempo integral das creches, mas achei que tem um Q que mexe demais com a esperança de milhares – ou talvez até milhões – de famílias esperançosas de conseguir uma vaga em tempo integral na creche.

O “remunerar bem os professores” (Marina Silva) dei até um sorrisinho quando li. Pensei na hora: “de novo?” Linda intenção e como professora me sinto lisonjeada quando mencionam que minha profissão deve ser melhor remunerada. Sejamos, contudo, práticos e racionais… esta proposta depende de uma série de fatores que estão longe de a tornarem mais concreta. Claro que há várias formas de até tornar viável, mas mexe muito com o emocional também, além de ser muito opinativo.

Eis que finalizo aqui minha análise. Gostaria de ressaltar que não entrei em detalhes das propostas – e pode até ser que as mudasse de categoria ao conhecer melhor. Além disso, foram usadas propostas generalizadas, tais como costumam aparecer na mídia, bem resumidas. Procurei do começo ao fim me manter neutra, pensando sempre na educação, de modo geral.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 10/09/2018
  • Fonte: FERVER