Alimentação não inflamatória e atividade física protegem saúde mental feminina, mostra estudo

Alimentação deve se aproximar das dietas praticadas por grupos culturais antes da introdução de alimentos industrializados e se afastar da caracterizada pelo consumo excessivo de ultraprocessados, grãos refinados e alimentos pré-embalados

Crédito: José Cruz - Agência Brasil

Um estudo conduzido pelo Grupo de Pesquisa em Avaliação do Consumo Alimentar (GAC) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP) investigou a correlação entre sedentarismo, dietas inflamatórias e a ocorrência de Transtornos Mentais Comuns (TMC), como depressão e ansiedade, em mulheres com mais de 40 anos.

A pesquisa utilizou um índice já estabelecido na literatura científica para medir o potencial inflamatório das dietas. Alimentos com alta concentração de gordura saturada, como carnes vermelhas, e carboidratos simples, provenientes de farinhas brancas e açúcares adicionados, foram classificados como inflamatórios. Em contrapartida, frutas, legumes e certos óleos vegetais são considerados alimentos com propriedades anti-inflamatórias.

Os resultados indicaram que as mulheres que apresentavam os maiores índices inflamatórios em suas dietas e baixos níveis de atividade física eram mais propensas a desenvolver transtornos mentais comuns. Além disso, foi observada uma associação entre esses transtornos e a presença simultânea de múltiplas doenças não transmissíveis, incluindo hipertensão, diabetes, artrite e artrose.

Dados do Estudo

Os dados foram coletados a partir do projeto ISA-Nutrição 2015, coordenado pela professora Regina Mara Fisberg e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Este estudo transversal envolveu uma colaboração entre a FSP, a Faculdade de Medicina da USP, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Instituto de Saúde do Estado de São Paulo. Os pesquisadores aplicaram questionários a residentes de áreas urbanas da cidade de São Paulo, conseguindo uma amostra representativa em termos de renda, etnia, idade e nível educacional.

A amostra foi composta por 467 mulheres acima dos 40 anos, onde o potencial inflamatório da dieta foi avaliado pelo Índice Inflamatório Dietético (IID) e o nível de atividade física por meio do Questionário Internacional de Atividade Física (Ipaq). A análise estatística levou em conta variáveis que poderiam influenciar os resultados, como doenças crônicas, faixa etária, anos de escolaridade, índice de massa corporal (IMC) e etnia.

Revisão Crítica Sobre Dietas

O IID utilizado no estudo foi desenvolvido por pesquisadores americanos e considera diversos aspectos nutricionais da dieta. Frutas, verduras e óleos ricos em ômega 3 são considerados benéficos ao organismo. Em contrapartida, alimentos ricos em gordura saturada e carboidratos simples são vistos como prejudiciais.

Valentini Neto também sugere que uma dieta anti-inflamatória deve se assemelhar às práticas alimentares tradicionais adotadas por culturas antes da industrialização dos alimentos, evitando assim os padrões ocidentalizados que favorecem produtos ultraprocessados.

Para ele, o foco não deve estar apenas na exclusão dos alimentos inflamatórios, mas na inclusão de opções benéficas que promovam um equilíbrio alimentar saudável. O IID abrange desde quantidades de ervas como orégano até mensurações detalhadas sobre compostos antioxidantes presentes nos vegetais.

Impacto do Sedentarismo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade física. Indivíduos que não atingem essa meta são classificados como sedentários. O estudo utilizou essa classificação para avaliar o nível de atividade das participantes com base no Ipaq.

Valentini Neto observou que mulheres que cumpriram as diretrizes da OMS apresentaram menor incidência de TMC. A prática regular de exercícios é identificada como um estímulo anti-inflamatório devido à sua capacidade de regular o sistema imunológico e aumentar o metabolismo antioxidante. Entretanto, ele ressalta que atividades físicas excessivas também podem induzir um estado inflamatório.

Menopausa e Efeitos do Envelhecimento

O pesquisador ressalta que os transtornos mentais tendem a ser mais prevalentes entre mulheres, especialmente na faixa etária relacionada à menopausa. Ele menciona que o envelhecimento pode levar ao desenvolvimento de uma inflamação sistêmica subclínica conhecida como “inflammaging” – uma combinação dos termos inglês “inflammation” (inflamação) e “aging” (envelhecimento). Pesquisadores estão examinando como esses fatores interagem mutuamente.

A conexão entre inflamação e saúde mental é um tema crescente nos estudos sobre o eixo intestino-cérebro, onde alterações na saúde intestinal estão relacionadas à neuroinflamação e à progressão neurológica. Portanto, os pesquisadores levantaram a hipótese de que tanto uma dieta pró-inflamatória quanto a falta de atividade física podem contribuir para o surgimento desses transtornos mentais comuns em mulheres acima dos 40 anos.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 25/01/2025
  • Fonte: FERVER