Alfabetizar é ensinar a ver o mundo
Gláucia Batista analisa o analfabetismo funcional atual em alunos brasileiros.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 14/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais. O dado, do INAF 2022, é alarmante, mas talvez mais grave do que o número seja o que ele revela: o Brasil ainda confunde o ato de decodificar palavras com o de compreender o mundo.
Saber ler não é apenas juntar letras. É compreender sentidos, interpretar contextos, enxergar o que está por trás de um texto, de uma imagem, de um gesto. O analfabetismo funcional é justamente a incapacidade de fazer essa ponte. A pessoa lê, mas não entende e, portanto, não se apropria do conhecimento, nem o transforma em ação. É como enxergar as palavras, mas não “ver” o que elas significam.
As causas desse problema são estruturais e emocionais. A desigualdade limita o acesso a livros e cultura; o tempo escasso das famílias restringe o convívio leitor; e a escola, muitas vezes pressionada por resultados rápidos, perde o espaço da leitura com calma, conversa e encantamento. A educadora Magda Soares já dizia que alfabetizar é formar sujeitos autônomos e isso requer tempo, escuta e intencionalidade.

O cenário se agravou após a pandemia, que interrompeu processos delicados da alfabetização. Hoje, metade dos estudantes de 15 anos não atinge o nível mínimo de proficiência em leitura, segundo o PISA 2022. São jovens que leem, mas não compreendem. E sem compreensão, não há pensamento crítico, nem cidadania plena.
A escola, nesse contexto, assume papel insubstituível. É nela que muitos têm o primeiro contato com livros, histórias e mediações sensíveis. Mas a leitura precisa ser vivida, não apenas avaliada. No Elite Rede de Ensino, por exemplo, nosso projeto de leitura se entrelaça com outras grandes experiências pedagógicas da escola, como a Vernissage e a Feira da Cultura.
É a partir do que os alunos leem, experimentam e produzem que os convidamos a interpretar, dramatizar e pintar suas próprias compreensões do mundo. Essa é a nossa leitura em movimento — viva, afetiva e transformadora, porque nasce da experiência e se realiza em expressão, sentido e criação.
O professor é o fio condutor desse processo. É ele quem semeia perguntas, provoca reflexões e ajuda o aluno a ir além do óbvio. Mas para que isso aconteça, precisa ser apoiado com formação, tempo e escuta. Não se formam leitores críticos sem professores leitores, inspirados e valorizados.
Também é fundamental que a escola dialogue com as famílias. Ler não é só tarefa da escola: é cultura, afeto, memória. Um livro lido junto pode valer mais do que qualquer lição. Afinal, como lembra Ruth Rocha em “O Menino que Aprendeu a Ver”, alfabetizar é ensinar a enxergar o mundo com profundidade, não apenas olhar para ele.
Superar o analfabetismo funcional é um compromisso coletivo. É preciso que escola, família e sociedade se unam para formar leitores que pensem, sintam e questionem. Porque um país que lê com crítica e sensibilidade é um país que se reconhece, se reinventa e se transforma.