Agosto Dourado: aleitamento materno na recuperação de prematuros

Além de alimentar, leite materno protege, nutre e promove o desenvolvimento neurológico,

Crédito: Freepik

“Amamentar a Maitê foi um processo desafiador, mas extremamente recompensador. Como ela nasceu prematura, não pude amamentá-la logo de início, mas me organizei para que ela pudesse tomar o meu leite. No começo, foi pela sonda; depois, na mamadeira. Com dedicação e paciência, conseguimos estabelecer o aleitamento materno exclusivo e realizei o sonho de amamentar”, recorda Talita Colucio Lüders, advogada e mãe de Maitê, hoje com sete meses.

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A coordenadora do serviço de neonatologia do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), Michelle Marchi de Medeiros, conta que a bebê nasceu prematura, com 31 semanas e pesando 1,6 kg. Segundo ela, a dedicação e resiliência da mãe foram decisivas para o ganho de peso e para que Maitê recebesse alta após 41 dias de internação.

“No hospital, estimulamos e orientamos as pacientes sobre o aleitamento materno durante e após a internação neonatal, especialmente em casos de UTI. Prematuros que recebem leite materno costumam apresentar melhor evolução clínica, estabilizam mais rapidamente as funções vitais e vão para casa mais cedo, o que também reduz os riscos associados à hospitalização”, explica.

De acordo com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Brasil, a taxa de aleitamento materno exclusivo em crianças menores de seis meses atingiu 45,8% em 2020, número ainda abaixo da meta recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 50% até 2025. Os dados acendem um alerta durante o “Agosto Dourado”, mês que carrega a cor escolhida por representar o padrão ouro de qualidade do leite materno. A mobilização reforça a importância de alcançar a meta do governo brasileiro, que é de 70% até 2030.

O leite materno não é apenas alimento: protege, nutre e promove o desenvolvimento neurológico, imunológico e emocional dos bebês, especialmente dos prematuros. “A amamentação exclusiva é essencial para todos os recém-nascidos, mas assume um papel ainda mais crítico para os prematuros, pois o leite da mãe é ajustado às suas necessidades, com maior teor de proteínas e calorias, e contém compostos bioativos ausentes nas fórmulas artificiais. Isso favorece o crescimento e reduz riscos nutricionais”, adiciona a médica.

Também é rico em anticorpos, fatores anti-inflamatórios e anti-infecciosos. Como os prematuros têm o sistema imune imaturo, o leite atua como um “sistema imunológico externo”, protegendo contra infecções graves. Ajuda a reduzir o risco de enterocolite necrosante, diminui a incidência de hemorragia intracraniana, infecções hospitalares e sepse, além de proteger contra a displasia broncopulmonar. “Prematuros alimentados com leite materno têm melhores escores em testes cognitivos e de QI na infância e adolescência, menor risco de atrasos no desenvolvimento motor e de linguagem e mais conexões neurais em áreas responsáveis pela memória e aprendizado”, destaca.

Para Talita, os benefícios do leite materno para a saúde da filha foram evidentes: “Mesmo sendo prematura, ela teve ótimo ganho de peso e nunca enfrentou problemas de saúde. Foi uma luta diária, com muita frustração e lágrimas, mas cada gota de leite tirada com esforço valeu a pena. O leite materno, de fato, é um presente”, emociona-se.

A médica acrescenta que o contato pele a pele promovido pela amamentação estimula a liberação de ocitocina, o hormônio do afeto, proporcionando sensação de segurança e conforto ao bebê. “Isso é vital para a organização emocional e afetiva do prematuro e contribui para o empoderamento materno, especialmente após uma internação prolongada”.

“Na amamentação, percebi a verdadeira força: além da nutrição, é acolhimento, conforto, segurança. A Maitê ficava mais tranquila, dormia melhor e o nosso vínculo se fortaleceu. Para mim, a maior vitória foi ver que, nos momentos de desconforto ou choro, o peito a acalmava como nada mais conseguiria”, complementa Talita.

Recomendação da OMS

O aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade é recomendado pela OMS e pelo Ministério da Saúde. A amamentação deve continuar, junto com a alimentação complementar, até os dois anos de idade ou mais. “O aleitamento materno, a longo prazo, promove inúmeros benefícios, como redução do risco de obesidade, diabetes tipo 1 e 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, além de melhorar a saúde mental, o comportamento e a inteligência da criança”, ressalta Michelle.

Julia Fazzio Ferreira, enfermeira e consultora de amamentação que acompanha de perto as mães na UTI Neonatal do Vera Cruz Hospital, reforça que o período de internação é também um momento de aprendizado conjunto. “Ter um bebê na UTI torna o maternar diferente, pois as mães precisam se despedir dos filhos diariamente e não podem estar com eles 24h. É um misto de sentimentos, e nosso papel é ajudar essas mães a compreenderem e lidar com isso”, relata.

Ela também pontua que vários fatores impactam na manutenção do aleitamento materno, entre eles o retorno ao trabalho. “Para aquelas que conseguem conciliar essa rotina, a melhor estratégia é iniciar a ordenha precoce, cerca de um mês antes do retorno ao trabalho, para formar um estoque de leite. É importante planejar uma rotina viável de ordenha e, muitas vezes, contar com o apoio de consultoras e pediatras para orientar o armazenamento e os horários”.

A duração da licença-maternidade também influencia diretamente nos índices de aleitamento. “Quando a licença é curta, a mãe não tem tempo suficiente para estabelecer uma amamentação sólida, recuperar-se plenamente do parto ou criar um vínculo seguro com o bebê. Isso gera ansiedade, culpa e afeta a prática da amamentação”, alerta.

Ambiente, rotina e rede de apoio são determinantes para o sucesso do aleitamento materno. “Muitas mulheres interrompem a amamentação ao retornar ao trabalho, realidade que precisa ser transformada com políticas públicas e sistemas de apoio sustentáveis”, conclui a enfermeira.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 11/08/2025
  • Fonte: Sorria!,