Afastamentos por saúde mental batem recorde e afetam 2 mil cargos
Dados inéditos revelam que mais de 500 mil brasileiros deixaram seus postos em 2025 devido a transtornos psíquicos. Veja se sua área foi afetada.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 01/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Afastamentos por saúde mental atingiram um patamar histórico em 2025, superando a marca de meio milhão de benefícios concedidos pelo INSS. Dados exclusivos do Ministério da Previdência Social indicam que este é o segundo ano consecutivo de recorde, consolidando o período como o pior da década para o bem-estar psíquico dos trabalhadores brasileiros.
O cenário é alarmante e atinge transversalmente o mercado. Um levantamento conduzido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) mapeou mais de duas mil ocupações com incidência de licenças médicas psiquiátricas entre 2012 e 2024. No topo dessa lista crítica estão funções essenciais para a rotina urbana, como vendedores, faxineiros e auxiliares administrativos.
A análise revela que a crise não é apenas médica, mas estrutural. Profissionais que lidam diretamente com o público, possuem baixa autonomia e enfrentam pressão constante por metas compõem a maior fatia das estatísticas. O volume de afastamentos por saúde mental cresceu 15% apenas no último ano, totalizando 546.254 concessões.
Ranking revela profissões vulneráveis a afastamentos por saúde mental
A plataforma SmartLab, que cruza dados governamentais, identificou as ocupações que mais geraram licenças, considerando tanto doenças ocupacionais quanto transtornos comuns. A liderança do ranking é ocupada pelo varejo, setor conhecido pela alta rotatividade e pressão por resultados.
Confira as 20 profissões com maior número absoluto de licenças:
- Vendedor de comércio varejista: 71.735
- Faxineiro: 58.790
- Auxiliar de escritório: 55.224
- Assistente administrativo: 51.446
- Alimentador de linha de produção: 49.410
- Técnico de enfermagem: 48.160
- Operador de caixa: 45.843
- Operador de telemarketing (ativo/receptivo): 40.430
- Vigilante: 31.197
- Motorista de ônibus urbano: 29.443
- Motorista de caminhão: 26.610
- Servente de obras: 25.040
- Trabalhador de limpeza urbana: 23.594
- Escriturário de banco: 22.862
- Cozinheiro geral: 20.404
- Recepcionista: 19.961
- Repositor de mercadorias: 18.858
- Auxiliar de enfermagem: 17.993
- Porteiro de edifícios: 17.209
- Operador de telemarketing receptivo: 16.112
O que impulsiona essa estatística?
Especialistas apontam que a recorrência de afastamentos por saúde mental nessas categorias reflete a precarização das relações laborais. O denominador comum entre essas profissões inclui contratos frágeis e menor poder de negociação.
Fatores determinantes citados por analistas incluem:
- Insegurança contratual: O medo do desemprego e a alta rotatividade atuam como estressores crônicos.
- Remuneração variável: Salários atrelados a metas agressivas e oscilações de mercado geram ansiedade financeira.
- Sobrecarga: Jornadas extensas sem a devida reposição de quadros aumentam o desgaste físico e mental.
- Violência urbana: Profissionais como motoristas e vigilantes sofrem com a exposição direta a riscos de segurança pública.
Ansiedade e depressão lideram diagnósticos
O ano de 2025 registrou cerca de 4 milhões de licenças médicas totais, o maior índice do quinquênio. Dentro desse universo, os transtornos mentais ganham protagonismo. A ansiedade severa lidera as causas, com 166.489 casos, seguida por episódios depressivos, que somaram 126.608 ocorrências.
Outras condições também apresentaram alta em relação ao ano anterior, incluindo transtorno bipolar, estresse grave (Burnout), esquizofrenia e dependência química. O custo humano é incalculável, mas o impacto financeiro começa a preocupar os gestores públicos.
Rombo bilionário na previdência
O impacto econômico direto dos afastamentos por saúde mental recai sobre o INSS. Embora o órgão não segregue o orçamento por tipo de doença, estimativas baseadas no tempo médio de licença (três meses) e no valor médio do benefício (R$ 2.500) sugerem um custo de quase R$ 4 bilhões em 2025.
As mulheres são as mais afetadas, representando quase 63% das licenças concedidas. Apesar de serem a maioria estatística, elas continuam recebendo menos: a média do benefício feminino foi de R$ 2.482,91, contra R$ 2.515,58 pago aos homens.
“A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 12 bilhões de dias úteis sejam perdidos globalmente, todos os anos, devido à depressão e ansiedade. Isso representa uma perda de US$ 1 trilhão por ano.”
Impasse na regulamentação da NR-1
Diante da escalada dos números, o governo federal planejava atualizar a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) para incluir riscos psicossociais nas diretrizes de segurança do trabalho. A mudança permitiria ao Ministério do Trabalho fiscalizar e multar empresas que submetem funcionários a assédio moral, metas abusivas e falta de suporte emocional.
As multas previstas poderiam chegar a R$ 6 mil por funcionário afetado. Contudo, a pressão de sindicatos patronais e empresas surtiu efeito. Faltando apenas um mês para a vigência da nova regra, a implementação foi adiada para maio deste ano.
O setor empresarial alega falta de tempo hábil para adaptação, e nos bastidores, discute-se a possibilidade de novos adiamentos. Enquanto a regulação não avança, o sistema previdenciário continua absorvendo o custo social e financeiro da curva ascendente de afastamentos por saúde mental.