ACIGABC traz grandes players para falar sobre falta de mão de obra qualificada

Encontro reuniu representantes da construção civil para abordar o grande problema enfrentado pelo setor: a escassez de mão de obra qualificada

Crédito: Celso Rodrigues/ABCdoABC

A ACIGABC (Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC) foi palco do debate sobre ‘Escassez de Mão de Obra’ na construção civil, na manhã desta terça-feira (05), quando reuniu cinco dos principais players do setor: Milton Bigucci Jr., da Construtora MBigucci, Bruno Patriani, da Construtora Patriani, Maximo Menezes, da Maximo Aldana, Marc Wey Hofling, da MGTec e Ilidio Fernandes, da Martinez e Fernandes, empresa do Grupo Motiró, para explorarem o tema que enfrenta dificuldades para encontrar profissionais qualificados e que queiram ingressar no ramo.

Foto: Celso Rodrigues/ABCdoABC

Tema abordado no setor de forma ampla

Ilidio Fernandes, mediador do evento, abriu o debate expondo o tema que tem sido um grande problema no setor.

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“Se há um tema que vem predominando, em todas as rodas de conversa com construtores e incorporadores, é a falta de mão de obra qualificada, especialmente nos grandes centros, a escassez de trabalhadores gera reflexos que vão além da dificuldade para contratar e preencher as vagas disponíveis”, abriu o empresário o debate.

Fernandes disse que não é somente questão de contratação e que este problema causa reflexos em toda cadeia produtiva da construção civil. 

“Estamos falando de obras com desvios em cronogramas e com estouros de custos. Quem atua há mais tempo nesse setor sabe que o possível apagão de trabalhadores não é uma nova ameaça, na verdade, é uma dor que sempre aparece em momentos de mercado aquecido. Mas por uma série de fatores, a falta de mão de obra qualificada parece estar se agravando, expõe ele a dor do segmento.

De acordo com o exposto pelo mediador do debate, os números do SindusconSP (Sindicato da Indústria da Construção Civil) apontam que 82% das construtoras estão com dificuldade de contratação, sendo que 100% dos canteiros de obra estão com 20% a menos de mão de obra.

Além de 76% das construtoras terem revisado seus prazos de entrega e 74% das construtoras têm aumentado o salário e benefício de seus funcionários.

Dedo do setor automotivo na construção civil

Bruno Patriani falou das inovações para encontrar meios de mitigar os problemas com a falta de mão de obra qualificada e uma delas foi buscar auxílio de uma montadora automotiva renomada.

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Prevendo que a gente teria um pouquinho dessa falta de mão de obra, a gente chamou a Porsche, de carro esportivo mesmo. Eles têm um braço que chamam de Porsche Consulting, de engenharia ligada à Porsche. E os engenheiros deles põem uma cadeirinha no meio do canteiro, basicamente em cada andar nosso, e ficam analisando o nosso processo, no que a gente poderia melhorar e fazer, em menos tempo, uma produção maior. Desde a posição que o pessoal entra na cremalheira até quantos chuveiros sobem por um andar”, explicou como as novas metodologias podem auxiliar nos processos e suas otimizações.

Entre outros fatores que pesam na busca por mão de obra qualificada está o fato de que, nos últimos 12 meses, esta aumentou 9,57% contra 5,83% de elevação do material, além do envelhecimento dos trabalhadores, em que um estudo mostra que, há seis anos, os trabalhadores tinham em média 36 anos e, hoje, em 2025, esse número chega a 42 anos, ou seja, um aumento de 16% na idade média, o que mostra que a escassez é um conjunto de fatores que interferem para encontrar a mão de obra qualificada para a construção civil.

Concorrentes diretos, mas do trabalho informal

Patriani colocou a questão do trabalho informal como um forte concorrente do setor da construção civil e que é preciso resgatar a essência do segmento.

“E quando a gente fica falando de plataformas, seja de Uber, iFood, isso é porque tira mesmo a mão de obra da construção civil, a atratividade faz parte da gente. A gente tem que resgatar um pouquinho disso. O papel das construtoras é resgatar um pouquinho e lembrar que você tem uma carreira, sugere ele.

Tecnologia afugenta trabalhadores

Maximo percebe que a tecnologia é um dos fatores que tem tirado a atratividade do setor da construção civil, mas que esse mesmo mecanismo deve ser usado em prol do segmento.

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“Hoje, é uma consequência da evolução da humanidade. Então, eu e o Bruno, como representantes da nova geração do segmento da construção civil e incorporação imobiliária, temos o dever de trazer soluções para esse problema que o nosso mercado enfrenta hoje. Obviamente, o mercado da tecnologia, muito influenciado pelas redes sociais e pelo novo estilo de vida das novas gerações, tem atraído muito mais do que a construção civil, percebe o jovem empresário.

Maximo aponta um caminho para uma possível solução, que é como a industrialização e o uso de tecnologias nos canteiros de obra podem atrair a nova geração para trabalhar não só nos canteiros, mas também nas fábricas ou nos escritórios, e muito relacionados à qualidade de vida no dia a dia e voltou a falar das plataformas de entregas.

“É melhor para mim entregar um iFood, onde posso usar um fone de ouvido para fazer as minhas entregas, às vezes estendendo até 10, 11 horas da noite, ou trabalhar das 7 da manhã até as 6 da tarde em um canteiro de obras, auxiliando uma equipe, carregando peso, muitas vezes em contato com um ambiente insalubre de trabalho e mal remunerado, ou até menos, ganhando a mesma coisa que um entregador?”, questiona ele.

Exemplo que vem dos Estados Unidos

Marc Wey Hofling traz o cenário norte-americano como um exemplo, mas vê o Brasil muito longe de seguir o mesmo caminho.

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“O canteiro de obras, apesar da baixa industrialização, é outro ponto que a gente tem que conversar aqui também. Estava vendo um vídeo dos Estados Unidos que o pedreiro não carrega mais o bloco, tem um elevadorzinho de bloco que ele só ajeita o bloco na parede, então ele não pega mais e sobe o bloco. Então, no Brasil ainda, quando a gente vai ver isso? O empresário dificilmente, aqui no Brasil, viabiliza ainda, pelo preço, um negócio desse. Mas nos Estados Unidos você já vê soluções como essa para que o pedreiro não precise ficar levantando o bloco ali para que possa erguer a parede. Então me chamou bastante a atenção soluções como essa para que fique um pouco mais atraente o trabalho do nosso canteiro de obras, opina o representante da MGTec.

Milton Bigucci Jr. apresentou que os canteiros de obras dos dias atuais são muito diferentes do passado, mas que é preciso garantir um plano de carreira.

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“Hoje é uma obra extremamente organizada, com canteiros de obras com refeitórios, vestiários, toalhas, padarias. Então, transmitir isso para o público, propõe ele, que falou de um dos principais problemas, a porta de entrada da construção civil.

“Principalmente mais preocupante, com a ajudante geral. Porque se você não consegue encontrar um ajudante geral para dentro, por mais que você tenha a qualificação do Senai, não vai conseguir qualificar a pessoa. Quem virou o melhor pedreiro, o melhor carpinteiro é o ajudante, que começa a se destacar na obra. Realmente, nós não temos plano de carreira na teoria, mas na prática, precisa mostrar isso, precisa mostrar isso para as pessoas. O plano é que o cara entre na obra como ajudante, ou se o cara for um bom ajudante, em seis meses ele já vai virar almoxarife, daqui a pouco ele já vai virar meia-colher, meio-oficial. Vai virar oficial e é assim que vai acontecer”, expõe seu olhar de evolução dentro do segmento.

Plano de carreira para atrair profissionais

Maximo sugere um plano de carreira para que o segmento volte a ser atrativo e não perca espaço para a informalidade.

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“Então, obviamente que existe uma percepção de queda na remuneração. Isso é agravado dentro da construção civil, porque na informalidade, muitas vezes, além da qualidade de vida, consegue remunerações até mais altas. Um ajudante, um servente de pedreiro, além de ter uma remuneração inferior a do entregador do iFood com bicicleta, ele, às vezes, é visto pela sociedade como um subemprego. Então, acho que o ponto hoje é discutir como a gente vai trazer propósito para essa galera e falar assim, bom, esse salário aqui vai começar com a base da convenção coletiva, você vai subir no decorrer da sua carreira, vai crescer, vai se desenvolver, propõe Menezes.

José Heroino, diretor do Senai de Santo André e Mauá, comentou sobre as possibilidades dentro da instituição.

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“Eu acho que nós temos que nos organizar e fazer essa coisa acontecer, porque o cenário está aberto para isso, está preparado para isso. Não dá para ficar esperando uma pessoa lá que não é boa. Vamos nós encaminharmos essas pessoas para que a gente possa fazer, sim, esse nível de trabalho, de melhoria na capacitação dessas pessoas. Mostrar que o setor é importante. E nós temos hoje várias frentes na área de qualificação direto para o pessoal que está em campo, no canteiro de obras. São vários cursos” convida o diretor.

Heroino disse que existe uma carga horária mínima, mas para o pessoal que está em campo não precisa usar aquela carga horária, porque já está na vivência da profissão, e explicou quais os cursos.

“São vários cursos, como consultor de alvenaria, encanador, carpinteiro, armador, eletricista. São cursos de curta duração, que podem ser feitos dentro do canteiro, com pessoas indicadas pelas construtoras, revela ele, que afirma que a construção civil é uma das áreas que o Senai atende e é o setor beneficiário.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 05/08/2025
  • Fonte: FERVER