Via Três Tombos concentra acidentes recorrentes com caminhões
Geometria da via Três Tombos, uso por caminhões e falhas na sinalização ampliam riscos; engenharia sugere solução com método Poka-Yoke
- Publicado: 06/03/2026
- Alterado: 06/03/2026
- Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
- Fonte: ABCdoABC
A via conhecida como Três Tombos — formada pelas ruas paralelas Fausto e Elba, que conectam a Avenida Presidente Tancredo Neves à Rodovia Anchieta para acesso ao Grande ABC, na zona sul da cidade de São Paulo — tornou-se, ao longo dos anos, um ponto recorrente de acidentes envolvendo veículos pesados, especialmente caminhões e carretas.
Apesar de se tratar de vias locais inseridas em um bairro residencial, muitos motoristas utilizam esse trajeto como atalho para acessar rapidamente a rodovia, tentando evitar congestionamentos nas conexões formais do sistema viário. O problema é que a geometria da via não foi concebida para suportar esse tipo de tráfego.
O traçado apresenta três rampas sucessivas com declividade acentuada, o que exige elevada potência e controle de tração dos veículos para vencer a subida. Quando caminhões carregados ingressam nesse trajeto, frequentemente acabam enfrentando dificuldades mecânicas e operacionais para completar o percurso.
Tentativa de encurtar o caminho
Na tentativa de reduzir o tempo de deslocamento, motoristas de veículos pesados — seja por desconhecimento do trajeto, imprudência ou mesmo deliberadamente — acabam acessando a ladeira composta pelos três segmentos de forte inclinação.
A situação torna-se ainda mais crítica porque há fiscalização eletrônica de velocidade no trecho inferior da via. O radar, instalado para reduzir riscos às pessoas locais, impede que os caminhões ganhem embalo suficiente para enfrentar o aclive subsequente.
Na prática, cria-se uma situação paradoxal: o motorista reduz a velocidade para não ser autuado, mas ao fazê-lo perde o impulso necessário para vencer a rampa seguinte, especialmente quando o veículo está carregado. O resultado é a perda de capacidade de subida, patinagem das rodas ou até o travamento do veículo no meio da ladeira.
Consequências com o trânsito proibido de caminhões

Mesmo havendo sinalização de proibição de circulação de caminhões, o acesso ainda ocorre com frequência.
Quando o veículo pesado não consegue concluir a subida, surgem situações extremamente perigosas. Muitos caminhões acabam imobilizados no meio da via, bloqueando completamente a passagem. Em outros casos, o motorista tenta realizar a manobra de descida em marcha à ré, o que aumenta significativamente o risco de perda de controle do veículo.
Essas manobras já provocaram diversos sinistros, incluindo: tombamentos de carretas, decorrentes do deslocamento do centro de gravidade da carga; colisões com veículos estacionados ou em circulação; danos a muros e residências próximas, já que a via é inserida em área residencial e interrupções prolongadas do tráfego, exigindo remoção especializada e mobilização de equipes de emergência.
Moradores relatam que o problema ocorre há anos, mesmo com placas indicativas alertando sobre a restrição para veículos pesados. Isso evidencia um fenômeno comum na engenharia de tráfego: a sinalização, isoladamente, nem sempre é suficiente para alterar o comportamento dos motoristas da via.
Solução japonesa para dar um basta aos acidentes
Do ponto de vista da engenharia de transportes e da gestão de riscos, existe uma abordagem bastante eficaz para situações como essa: a aplicação do conceito japonês Poka-Yoke, amplamente utilizado nos sistemas de Qualidade Total e manufatura enxuta.
O princípio do Poka-Yoke consiste em projetar sistemas que eliminem a possibilidade de erro humano, impedindo fisicamente que uma ação inadequada seja executada. Em vez de confiar apenas na atenção do motorista ou na sinalização, o próprio ambiente é configurado para evitar a ocorrência do erro.
Esse conceito é amplamente aplicado em diversas áreas, desde linhas de produção industrial até sistemas de segurança viária.
Barreiras físicas são alternativas
No contexto viário, uma aplicação clássica desse princípio ocorre em túneis urbanos, onde são instaladas barras limitadoras de altura antes do acesso. Quando um caminhão incompatível tenta entrar, ele é impedido fisicamente antes de atingir o interior do túnel, evitando bloqueios e acidentes.
A lógica pode ser aplicada na via Três Tombos por meio da instalação de dispositivos geométricos de restrição, como: chicanes ou traçados em zig-zag; estreitamentos controlados de pista; elementos físicos que permitam apenas a passagem de veículos leves, vans e motocicletas.

Essas soluções funcionam como um filtro físico, impedindo que caminhões avancem para o trecho crítico da ladeira.
Quando a sinalização não é suficiente para garantir o cumprimento da regra, a engenharia deve recorrer a medidas autoexplicativas e autoexecutáveis, nas quais o próprio desenho da via induz o comportamento correto dos motoristas.
Reflexão sobre a via Três Tombos
O caso da via Três Tombos ilustra um princípio fundamental da engenharia de tráfego e segurança viária: confiar exclusivamente na sinalização e no comportamento ideal do motorista nem sempre é suficiente para prevenir acidentes.
A experiência internacional mostra que soluções eficazes de segurança viária frequentemente combinam informação, fiscalização e desenho urbano adequado. Quando o ambiente viário permite que um erro humano resulte em consequências graves, cabe à engenharia intervir para reduzir essa possibilidade.
No caso específico dessa ligação entre a Avenida Tancredo Neves e a Rodovia Anchieta, os acidentes recorrentes indicam que a infraestrutura atual não está compatível com o comportamento real dos motoristas da via.
Implementar dispositivos físicos de restrição pode representar não apenas uma solução técnica simples, mas também uma medida concreta para proteger vidas, motoristas e o patrimônio urbano.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.