Acesso aos Quipos: revelações sobre a inclusão social no Império Inca

Estudo revela que quipos, artefato inca, eram usados por classes populares, democratizando o conhecimento no Império Inca. Descubra os detalhes!

Crédito: Divulgação

Recentes investigações sobre os quipos, um sistema ancestral de cordas e nós utilizado pelos povos andinos, indicam que essa tecnologia, frequentemente associada à elite pré-colombiana, também estava ao alcance de indivíduos comuns no Império Inca. Um estudo publicado na quarta-feira, 13 de setembro, na renomada revista Science Advances, revela detalhes fascinantes sobre o uso desse artefato, sugerindo uma democratização do conhecimento sobre quipos entre diferentes classes sociais.

Os pesquisadores, liderados por Sabine Hyland da Universidade de St. Andrews, descobriram que a prática de utilizar cabelos humanos na confecção dos quipos não era tão rara quanto se pensava. Para muitas culturas andinas antigas, os fios de cabelo eram considerados uma representação da essência individual. Assim, a inclusão de cabelo trançado nos quipos pode ser vista como uma forma de personalização, quase como uma impressão digital do responsável pela sua criação.

A presença de quipos em sepulturas anteriores à chegada dos conquistadores espanhóis e suas menções nos relatos coloniais atestam sua importância histórica e funcional. Os textos indicam que esses instrumentos desempenhavam principalmente uma função administrativa, com suas cores e nós codificando informações relacionadas a tributos e outras obrigações do Estado inca. Contudo, ainda persiste um debate sobre a possibilidade desses artefatos registrarem narrativas ou histórias mais complexas.

Nos registros históricos, a responsabilidade pela manutenção desses arquivos era frequentemente atribuída aos “khipukamayuqs”, os criadores de quipos. Esses indivíduos pertenciam à elite imperial e eram reconhecidos por sua habilidade em produzir esses artefatos que continham registros administrativos. Ao contrário de outras civilizações antigas que contavam com escribas para documentar informações, os khipukamayuqs eram autossuficientes na criação e manejo dos seus próprios “textos”.

Por outro lado, relatos do início do período colonial sugerem que a habilidade de criar quipos não era restrita à nobreza. O cronista indígena Felipe Guaman Poma de Ayala menciona que mulheres também podiam ser treinadas nessa arte. Essa informação é corroborada por descobertas arqueológicas que revelaram o sepultamento de uma jovem com um quipo.

No novo estudo conduzido pela equipe de Hyland, foi realizada uma análise química detalhada do quipo identificado como KH0631. Este artefato, datado aproximadamente do ano 1500 e atualmente preservado na Universidade de St. Andrews, apresenta um fio principal formado por cabelo humano que mede pelo menos um metro antes de ser trançado.

A composição química desse cabelo oferece insights valiosos sobre a dieta da pessoa responsável pela confecção do quipo. A análise revelou que o indivíduo consumia uma quantidade mínima de carne e milho — alimentos típicos da elite inca — optando em vez disso por tubérculos e quinoa, alimentos característicos das classes mais baixas da sociedade.

Além disso, os dados sugerem que os alimentos e a água ingeridos vinham de regiões situadas a cerca de 2.500 metros de altitude, correspondendo ao sul do Peru e ao norte do Chile. Essas evidências levantam questões importantes sobre o grau de acesso das classes plebeias à tecnologia dos quipos e se tal acesso era uma exceção ou uma prática comum dentro da sociedade incaica.

À medida que mais quipos são analisados, espera-se aprofundar o entendimento sobre como esse sistema funcionava como um equivalente à escrita em outras civilizações antigas.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 16/08/2025
  • Fonte: FERVER