ABC Cast analisa Venezuela após ação dos EUA e captura de Maduro
Episódio especial reuniu jornalistas e especialista em risco político para discutir soberania, impactos regionais e o futuro da Venezuela
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 04/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
O episódio especial do ABC Cast colocou a Venezuela no centro do debate político internacional ao analisar, com profundidade e contexto, a operação militar dos Estados Unidos em território venezuelano que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro.
Apresentado pelos jornalistas João Pedro Mello e Thiago Quirino, o programa buscou fugir da cobertura superficial e da polarização, oferecendo ao público uma leitura qualificada sobre os desdobramentos políticos, jurídicos, econômicos e humanos do episódio.
A edição especial foi ao ar poucos dias após a confirmação da ação militar, em um momento marcado por incertezas, reações diplomáticas e forte repercussão internacional. O objetivo, segundo os apresentadores, foi compreender não apenas o fato em si, mas principalmente o que ele representa para a Venezuela, para a América Latina e para a ordem internacional.
Especialista analisa a Venezuela sob a ótica do risco político

Para aprofundar a discussão, o ABC Cast entrevistou Eduardo Galvão, professor de Políticas Públicas no Ibmec, diretor da consultoria global Burson e autor do livro Riscos Políticos na América Latina, que será publicado pela editora Diálogos. Ao longo do episódio, Galvão destacou que a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela representa uma das mais graves violações possíveis no sistema internacional: o uso unilateral da força contra um Estado soberano.
Segundo o professor, a Carta das Nações Unidas e o sistema multilateral foram criados justamente para evitar esse tipo de ação. Ainda que regimes autoritários sejam alvo de críticas legítimas, ele ressaltou que a soberania nacional não pode ser relativizada a partir de interesses estratégicos ou econômicos. Para Galvão, a justificativa apresentada pelo governo norte-americano cria um precedente perigoso não apenas para a Venezuela, mas para toda a região.
O especialista também chamou atenção para a relação direta entre política externa e política interna nos Estados Unidos. De acordo com ele, narrativas construídas previamente ajudam a legitimar ações militares perante o público doméstico, ainda que essas ações contrariem princípios básicos do direito internacional.
A palavra “administrar” e o impacto simbólico na Venezuela

Outro ponto central do episódio foi o significado da declaração do presidente norte-americano de que os Estados Unidos irão “administrar” a Venezuela por um período indefinido. Para discutir essa dimensão humana e simbólica, o programa contou com o depoimento da comunicadora e designer venezuelana Yasnaya Yañez, que vive no Brasil há mais de uma década.
Yasnaya relatou sentimentos ambíguos entre os venezuelanos: de um lado, o alívio pelo fim de um ciclo de 27 anos de chavismo e madurismo; de outro, um medo profundo em relação ao que virá a seguir. Segundo ela, a mudança não ocorreu da forma desejada pela população, que ao longo de anos promoveu protestos e mobilizações civis contra o regime.
A palavra “administrar”, segundo Yasnaya, soa menos como promessa e mais como ameaça para quem vive ou tem familiares na Venezuela. A ausência de informações oficiais sobre vítimas, danos e acordos políticos aumenta a sensação de insegurança, agravada pela permanência de figuras centrais do antigo governo em posições de poder.
O “dia seguinte” e os riscos para a Venezuela e a região
Durante o debate, Thiago Quirino trouxe à tona o conceito do “dia seguinte”, tema recorrente nos estudos de risco político. Eduardo Galvão explicou que regimes autoritários não se resumem a uma única figura, mas funcionam como sistemas complexos, capazes de se reorganizar mesmo após a retirada do líder principal.
No caso da Venezuela, a queda de Nicolás Maduro não significa, automaticamente, o desmonte do chavismo enquanto estrutura política, institucional e militar. Para que isso ocorra, seria necessária uma transição negociada com as Forças Armadas e com setores estratégicos do poder, ou, alternativamente, uma imposição pela força, cenário que tende a gerar ainda mais instabilidade.
Essa incerteza, segundo Galvão, eleva significativamente o risco político, afastando investimentos e prejudicando o desenvolvimento econômico não apenas da Venezuela, mas de toda a América Latina. O capital internacional, explicou o especialista, prefere ambientes previsíveis, mesmo que imperfeitos, a cenários marcados por intervenções militares e insegurança jurídica.
Migração, medo e expectativas dos venezuelanos
O episódio também abordou os impactos da crise sobre a diáspora venezuelana. Yasnaya Yañez destacou que, para quem deixou a Venezuela há muitos anos, o retorno imediato ainda parece distante. Apesar de sinais pontuais de melhora, como a retomada de voos diretos entre Caracas e cidades brasileiras, o cenário permanece instável.
Ela relatou o aumento do dólar, compras compulsivas e o receio de novos ataques, especialmente em grandes centros urbanos. A atuação de grupos armados civis e a aparente ausência de resistência militar formal levantam questionamentos sobre possíveis acordos internacionais envolvendo grandes potências.
Esses elementos reforçam que o futuro da Venezuela dependerá menos de anúncios públicos e mais de negociações de bastidores, cujos efeitos só se tornarão claros nas próximas semanas.
Venezuela, petróleo e o precedente da “lei do mais forte”
Outro eixo central da discussão foi o papel estratégico do petróleo. Eduardo Galvão lembrou que a Venezuela possui uma das maiores reservas do mundo e que cerca de 80% de suas exportações dependem do setor. O controle dessas reservas por empresas norte-americanas, ainda que temporário, representa um enorme interesse econômico.
No entanto, o especialista alertou que o maior dano não está apenas no curto prazo, mas no precedente criado. A ideia de que uma potência pode intervir militarmente, ocupar e administrar outro país sob justificativas unilaterais enfraquece instituições multilaterais e amplia a percepção de instabilidade regional.
Para João Pedro Mello, o episódio especial do ABC Cast deixou claro que a crise na Venezuela vai além de uma manchete. Trata-se de um teste aos limites das regras internacionais e de um alerta para toda a América Latina sobre os riscos de um mundo em que a força se sobrepõe ao diálogo.
Confira a entrevista completa:
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