ABC Cast Conexões com Silvia Muiramomi ecoa vozes indígenas no ABC

Liderança Guayaná-Muiramomi, Silvia expõe invisibilidade, ancestralidade e a resistência dos mais de 3 mil indígenas que vivem no ABC

Crédito: Edvaldo Barone/ABCdoABC

As raízes do ABC Paulista guardam histórias que atravessam séculos, mas nem sempre são lembradas. Nos mapas oficiais e nas salas de aula, a presença indígena da região foi silenciada por gerações, como se não houvesse memória viva desse pertencimento. Só em 2021 o IBGE revelou um dado surpreendente: 3.031 pessoas se autodeclaram indígenas nas sete cidades do ABC, desmontando a ideia de que o território de Caguaçu, onde hoje estão Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, teria perdido suas origens.

É nesse contexto de apagamento histórico e retomada de identidades que surge a voz de Silvia Guayaná-Muiramomi, socióloga, terapeuta integrativa e liderança indígena. Mais que uma militante, ela é guardiã de memórias ancestrais que estavam adormecidas e hoje ecoam em espaços de resistência, como a Oka de Saberes em Mauá, que conecta crianças, escolas e famílias ao legado dos povos originários.

No episódio mais recente do ABC Cast Conexões, Silvia conduziu os ouvintes a uma viagem pela ancestralidade indígena no ABC, desmontando estereótipos e revelando que afirmar-se indígena, em pleno coração da metrópole, é um ato de coragem, resistência e futuro.

Memória ancestral e resistência cultural

Silvia Muiramomi explica que o processo de se afirmar indígena no ABC é atravessado por camadas de dor e de apagamento histórico, mas também de coragem coletiva. “A memória de pertencer a um povo indígena está dentro da gente, mesmo que adormecida. São muitas camadas até você conseguir verbalizar: eu sou indígena”. Silvia se recorda, “No meu caso, a frase da minha avó foi um marco. Ela dizia que a primeira ferrovia de São Paulo, a São Paulo Railway, tinha dividido as terras das nossas gentes em duas. Essa lembrança me levou a pesquisar e descobrir que o território era exatamente o ABC”, contou.

Silvia Guayaná-Muiramomi - Indígenas no ABC - ABC Cast Conexões
Silvia Guayaná-Muiramomi, durante entrevista ao ABC Cast Conexões (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

Ela ressalta que o racismo ainda impõe barreiras para quem deseja se reconhecer como indígena em contexto urbano. “Muitas vezes olham para mim e dizem que, pelo meu fenótipo, eu não posso ser indígena. Mas o nosso corpo é território, e nele estão as marcas das miscigenações forçadas, da violência histórica. Reivindicar essa identidade é também curar a dor de quem foi silenciado. É assumir que ser indígena hoje não é viver no passado, mas carregar essa ancestralidade como futuro.”

Esse movimento, segundo Silvia, é mais amplo do que a história individual. “A retomada é uma revolução interna que provoca uma revolução externa. Quando eu me afirmei, outras pessoas também se reconheceram. Em palestras nas escolas, basta eu perguntar quem tem avó ou avô indígena para ver várias crianças levantarem a mão. Muitas não sabem de qual povo vieram, mas carregam essa raiz. E quando escutam histórias de pertencimento, elas choram, porque percebem que não estão sozinhas. É como jogar uma pedrinha no lago: as ondas se espalham e alcançam memórias que estavam guardadas em silêncio.”

Saberes indígenas

Para Silvia Guayaná-Muiramomi, reconhecer-se indígena também significa reconectar-se com a Terra e com os ciclos que sustentam a vida. A partir dessa perspectiva, a crise climática atual não é apenas uma questão ambiental, mas também espiritual e civilizatória. “Quando a gente fala de ancestralidade, não é só sobre a história humana. O nosso ancestral mais antigo é o fóssil de Luzio, encontrado em Cajati, com mais de 10 mil anos. Nós já estávamos aqui muito antes da invasão europeia, que tem pouco mais de cinco séculos. Esse tempo nos ensinou que somos parte da natureza, não donos dela. O equilíbrio vem de viver no ritmo dos ciclos da Terra, e é isso que a sociedade perdeu”, afirmou.

Ela lembra que os povos originários sempre trabalharam em harmonia com o ambiente, sem a lógica da acumulação infinita. “Na natureza não existe resíduo. Tudo se transforma em vida de novo. Só o sistema produtivo atual é que acumula, destrói florestas e esgota recursos como se fossem inesgotáveis. É um modelo autofágico: uma hora vai devorar a si mesmo”, afirma

Ao falar com escolas e comunidades, Silvia usa exemplos simples para explicar essa visão. “Se você perguntar para uma criança de onde vem a alface, ela vai responder que é do supermercado. Não tem ideia de que houve plantio, cuidado, tempo de espera, colheita. A desconexão começa cedo. E isso se reflete no consumo alucinado, na ideia de que precisamos de alta performance o tempo todo. Mas o planeta já está gritando. A emergência climática é o corpo da Terra adoecendo. E como qualquer corpo, quando não se cuida, ele para.”

A socióloga destaca ainda a importância de pequenos seres para o equilíbrio natural. “Uma abelha sem ferrão, nativa da Mata Atlântica, pode parecer insignificante. Mas ela é essencial para a polinização e a manutenção das florestas. Se esse ciclo se rompe, tudo se perde. É preciso reaprender a enxergar as interdependências. A Terra não precisa de nós, mas nós precisamos dela.”

Para Silvia Muiramomi, a resistência indígena também é uma resposta à lógica de exploração capitalista. “Nós não trabalhávamos para acumular. Produzíamos para o hoje, para alimentar a comunidade, respeitando os ciclos de plantar e colher. Esse modelo imposto é uma violência desde o início. Lá atrás, quando os colonizadores chegaram, passaram fome porque só levavam da gente aquilo que sobrava. A gente nunca trabalhou para sobrar. Trabalhou para viver em equilíbrio. E é essa memória que precisamos reativar se quisermos sobreviver como humanidade.”

Oka de Saberes: memória e pertencimento

Entre os espaços que simbolizam a retomada da memória indígena no ABC, a Oka de Saberes, em Mauá, ocupa lugar central. Idealizado por Silvia, o projeto nasceu da necessidade de criar um ponto de encontro onde crianças, professores e famílias pudessem conhecer e vivenciar a história que foi apagada da região. “Se a história não está nos livros, nem nas placas das cidades, nós precisamos contá-la. A Oka de Saberes é esse lugar onde a memória do território volta a pulsar”, explicou.

Instalado no Parque da Gruta de Santa Luzia, o espaço carrega também um simbolismo profundo: ali nasce o rio Tamanduateí, um dos mais importantes do ABC. “O Tamanduateí é nossa mãe ancestral. Foi ele que sustentou o povo Guayaná, que vivia de sua margem até São Vicente. Do outro lado, estavam os Muiramomi, até Bertioga. Esse rio é vida para nós. Só que, nos centros urbanos, ele virou sinônimo de morte: poluição, enchente, descaso. A Oka é um convite para lembrar que o rio não é um problema, mas um ser ancestral que precisa ser respeitado”, disse Silvia.

As atividades da Oka de Saberes incluem exposições, oficinas, palestras e encontros que conectam a comunidade com os saberes tradicionais. Em poucos meses, mais de 600 crianças já passaram pelo espaço. “É emocionante ver uma criança levantar a mão numa escola e dizer ‘minha avó é indígena’, quando antes isso era motivo de vergonha ou silêncio. A retomada começa assim, no pertencimento. É dar às novas gerações a coragem de dizer quem são”, contou.

Mais do que resgatar o passado, o espaço tem vocação de futuro. “Nós não temos religião, temos espiritualidades. A Oka é onde podemos celebrar, onde podemos nos reunir como povo, coisa que a cidade nos negou. É o lugar para ensinar que ser indígena não é estar parado no tempo. É estar vivo, resistindo e criando novas possibilidades de mundo.”

Educação, saúde e identidade indígena

Um dos momentos mais intensos da entrevista foi quando Silvia Muiramomi refletiu sobre a forma como os povos indígenas ainda são tratados nas cidades: lembrados em datas pontuais, como no 19 de abril, e ignorados pelo restante do ano. Para ela, essa visão reduzida perpetua o apagamento.

“Nos centros urbanos, ainda existe a ideia de que só lembram da gente em abril. Isso é cruel, porque não somos uma curiosidade folclórica, somos presença, somos história viva. Quando a escola traz a gente apenas para cantar musiquinha no dia do índio, ela nega às crianças a chance de entender que têm uma ancestralidade indígena na família, no sangue, na memória. E quando você não reconhece isso, você perde parte da sua identidade”, afirmou.

Silvia também apontou que essa invisibilidade tem consequências graves para a saúde. “Quando você vai ao médico, ninguém pergunta se você é indígena. Mas isso importa. Nós temos maior predisposição a problemas cardíacos, a hipertensão, e ninguém leva em conta. É como se não existíssemos. Esse apagamento não é só simbólico, ele tem efeitos reais, ele adoece as pessoas”, disse.

A socióloga lembrou ainda da Lei 11.645, que obriga escolas a incluírem a história e cultura dos povos indígenas e afro-brasileiros no currículo. Para ela, o cumprimento da lei é fundamental para romper com séculos de silenciamento. “Essa lei foi proposta pelos próprios professores indígenas, porque as nossas crianças precisavam ser compreendidas dentro da escola. Mas, até hoje, vemos muitas dificuldades. Crianças indígenas sofrem bullying, tem dificuldades de se adaptar porque não comem ultraprocessados, porque falam uma outra língua, porque tem outra forma de viver. E se a escola não estiver preparada, ela agrava o racismo estrutural. O que pedimos é simples: educação antirracista e que a nossa história seja contada com a mesma seriedade da história de qualquer outro povo”, afirmou.

Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

Silvia Guayaná-Muiramomi - Indígenas no ABC - ABC Cast Conexões
Silvia Muiramomi, Valderez Coimbra e Thiago Quirino (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

A entrevista com Silvia Guayaná-Muiramomi foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação de Valderez Coimbra, jornalista com trajetória marcada pela defesa dos direitos humanos e pela atuação em movimentos sociais. A produção e a checagem de dados ficaram sob responsabilidade de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio teve a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Assista ao episódio completo:

Além do canal no YouTube, a entrevista com  Silvia Muiramomi, pode ser acessada pelo SpotifyDeezerAmazon Music e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 06/09/2025
  • Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA