ABC Cast Conexões com Ricardo Godoy, da Soul TV, aborda o futuro da TV interativa
CEO da Soul TV detalha expansão global, inovação em e-commerce e desafios do streaming no Brasil
- Publicado: 11/02/2026
- Alterado: 18/08/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Itaú Cultural
No universo em constante disputa entre a TV tradicional e o streaming, um empresário do Grande ABC vem rompendo fronteiras e conquistando espaço em quase 200 países. Ricardo Godoy, CEO da Soul TV, foi o entrevistado do ABC Cast Conexões, o podcast de entrevistas do portal ABCdoABC, e revelou como transformou anos de negativas e desafios em uma plataforma que une canais lineares, interatividade e alcance global.
Com uma carreira consolidada no mercado publicitário, Ricardo Godoy acumulou prêmios e experiência em todas as etapas da produção, da criação ao planejamento e execução, chegando viabilizar mais de 100 prêmios em Cannes. Mas foi em 2007, ao se deparar com a promessa de uma TV 100% digital, que ele enxergou o próximo capítulo da sua trajetória. Sem respostas claras sobre como funcionaria a interatividade com o público, decidiu criar um laboratório próprio e mergulhar na transformação digital.
Treze anos depois, essa inquietação deu origem à Soul TV, lançada em 2020 com a proposta de ser uma “TV 3.0”: gratuita, interativa e global. “O controle em suas mãos” é mais do que um slogan, é a síntese de um modelo que aposta na liberdade de escolha do espectador e na democratização do acesso à informação e ao entretenimento.
O diferencial da Soul TV no cenário de streaming
Enquanto gigantes como Netflix popularizaram o modelo de Video on Demand (VOD), a Soul TV nasceu com outro foco: oferecer canais lineares, como na TV a cabo, mas sem a necessidade de cabeamento físico. Essa proposta permite transmitir programação ao vivo com qualidade e estabilidade, mantendo também uma biblioteca de conteúdo sob demanda para quem prefere escolher o que assistir. É uma combinação que, segundo Ricardo Godoy, atende tanto o público que gosta de acompanhar eventos em tempo real quanto aquele que prioriza flexibilidade.
A aposta nos canais lineares não é casual. O executivo defende que, apesar da ascensão do VOD, assistir conteúdos ao vivo ainda desperta interesse e engaja de forma diferente. Jogos, programas jornalísticos e eventos culturais, por exemplo, têm apelo imediato, e o espectador quer estar presente no momento em que acontecem. Para ele, a personalização é valiosa, mas a surpresa e a companhia da programação linear também têm seu espaço no cotidiano das pessoas.
Além disso, a Soul TV se diferencia pelo uso de interatividade. Recursos como enquetes, participação do público e integrações com outros dispositivos tornam a experiência mais próxima de um diálogo entre emissora e espectador. Isso amplia as possibilidades comerciais, permitindo que marcas criem campanhas dinâmicas e contextuais, alinhadas ao conteúdo que está sendo consumido naquele instante.
Expansão global e parceria estratégica
A Soul TV alcançou rapidamente projeção internacional. Hoje, está presente em 197 países, resultado de um acordo global com as fabricantes Samsung e LG, além de compatibilidade com dispositivos Android e iOS. Essa estratégia de distribuição garante que a plataforma possa ser acessada de qualquer lugar, ampliando sua base de usuários e fortalecendo o alcance de conteúdos brasileiros para públicos no exterior.
Godoy conta que o público da Soul TV é bastante diversificado: brasileiros expatriados que buscam conexão com a programação nacional, estrangeiros que se interessam por conteúdos regionais e até comunidades em locais remotos.
Outro diferencial é o espaço dado às emissoras regionais. A Soul TV abriga o maior número de canais locais no país, permitindo que TVs de pequeno porte, muitas vezes restritas a transmissões limitadas, possam competir em igualdade de condições com grandes redes. “Do Amazonas ao Rio Grande do Sul, democratizamos o acesso e colocamos todas no mesmo patamar tecnológico”, resume.

Inclusão digital e modelo de negócios
O caráter gratuito da Soul TV é sustentado principalmente por publicidade. Essa escolha, segundo Ricardo Godoy, foi pensada para garantir inclusão digital e evitar que o acesso ao conteúdo ficasse restrito a quem pode pagar por assinaturas. Ele destaca que a experiência publicitária pode ser positiva, desde que o anúncio seja relevante e contextualizado, agregando valor ao que o espectador está assistindo.
Nesse sentido, a plataforma investe no desenvolvimento de um módulo de e-commerce interativo. A ideia é simples, mas poderosa: durante uma transmissão, o espectador recebe ofertas relacionadas ao conteúdo em exibição. Num jogo de futebol, por exemplo, é possível oferecer a camisa do jogador que acabou de marcar um gol, com prazo de poucos segundos para a compra. Essa dinâmica aposta na compra por impulso e na emoção do momento.
Para viabilizar essa função, o processo atual é feito por QR Code, direcionando o usuário diretamente à loja virtual. No futuro, Godoy planeja permitir que a compra seja concluída com comandos de voz no controle remoto, tornando a experiência ainda mais ágil e intuitiva. Para ele, essa integração entre conteúdo e consumo é um dos caminhos mais promissores para o streaming.
Tendências globais: do live commerce à tradução em tempo real
Ricardo Godoy acompanha de perto o avanço do live commerce na Ásia, especialmente na China, onde lojas físicas têm sido convertidas em estúdios para vendas transmitidas ao vivo. Segundo ele, o formato combina entretenimento e consumo de forma tão eficiente que se tornou um fenômeno de vendas no país. Essa tendência, acredita, chegará ao Brasil em escala maior nos próximos anos.
Outro ponto que ele vê como revolucionário é a dublagem automática e sincronizada por inteligência artificial. A tecnologia já permite adaptar o movimento labial e o áudio de conteúdos gravados para outros idiomas. O objetivo é chegar a um ponto em que transmissões ao vivo possam ser traduzidas em tempo real, rompendo barreiras linguísticas e ampliando o alcance de eventos, shows e palestras para públicos de qualquer parte do mundo.
Essa visão se conecta diretamente ao potencial da Soul TV de se consolidar como uma plataforma global, capaz de oferecer não apenas conteúdo brasileiro para o exterior, mas também programações internacionais adaptadas ao público local. Para empresário, essa troca é o que fortalece a relevância de qualquer ecossistema de mídia.
A batalha das métricas e o papel da TV aberta
Apesar do avanço do streaming, Ricardo Godoy reconhece que a TV aberta continua exercendo um papel importante na formação de agendas e na promoção de diálogos nacionais. Ele observa que muitos conteúdos digitais viralizam impulsionados por programas televisivos de grande audiência, como reality shows e eventos esportivos, o que reforça a interdependência entre os dois formatos.
No entanto, o ambiente digital ainda enfrenta desafios relacionados às métricas. Diferentes plataformas apresentam dados e metodologias distintas, o que gera confusão e dificulta a avaliação real de desempenho. Para Godoy, é fundamental que empresas entendam o valor da construção de marca e não se limitem a analisar resultados imediatos de conversão.
Ele alerta que focar apenas em retorno de curto prazo pode fragilizar o ecossistema, reduzindo investimentos e comprometendo a qualidade da produção. “Campanhas constroem lembrança, e a compra pode acontecer meses depois. Se não olharmos o todo, colocamos o negócio em risco”, afirma.
Regulamentação, Tecnologia e IA
Na visão de Ricardo Godoy, a regulação rígida é um dos principais entraves para o avanço da inovação no Brasil. Ele argumenta que a internet cresceu e se consolidou justamente por ser um espaço desregulado, o que permitiu a entrada de novos atores e a rápida evolução tecnológica. “Regulação aqui representa monopólio, representa não ter liberdade para fazer”, afirmou, ressaltando que as barreiras criadas favorecem quem já tem poder de lobby, não os novos empreendedores.
O empresário reconhece que regras são necessárias quando há abusos evidentes ou riscos claros ao consumidor, mas defende que a regulação deve ser pontual, e não generalizada. Para ele, quanto mais burocrático for o processo para criar ou operar um serviço de TV ou streaming, menos espaço haverá para a diversidade de conteúdos e para a competição saudável entre empresas. “Se regular demais, daqui a pouco você não consegue nem abrir o seu ABC Cast Conexões”, ironizou, apontando o risco de engessamento do setor.
Ricardo Godoy exemplifica essa diferença com a comparação entre o número de canais nos Estados Unidos e no Brasil, onde a concentração de emissoras é muito maior. Ele acredita que o mercado, quando saudável, tem capacidade de se ajustar sozinho, criando espaço para nichos e formatos diferentes. Essa flexibilidade, para ele, é essencial para que modelos como o da Soul TV continuem inovando e expandindo.
Ao longo da entrevista, Godoy destacou repetidamente o papel da tecnologia na evolução da comunicação e do entretenimento. Um dos pontos centrais de sua análise foi a inteligência artificial, que ele enxerga como um acelerador de produtividade e um diferencial competitivo para empresas de mídia e comunicação. “Quem usar a inteligência artificial a favor disso vai crescer. Quem tiver medo vai perder”, alertou.
Desafios e oportunidades para a TV regional no ABC
Quando questionado sobre o potencial da TV regional no Grande ABC, Ricardo Godoy foi claro: é preciso pensar globalmente, mesmo ao produzir conteúdos locais. Para ele, a chave está em criar programações que falem diretamente com o público da região, mas que também possam despertar interesse em outras partes do Brasil e do mundo. Essa abordagem, segundo ele, amplia a relevância e a possibilidade de monetização dos canais.
Ele defende que veículos do ABC devem aproveitar as oportunidades de distribuição que plataformas como a Soul TV oferecem, garantindo visibilidade além das fronteiras municipais e estaduais. Ao mesmo tempo, acredita que é importante trazer para o público local informações e conteúdos de fora, criando uma troca constante que fortaleça a percepção de valor da mídia regional. “Comunicação hoje é para romper fronteiras”, reforçou.
Para Ricardo Godoy, a tecnologia já existe e está disponível para quem quiser explorar esse caminho. O que falta, muitas vezes, é a adaptação do conteúdo e da pauta para atender a diferentes públicos sem perder a identidade. Esse equilíbrio, afirma, é o que transforma uma emissora local em referência de qualidade e relevância.
Planos de expansão
O futuro próximo da Soul TV inclui o lançamento de uma versão 2.0 da plataforma, com código totalmente reescrito para incorporar melhorias de performance e novas funcionalidades. Segundo Ricardo Godoy, a versão atual foi desenvolvida em 2016 e, embora tenha recebido atualizações, já precisa de uma base tecnológica mais moderna para acompanhar a evolução do mercado. A meta é oferecer uma experiência mais fluida, estável e preparada para integrações futuras.
Paralelamente, a empresa está expandindo o módulo de publicidade e o e-commerce interativo, buscando novas formas de monetizar sem depender de assinaturas pagas. Ricardo Godoy vê nesses recursos uma oportunidade para criar modelos sustentáveis que beneficiem tanto a empresa quanto os parceiros comerciais, sem onerar o usuário final. A proposta é transformar o espectador em parte ativa do ecossistema, incentivando o engajamento e a fidelidade.
Na frente de conteúdo, o foco é ampliar a presença de produções da América Latina, especialmente de países como Peru e Chile. A estratégia é usar esse portfólio para fortalecer a presença no mercado norte-americano, explorando a demanda crescente por conteúdo latino. Para Godoy, esse movimento é um passo essencial para consolidar a Soul TV como uma plataforma verdadeiramente global.
Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

A entrevista foi conduzida por Thiago Quirino e teve a participação do jornalista Marcos Fidelis, profissional com ampla experiência em comunicação e produção televisiva no Grande ABC. A produção e a checagem de dados ficaram sob responsabilidade de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio teve a assinatura de Rodrigo Rodrigues.
Assista ao episódio completo:
Além do canal no YouTube, a entrevista com Ricardo Godoy, pode ser acessada pelo Spotify, Deezer, Amazon Music e também no Apple Podcasts.