ABC Cast Conexões com Dom Veiga expõe abandono da inclusão no Brasil
Fundador da ONG Adote um Cidadão revela como uma das maiores redes de inclusão do país atua há 26 anos sem verba pública, incentivos fiscais ou apoio político
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 03/08/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro SABESP FREI CANECA
O sétimo episódio do ABC Cast Conexões escancara uma realidade tão poderosa quanto negligenciada: a inclusão de pessoas com deficiência ainda é tratada como caridade no Brasil, quando deveria ser um direito garantido e estruturado. Quem traz essa denúncia embasada em uma trajetória de entrega é Dom Veiga, fundador do projeto Adote um Cidadão, que há mais de duas décadas transforma vidas em silêncio, sem incentivo fiscal, sem verba pública, sem conchavos políticos. “Não faço por religião, não faço porque tenho uma filha com deficiência, não faço porque vou pro céu. Faço porque me faz feliz”, diz Veiga.
De empresário da tecnologia ao ativista da dignidade
Antes de virar referência nacional em inclusão, Dom Veiga era empresário. Filho de portugueses, foi criado para empreender. “Cresci ouvindo que tinha que ganhar dinheiro”. Em 1999, aos 29 anos, comandava seis escolas de informática no ABC Paulista e se preparava para montar uma startup inovadora. Mas um gesto o desviou do caminho do lucro para o da transformação: a sugestão de um aluno para doar bolsas de estudo a pessoas com deficiência. “Minha primeira reação foi ‘não tem nada a ver comigo, eu quero vender curso'”. Três meses depois, ele já empurrava cadeiras de rodas e organizava simpósios inclusivos. “Me vi ali, fazendo simpósios, participando ativamente das ações com pessoas com deficiência. Acabei esquecendo da minha própria empresa”, revela.
Desde então, o Adote um Cidadão já beneficiou mais de 50 mil pessoas em pelo menos sete estados. Entre suas iniciativas mais conhecidas estão o Jipe Eficiente, maior trilha inclusiva do país, o Surf Eficiente, o Voo Eficiente, o Moto Eficiente, além de cursos gratuitos para jovens em situação de vulnerabilidade social. A operação é mantida com um orçamento mínimo e muito trabalho: “Eu coloco os deficientes no ônibus, tiro do ônibus, ponho na prancha de surf, volto com eles e ainda limpo depois. Sou o primeiro a chegar e o último a sair”, afirma Veiga.

Compromisso social que não cabe em planilhas
Ao longo da entrevista, Dom Veiga expõe a frustração com a forma como o empresariado e os governos tratam a responsabilidade social. “As pessoas só querem olhar para elas, como talvez eu, em 99, queria olhar para o meu lucro”. Ele relata tentativas frustradas de captar apoio privado e critica o uso de incentivos fiscais como desculpa para a ausência de ação efetiva. “A empresa diz que já paga imposto. Mas cobra onde está indo esse dinheiro? Não. Então não está cumprindo seu papel social”, diz.
Veiga também questiona a terceirização da responsabilidade pública. “Por que eu tenho que pegar dinheiro público para fazer uma ação com deficientes se a responsabilidade seria a dele?”. E arremata: “As empresas têm que fazer parte da comunidade. Responsabilidade social ainda é a melhor maneira de se fazer negócios”.
Dom Veiga deixa claro que sua entrega não é movida por ideologias ou promessas de salvação. “Não sigo Jesus. Eu sigo os ensinamentos de Jesus. Ele foi o maior exemplo de alguém que parou sua trajetória para cuidar do outro. E é isso que tento fazer”. Essa motivação, segundo ele, é suficiente para justificar cada ação realizada, mesmo sem reconhecimento formal. “O que me move é saber que mudo vidas. E isso me basta”.
Por que o Brasil não adota o Adote!
A grande questão que atravessa o episódio é: por que um projeto com tamanho impacto segue invisível para a sociedade e o poder público?
“Infelizmente, o Brasil ainda vê inclusão como filantropia. E não é. É direito. É justiça social”. Para Veiga, falta compromisso real. “Enquanto não entender o que é responsabilidade social, a sociedade não muda”. Ele denuncia a superficialidade de ações que visam apenas imagem: “Tem muito empresário que só faz marketing social. Não muda nada na sociedade, só aparece ali no release”.
Veiga também aborda a resistência de empresários em apoiar a causa: “Eu me desiludi com muitos amigos. Não é por falta de dinheiro, é falta de vontade”. E completa: “Empreender é você ter compromisso, é fazer a diferença. Mas muita gente ainda só vê o lucro”.
Apesar das decepções, Dom veiga mostra disposição em abrir o projeto para novas formas de financiamento, desde que com responsabilidade. Ele não quer aplausos. Quer continuidade. Ele transformou sua vida ao transformar a dos outros e agora busca garantir que esse impacto perdure. O Adote um Cidadão não é um case de sucesso para multinacional. É um grito silencioso de dignidade, escrito com coragem, suor e amor.
Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

A condução da entrevista ficou a cargo de Thiago Quirino, e contou com a participação do jornalista, redator e especialista em comunicação Sammy Eduardo. A produção e a checagem de dados ficaram por conta de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal. A edição do episódio é assinada por Rodrigo Rodrigues.
Assista ao episódio completo:
Além do canal no YouTube, a entrevista comDom Veiga, pode ser acessada pelo Spotify, Deezer, Amazon Music e também no Apple Podcasts.