ABC Cast Conexões com Ailton Bosi revela os bastidores do marketing político

O estrategista político detalha os impactos da polarização, da inteligência artificial e da legislação nas campanhas atuais

Crédito: (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

O ABC Cast Conexões recebeu o consultor e estrategista político-eleitoral Ailton Bosi em um dos episódios mais densos e urgentes da temporada. Em um Brasil atravessado pela polarização, pela guerra de narrativas e pelo avanço acelerado da inteligência artificial, a comunicação política deixou de ser apenas uma disputa por votos e passou a operar como uma engenharia complexa de dados, percepção, comportamento e risco. Ao longo da conversa, Bosi constrói um retrato preciso de como as campanhas se transformaram em verdadeiras operações de alto impacto, nas quais um gesto, uma frase ou um conteúdo manipulado podem redefinir o rumo de uma eleição em questão de horas.

A análise oferecida por Ailton Bosi desmonta a ideia de que a disputa eleitoral se resolve apenas na propaganda ou na habilidade retórica dos candidatos. Para ele, a política contemporânea é marcada por fluxos acelerados de informação, por bolhas de opinião que se retroalimentam e por um eleitor mais sensível a riscos, ataques e percepções emocionais. Nesse ambiente, o profissional que conduz uma campanha precisa compreender tecnologia, psicologia social, crises digitais e regulamentação, tudo simultaneamente.

Ailton Bosi - ABC Cast Conexões - Marketing Político
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

A conversa também evidenciou que, apesar da sofisticação das ferramentas, o centro do processo continua sendo o comportamento do eleitor. Bosi destaca que a volatilidade atual exige monitoramento contínuo, planejamento e capacidade de correção rápida. Em sua avaliação, a disputa deixou de ser linear, e cada movimento incorreto pode mudar a direção de uma campanha em poucas horas, especialmente quando há interferência de conteúdos manipulados, ruídos de comunicação e efeitos de rede amplificados pela polarização. “Hoje qualquer nuance ganha uma proporção enorme e o marqueteiro precisa estar preparado para um cenário que muda a cada 24 horas” , contextualizou o estrategista.

A nova polarização brasileira

Ailton Bosi descreve a polarização atual como um fenômeno que deixou de ser apenas político e passou a funcionar como identidade social. Segundo ele, o eleitor brasileiro hoje reage menos a propostas e mais a símbolos, pertencimento e rejeições. Esse deslocamento transforma o debate público em um campo emocionalmente tensionado, onde nuances perdem espaço e o discurso passa a operar por conexão afetiva, não necessariamente por lógica ideológica.

Esse cenário, aliás é intensificado por um ambiente de informação fragmentado. Cada grupo circula em sua própria bolha, consome conteúdos filtrados por afinidade e reforça percepções já consolidadas. “A gente não fala mais com o mesmo público. Cada grupo vive dentro de um universo de referências próprias, filtradas por afinidade, por medo ou por repulsa ao adversário”, afirma Bosi. Essa dinâmica, segundo ele, obriga campanhas a adotarem mensagens mais precisas e controladas, já que qualquer ruído pode escalar em poucos minutos.

Para o consultor, a política brasileira entrou em um ciclo permanente de tensão, no qual cada gesto carrega potencial de crise. “Hoje qualquer frase mal colocada vira munição e se espalha em velocidade que nenhum comando de campanha consegue controlar totalmente. O problema não é só o adversário; é a leitura que cada bolha faz de cada gesto”. Nesse contexto, compreender a lógica das redes e das percepções tornou-se condição básica para qualquer estratégia que pretenda sobreviver no ambiente eleitoral atual.

O peso da legislação e a linha tênue da pré-campanha

Ailton Bosi - ABC Cast Conexões - Marketing Político
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

Durante a conversa Ailton Bosi pontuou que a disputa eleitoral não é apenas comunicacional ou política, mas profundamente jurídica. A fronteira entre o que é permitido e o que é passível de sanção tornou-se mais estreita, exigindo uma leitura técnica da legislação desde os primeiros movimentos de uma possível candidatura. A pré-campanha, que antes operava em uma zona mais flexível, passou a ser um ambiente de alto risco, onde cada declaração, imagem ou postagem pode ser interpretada como antecipação do processo eleitoral.

Nesse contexto, muitos agentes ainda confundem presença pública com autorização legal. Para Bosi, esse equívoco costuma gerar erros estratégicos graves. “Você pode mostrar sua trajetória, apresentar suas ideias e se posicionar politicamente, mas não pode cruzar a linha do pedido direto de apoio. A legislação não proíbe a presença pública do pré-candidato, ela proíbe antecipar o ato eleitoral”, afirmou.

A comunicação institucional, seja de mandatos, organizações ou lideranças em trânsito eleitoral, também se submete a essa filtragem permanente. Segundo o consultor, a construção de relevância precisa ocorrer sem assumir a forma de campanha disfarçada. Ele observa que muitos deslizes acontecem quando equipes antecipam slogans, cores e tom eleitoral antes do período permitido, o que pode abrir brechas para questionamentos jurídicos e comprometer todo um planejamento de longo prazo.

Com isso, o papel do estrategista se amplia. Ele não atua apenas na definição de mensagem, mas também na interpretação e aplicação contínua das regras do jogo. Para Ailton Bosi, campanhas realmente competitivas são as que entendem que a legislação não é um obstáculo externo, mas parte estruturante da própria estratégia. Reputação, presença e narrativa continuam essenciais, mas precisam caminhar em sincronia com uma moldura legal que, hoje, tem peso equivalente ao da comunicação.

Inteligência artificial e deepfakes: a disputa que mudou de escala

Ailton Bosi observa que a eleição de 2024 marcou uma virada definitiva no uso de tecnologias digitais nas campanhas. Ferramentas de inteligência artificial ampliaram a velocidade da produção de conteúdo, a segmentação de mensagens e o grau de sofisticação das estratégias. Ao mesmo tempo, surgiu um risco em escala inédita, as deepfakes, capazes de distorcer a realidade e comprometer reputações em poucos minutos.

Segundo ele, a IA reduziu barreiras técnicas antes restritas a grandes equipes. Artes, vídeos e simulações podem ser criados quase instantaneamente, o que exige novas camadas de responsabilidade e controle. “A IA já está dentro das campanhas. A questão não é usar ou não usar, é como usar sem ferir a lei e sem manipular o eleitor. O problema começa quando alguém utiliza a tecnologia para distorcer a voz, o rosto ou a fala de uma pessoa pública”, afirma.

Ailton Bosi - ABC Cast Conexões - Marketing Político
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

As deepfakes passaram a ocupar o centro do debate eleitoral. Para Bosi, a legislação brasileira ainda corre atrás desse avanço, enquanto a circulação de conteúdos falsificados acontece em velocidade superior à capacidade de resposta da Justiça. Isso cria um cenário em que danos podem se consolidar antes de qualquer decisão judicial. Por isso, ele defende que campanhas invistam em verificação, rastreamento e protocolos internos para garantir autenticidade. A disputa passa a ser não apenas por narrativa, mas por credibilidade, e quem não compreender essa lógica corre o risco de sucumbir ao próprio ambiente digital que tenta controlar.

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Digital x Território e o futuro da comunicação eleitoral

Para Ailton Bosi, compreender o eleitorado hoje depende da integração entre o ambiente digital e a presença territorial. Campanhas restritas às redes tendem a enxergar apenas bolhas de opinião, as que ignoram o digital deixam de captar mudanças profundas de comportamento. O equilíbrio entre esses dois eixos deixou de ser diferencial e passou a ser condição básica de competitividade.

Embora as plataformas ampliem a segmentação e a leitura de dados em tempo real, ele ressalta que números não substituem a realidade do território. “A rede não revela tudo. O algoritmo mostra comportamento, mas não mostra intensidade, não mostra o que está latente. Só o território te entrega isso”. É na escuta direta que se identificam tensões, expectativas e movimentos ainda invisíveis às métricas.

Ao projetar o futuro da comunicação eleitoral, o consultor afirma que as campanhas entram em um ciclo definitivo de profissionalização. A inteligência artificial, a maior regulação das plataformas e a exigência por transparência vão cobrar equipes técnicas, coerência narrativa e responsabilidade. “O futuro da comunicação eleitoral não é sobre quem fala mais, mas sobre quem fala melhor, com consistência e responsabilidade”, pontua.

Para Ailton Bosi, a próxima década deve consolidar um novo paradigma, candidaturas que combinam técnica, narrativa, dados, território e responsabilidade. A vitória eleitoral não será fruto de um único elemento, mas da capacidade de articular diferentes frentes de maneira coerente. Ele encerra destacando que, em meio a tantas transformações tecnológicas, a política continua dependendo de algo profundamente humano, “No fim das contas, o que o eleitor quer é confiar. E confiança não se fabrica em software. Se constrói”, finaliza.

Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

Márcio Prado, Ailton Bosi e Thiago Quirino - ABC Cast Conexões
Márcio Prado, Ailton Bosi e Thiago Quirino (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

A entrevista com Ailton Bosi foi conduzida por Thiago Quirino e teve a participação de Márcio Prado, o Peninha, jornalista investigativo com mais de uma década de atuação e, que também escreve artigos sobre política para o ABCdoABC. A produção e a checagem de dados ficaram sob responsabilidade de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do ABCdoABC, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Assista ao episódio completo:

Além do canal no YouTube, a entrevista com Ailton Bosi, pode ser acessada pelo SpotifyDeezerAmazon Music e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 25/11/2025
  • Fonte: FERVER