A sustentação Homem-Aranha das defesas
Três apontando para o outro: quando a peça vira meme e o tribunal vira lente
- Publicado: 20/02/2026
- Alterado: 22/09/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Patati Patatá Circo Show
Abertura
Quem se lembra de quando as defesas começam a se acusar mutuamente, o espetáculo nasceu prematuro e com cara de gif: engraçado na superfície, melancólico por baixo. O meme dos “Homens-Aranha” apontando uns para os outros condensou tudo na primeira semana inteira: cada dedo era manchete, cada acusação cruzada um story. Viralizar julga rápido, mas só validação de pergaminho que sobe na balança.
GIF vs Pergaminho
É curioso notar como o teatro de sustentação vira, quase sempre, compacto de frases prontas — uma espécie de cardápio para consumo imediato nas timelines. Nas lembranças trazidas à tona, ouviu-se o eco de versões do tipo “foi espontâneo, não houve plano” (lembrança da defesa), todas com tom ansioso para virar manchete. Do outro lado, o momento atual do plenário cortou o verniz: votos secos como o de Xandão Moraes — “não foi um passeio no parque” (momento atual) — lembraram que um bom slogan não substitui uma cadeia de mensagens, agendas e encontros. Em resumo, a defesa apelou para a anedota: a resposta foi simples, o tribunal quiser ver então a nota fiscal.
Logo de saída vieram as lembranças — falas do passado invocadas pelos advogados e repetidas como mantras para a plateia externa. Celso Vilardi procurador e até agora procurando forma de ajudar o seu cliente, Jair Bolsonaro disse, em sustentação (lembrança): “Eu entendo a gravidade de tudo o que aconteceu no 8 de janeiro. Mas não é possível que se queira imputar a responsabilidade ao presidente […] o colocando como líder de uma organização criminosa quando ele não participou. Pelo contrário, ele a repudiou.” Tradução imediata: reconhece-se o incêndio, nega-se o isqueiro.
Outra lembrança frequente circulou em torno da defesa do general: “ataques veementes e criminosos ocorreram, mas o cliente não participou diretamente.” Lembranças assim funcionam bem nas timelines: têm empatia, nuance e hashtag. No plenário, entretanto, são apenas ecos.
Votos Desmontam
No contraponto, vieram os votos atuais, limpos e cirúrgicos, que começaram a desmontar a encenação. Alexandre de Moraes foi direto (voto atual): “Não foi um passeio no parque” — e advertiu que “esse viés de positividade faz com que, aos poucos, relativizemos isso”. Flávio Dino, no voto (momento atual), resumiu com um corte seco: “Golpe de Estado mata.” Cristiano Zanin trouxe a pílula técnica que desmonta a retórica (voto atual): “Longe de ser uma denúncia amparada exclusivamente em delação premiada, o que temos aqui são diversos documentos, vídeos, dispositivos e materiais que dão amparo àquilo que foi apresentado pela acusação.”
A estratégia defensiva foi previsível: dividir a cena. “Não fui eu”, “não há prova direta”, “isso é narrativa política”, “suspeição aqui, incompetência ali”. Em sustentações orais, apareceu a tese de “document dump” — provas entregues em volume para confundir — e pedidos de impedimento de ministros, tudo para transformar o tribunal em monólogo e a prova em coadjuvante.
O desmonte das defesas ficou ainda mais evidente quando os ministros passaram a expor, um a um, as fragilidades dos argumentos apresentados. Em vez de se perderem em narrativas ou tecnicalidades, os votos concentraram-se na desconstrução paciente do que era alegado pela defesa, examinando documentos, cruzando informações e apontando contradições entre os discursos públicos e o conteúdo das provas.
Cada ministro, com sua abordagem própria, destacou que a tentativa de transformar o julgamento em espetáculo midiático não resistia ao rigor da análise factual. O tribunal, então, não apenas rejeitou as teses de suspeição e incompetência, como também mostrou que o volume de provas não atrapalhava, mas enriquecia a compreensão dos fatos. O resultado foi uma resposta institucional clara: diante de evidências concretas, as defesas não se sustentaram, perdendo espaço para a contundência ao invés do malabares jurídicos.
Da Retórica à Perícia
Assim o tribunal responde no compasso do ofício: pede data, hora, formato, cadeia de custódia. Transforma retórica em checagem. Onde havia vídeo, exige metadados, onde havia mensagens, requer autenticação — onde havia delação, pediu cotejo documental. A peça midiática desceu do palco e foi para a sala de perícia. A grande diferença entre quem faz espetáculo e quem faz prova entrou em cena.
O episódio que atravessou a tela também teve desdobramentos práticos: quando a defesa afirmou que “se tentou demover o presidente”, a ministra Cármen Lúcia soltou a pergunta que virou refrão (momento atual): “Demover de quê?” A resposta do advogado — vaga — ficou no ar. Esse vazio passou a ser preenchido por fatos: reuniões, minutas, ordens em rascunho. O “demover” virou contradição, não explicação.
Há uma camada psicológica que cabe em crônica de botequim: apontar demais é confessar uma vizinhança. Quem só diz “foi ele” está, na verdade, desenhando a própria teia. No mundinho jurídico, cada acusação cruzada que tenta isolar o autor acaba expondo ligações. O advogado que grita mais alto nas redes não convence a cadeia de custódia.
Nas praças públicas digitais, o meme riu e multiplicou. Nos bastidores, os ministros refinaram a peça técnica. Moraes, Cármen Lúcia, Zanin e outros transformaram suspeitas em requisições precisas. “Não basta alegar; prove”, virou compasso. E as provas, quando organizadas, são resistentes ao riso.
No jogo político, a tática de espalhar dúvida teve efeito: alimentou narrativas favoráveis, manteve bases mobilizadas e gerou conteúdo para quem precisa de síntese rápida. No tribunal, em contrapartida, a fragmentação não salvou defesas. Quando a acusação apresentou cronologia de encontros, troca de mensagens e ordens, o diapasão mudou: o que era performance virou objeto de investigação; teatro vira evidência quando filmado, filmagem vira prova quando rastreada.
Não é que a defesa não tenha jogado bem: ganhou manchetes, memes e mobilização. Perdeu, porém, ao confrontar técnicos. A diferença é que no jornal o aplauso vale: no processo, vale a conexão. O tribunal não condena quem tem plateia — condena quem tem prova.
E há uma ironia que só a vida oferece: as falas celebradas como bons slogans — “repudiou”, “não participou” — tornaram-se lembretes inconvenientes quando emparelhadas com agendas e mensagens. A confissão que não era confissão transformou-se em prova circunstancial. Se o palco serviu pra mostrar a máscara, coube ao tribunal, revelar os rosto por trás.
No fim, o balanço é prático e amargo: a defesa Homem-Aranha formalizou uma coreografia midiática eficaz — e assim, o STF ia respondendo com paciência cartográfica, desfiando mapas de encontros, planilhas de horários e trajetos. Quem apontou muito acabou sendo mapeado. O riso ficou; a sentença, não.
E para que o leitor sinta o cheiro do cotidiano: imagine o advogado como aquele tio Ben que na ceia fala alto para convencer a família. Nas redes, herói. Diante das provas, virou só amigo secreto que esqueceu do presente. No açougue da retórica, muitos chegaram com faca e de novo, o tribunal pediu o básico: recibo. No lar, a dona de casa é a tia May, que viu tudo na TV pela cozinha e ainda comentou na cozinha com o sobrinho que tinha mais paciência para os fatos que para slogans. Ministros relembraram novamente de quando as defesas dispuseram de meses para analisar provas — e que não se pode usar isso como álibi. Em audiência, a advertência ecoou: “vocês tiveram tempo suficiente para examinar os autos.” A mala de documentos não é desculpa para ausência de nexo.
Então, politicamente, o estrago atuou em dois palcos: lá fora o refrão viral virou hino — aqui dentro, nasceu um mapa de culpas. Se a plateia aplaude em GIFs, o tribunal abre pastas, busca marcas de tempo/hora/dia e coteja agendas reais. Papel é tudo e nada — áudio vazado que respira, print com carimbo. E tem mais, GPS desenha passos, falas que viram rastros. Sozinho, o papel só serve pra aponta o dedo. Se casado com testemunha, metadado e perícia, o dedo vira martelo. Máscara é espetáculo e assinatura é sentença — e mesmo heróis como Peter Parker, que convivem com identidade dupla, aprendem que esconder o rosto não substitui o papel que cumprem.
Apontar demais é confessar a vizinhança. E quem grita “foi ele”, também desenha seu mapa. Na crônica jurídica, cada gesto vira evidência para os homens da capa preta, o que conta não é quem faz barulho. Teatro diverte a plateia, mas só carimbo convence cabeça de juiz, então sentença não se escreve com slogan. Em suma, o balanço é tão prático quanto amargo: a defesa Homem-Aranha formalizou uma coreografia midiática com dedos e teias de gritos histriônicos, eficaz? E assim o STF respondeu, com paciência cartográfica, desfiando mapas de encontros vilanescos, planilhas de horários e trajetos. Quem apontou muito acabou sendo mapeado. O riso ficou. A sentença, não.
Papel: O Registro que pesa
De um eucalipto das arvores nascem a matéria prima da “prova”, porém não é só folha: é áudio vazado que carrega respiração, é geolocalização salva num dispositivo que desenha trajeto, é a fala desastrada capturada que, de rumor passou a ser rastro. Papel é mapa, print, log, gravação — metadados que têm data, hora, sinal e testemunha — é a pequena prova que pede companhia para virar prova pesada. Mas não se engane: papel sozinho apenas aponta o dedo. Só quando se encaixa com outros elementos — que, casam testemunhas e confirmam, agendas que se cruzam — é que o dedo deixa de ser gesto e vira martelo.
E, para fechar: que fique registrada a lição: nao existe arte solitária como a do teatro de esticar indica a dor — conta também esticada direção de cheiro e desejo de um brinquedo que queria muito ser menino e trazer as evidências sem Xororó. E sim, elas podem coexistir na mesma realidade, contudo, só prova crua é quem fecha veredito. E que sirva de aviso para quem acha que basta discurso e retórica de ginastica jurídica de vilão que entrega os planos pra mocinho antes de fugir, nada torna “factoide” em realidade — na república, máscara não tem assinatura em cartório —, na prática só papel é quem sente, e pousa de martelo pesado sem medo da senhora justiça espiar por detrás da venda, mas sobretudo, pesa. Ou seja, muito mais que malabarismo verborrágico de uma tônica não muda: no tribunal, o peso do escrito é quem manda na toga.