A senhora do elevador e o chacoalhão filosófico
Entre a pressa de uma manhã comum e uma resposta atravessada, surgiu uma reflexão inesperada sobre costume, conformismo e liberdade
- Publicado: 30/03/2026 14:25
- Alterado: 30/03/2026 14:25
- Autor: Paola Zanei
- Fonte: Assessoria
Sexta-feira, véspera de feriado, eu toda prosa esperando o elevador em mais uma manhã normal de trabalho, como sempre, há muitos anos. Mas logo cedo levei um chacoalhão filosófico e eu, que não sou de deixar passar batida a oportunidade de pensar na vida, me arrepiei até a nuca. Vamos à história, voltando ao elevador.
Alguns minutos de espera, algumas pessoas aguardando aborrecidas e nada de passar um elevador subindo. Isso é bem comum. Eles sempre sobem cheios. Então quando parou um elevador que descia, eu entrei. Isso é muito normal também no meu trabalho. Costuma ser o único jeito para abreviar a espera pelo elevador. Quiçá, nos horários de pico, o único jeito de subir. O resultado é que, muitas vezes, ao chegar ao solo, não há mais espaço para pessoas que estão aguardando entrarem. Todo a capacidade do elevador já está preenchida por quem desceu para subir. Deu para entender?
Mas nesse dia, quando fui entrar para descer para subir, chamei uma senhora que aguardava há algum tempo. “Não quer descer, senhora? É mais garantido que consiga subir”. E, pasmem, ela respondeu: “Não. Quero fazer a coisa como tem que ser! Pegar o elevador subindo para subir! COERÇÃO SOCIAL LOGO CEDO NÃO DÁ!!!!!”, disse ela, em tom de revolta.
Eu não entendi nada, mas algo me dizia – talvez lembrança remotas da escola – que era importante saber o que aquilo significava. Fui ao Google me informar. A melhor resposta segundo o site é: coerção social é a força que os fatos exercem sobre os indivíduos, levando-os a conformar-se às regras da sociedade em que vivem, independentemente de sua vontade e escolha.
Caramba, não é que, apesar de radical, aquela senhora tinha razão? E fiquei pensando na quantidade de situações que a gente acaba aceitando como naturais, para não se aborrecer, para a vida ser menos irritante, para não brigarmos toda hora e perdermos preciosos momentos de paz de espírito.
Que revelação! Marina Colasanti em seu brilhante texto já me disse: “A gente se acostuma, mas não devia!”. Ela fala, também, de coerção social, agora eu sei. O que eu não sei é se conseguirei lutar contra ela com unhas e dentes como aquela senhora do elevador. Pretendo tentar, ao menos.
“…A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma”.
Marina Colasanti.