A queda de Daniel Vorcaro e o colapso do Banco Master

Operações da Polícia Federal, bloqueio bilionário de bens e a liquidação extrajudicial da instituição marcam a derrocada do banqueiro

Crédito: (Divulgação)

O nome de Daniel Vorcaro deixou de circular apenas nos bastidores do mercado financeiro para ocupar o centro do noticiário político, econômico e policial do país. O banqueiro, controlador do Banco Master, passou a ser investigado em uma série de frentes que envolvem o Banco Central, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal, o Tribunal de Contas da União e o Supremo Tribunal Federal.

O ponto de inflexão ocorreu quando alertas sobre a sustentabilidade do modelo de negócios do Banco Master se intensificaram. A instituição, que havia crescido rapidamente nos anos anteriores, entrou no radar das autoridades reguladoras diante de indícios de desequilíbrio financeiro, operações de risco elevado e possível descompasso entre captação e lastro dos ativos.

O que começou como um processo técnico de supervisão bancária ganhou contornos criminais. A investigação evoluiu para a Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, que passou a apurar suspeitas de fraudes financeiras estruturadas, gestão temerária e possíveis desvios de recursos envolvendo o banco e empresas conectadas ao seu controlador.

Da primeira prisão à nova ofensiva da Polícia Federal

Banco Master - Daniel Vorcaro
(Divulgação)

Em novembro de 2025, Daniel Vorcaro foi preso preventivamente no Aeroporto Internacional de Guarulhos, no momento em que tentava embarcar para Dubai. À época, a defesa sustentou que a viagem tinha caráter profissional e negou qualquer intenção de fuga. Vorcaro permaneceu preso por 11 dias, sendo liberado no fim de novembro, com imposição de medidas cautelares.

Agora, em janeiro de 2026, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Compliance Zero, cumprindo mandados de busca e apreensão que atingiram Daniel Vorcaro, familiares diretos e outros agentes do mercado financeiro. O novo avanço da operação deixou claro que os investigadores passaram a tratar o caso não apenas como um problema de má gestão bancária, mas como um possível esquema estruturado de ilícitos financeiros.

Além de Daniel Vorcaro, a operação alcançou nomes como o empresário Nelson Tanure e João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos, gestora que administrava fundos agora sob suspeita de participação em operações irregulares.

Existe ainda um componente que não pode ser tratado como nota de rodapé. A diferença entre o que se via na superfície e o que começou a emergir com as apurações produziu indignação e virou parte do desgaste. Relatos sobre faturas mensais milionárias em cartões de crédito de Daniel Vorcaro e despesas associadas a marcas e serviços de luxo passaram a ser citados como pontos de atenção após quebras de sigilo.

Escalada institucional

O avanço mais contundente veio com a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Em despacho de 6 de janeiro, Toffoli autorizou a quebra de sigilos bancário e fiscal de Daniel Vorcaro e diversos investigados e determinou o bloqueio e sequestro de bens que podem ultrapassar R$ 5,7 bilhões.

Ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O texto judicial, baseado em relatórios da Polícia Federal e manifestações da Procuradoria-Geral da República, descreve um cenário de extrema gravidade. Segundo os investigadores, há “indícios consistentes” da atuação de uma organização criminosa voltada à gestão fraudulenta de instituições financeiras, com uso de fundos de investimento, estruturas societárias cruzadas e vínculos familiares para ocultar a origem e o destino de recursos.

A decisão aponta práticas como indução de investidores ao erro, manipulação de ativos, conflitos de interesse, uso de informações privilegiadas e lavagem de dinheiro. Também destaca que essas operações teriam se repetido ao longo do tempo, indicando método, planejamento e continuidade, e não episódios isolados.

Quem é Daniel Vorcaro e como construiu seu império

Daniel Vorcaro, hoje com 42 anos, sempre se apresentou como alguém fora do eixo tradicional da elite financeira da Faria Lima. Filho de empresário do setor da construção civil, formou-se em Economia, cursou MBA em Finanças e ingressou no sistema bancário ao assumir, em 2016, o controle do então combalido Banco Máxima.

A virada veio em 2021, com o rebatismo da instituição para Banco Master. A partir daí, Daniel Vorcaro adotou uma estratégia agressiva de crescimento, baseada em aquisições, expansão digital e forte captação de recursos no mercado. O banco passou a oferecer produtos com rendimentos elevados, o que atraiu milhares de investidores.

Banco Master - Daniel Vorcaro
Daniel Vorcaro (Divulgação)

Paralelamente, Daniel Vorcaro construiu uma imagem pública marcada por ostentação e exposição. Tornou-se cotista de empreendimentos de alto padrão, investiu em ativos imobiliários de luxo e passou a frequentar o noticiário social. No esporte, aportou cerca de R$ 200 milhões no Atlético Mineiro, tornando-se um dos principais acionistas da SAF do clube.

Esse contraste entre ascensão meteórica, exposição pessoal e a crescente deterioração financeira do banco passou a incomodar reguladores e analistas do mercado.

O “plano BRB” e por que a solução ruiu antes de virar resgate

Banco Master - BRB - Daniel Vorcaro
(Montagem/ABCdoABC)

Quando a crise do Banco Master se tornou incontornável, a possibilidade de uma operação envolvendo o BRB passou a ser tratada como uma saída para evitar um desfecho traumático. A proposta, porém, nasceu cercada por dúvidas sobre a qualidade e a composição das carteiras que sustentariam o acordo, além do temor de que uma solução formal transferisse risco para outros elos do sistema. O que começou como tentativa de ponte para atravessar a turbulência acabou virando mais uma frente de suspeita e, na prática, não se consolidou como resgate.

O episódio também escancarou um ponto sensível que costuma aparecer tarde demais em crises bancárias. A confiança de parte dos investidores foi capturada por um tipo de raciocínio automático, no qual a remuneração agressiva se somava à sensação de proteção oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos. A preocupação com o efeito dessa dinâmica cresceu à medida que a crise avançava, porque ela transforma uma quebra empresarial em problema social, com um contingente expressivo de pessoas aguardando ressarcimento dentro das regras do fundo e com valores bilionários circulando na expectativa de cobertura.

Em Brasília, o caso ganhou temperatura quando autoridades passaram a tratá-lo como algo fora da curva. Declarações públicas elevaram o nível de atenção e deixaram um recado direto. A mensagem subentendida foi a de que não se tratava de uma crise que poderia ser administrada com silêncio, negociação discreta ou solução improvisada.

Efeito dominó chega ao Will Bank

Will Bank - Banco Master - Daniel Vorcaro
(Divulgação)

A crise ganhou um capítulo novo e simbólico em 21 de janeiro de 2026, quando o Banco Central anunciou a liquidação extrajudicial da Will Financeira, conhecida como Will Bank. A decisão foi atribuída à deterioração do quadro econômico da instituição e à incapacidade de honrar compromissos, num contexto em que a ligação com o ecossistema do Banco Master, de Daniel Vorcaro, já havia colocado o banco digital sob um regime especial de administração e sob tentativas de reorganização que não se mostraram suficientes para manter a operação de pé.

O desfecho trouxe um elemento operacional que, para bancos digitais, costuma ser fatal. Houve relato de que a Mastercard apontou inadimplência de obrigações da emissora, o que levou a restrições no ecossistema de cartões e ampliou a percepção de inviabilidade. Quando esse tipo de engrenagem trava, o impacto atinge diretamente o cotidiano do cliente. Interrompe pagamentos, paralisa rotinas, acelera a corrida por liquidez e empurra o regulador a agir com máxima dureza para reduzir o dano sistêmico.

No fim, a conta criada por Daniel Vorcaro volta para o mesmo ponto de tensão. O Fundo Garantidor de Créditos aparece novamente como rede de proteção, com menções ao impacto potencial bilionário e ao limite de cobertura por CPF ou CNPJ.

A defesa e oitivas

Outro movimento que muda o clima do caso é a reconfiguração jurídica. Em 21 de janeiro de 2026, foi noticiada a saída do advogado Walfrido Warde da defesa de Daniel Vorcaro, com a informação de que a atuação passaria a ser dividida entre escritórios distintos, em frentes que envolvem STF, TCU, Banco Central e aspectos internacionais. A defesa negou que exista tratativa de delação, depois de especulações que circularam junto à notícia da saída, e reiterou a estratégia de contestar as acusações dentro do devido processo legal.

No mesmo contexto, foi registrado que o ministro Dias Toffoli marcou depoimentos para 26 e 27 de janeiro de 2026 e autorizou acesso aos autos para as defesas. É o tipo de etapa em que casos desse porte mudam de patamar, porque a história começa a ser escrita menos por versões e mais por prova, por isso, a partir daqui, cada linha tende a pesar mais.

O que já se pode afirmar, com segurança, é que o caso do Banco Master deixou de ser apenas uma crise bancária. Ele virou uma radiografia incômoda do sistema, da fiscalização ao momento em que o regulador intervém, do alcance de investigações ao custo final para o país. Daniel Vorcaro permanece no centro desse processo, agora menos como símbolo de ascensão e mais como personagem principal de uma disputa que promete ser longa, ruidosa e decisiva para a régua de responsabilização do mercado financeiro brasileiro.

  • Publicado: 03/02/2026
  • Alterado: 03/02/2026
  • Autor: 23/01/2026
  • Fonte: Pocah