A Papudinha lhe Espera, Bolsonaro

Boa estadia, com direito a debate público sobre o travesseiro

Crédito: Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Abertura


Lindo domingão de Café com Cinismo, a semana já chegou com espuma de escândalo e gosto de requentado: sim, meu caros cinismers, Jair Bolsonaro foi pra Papuda. E pronto, agora o Brasil se transformou num guia turístico de cela, com comentarista debatendo ventilação e corredor como se fosse suíte de resort. Aqui a gente mexe o açúcar do absurdo e ele continua amargo, porque a cadeia vira pauta de lifestyle quando o preso tem sobrenome, advogado com agenda e plateia fiel. Mesmo com café chega curto, vem com privilégio longo, veio assim a manchete da mudança de endereço do ex-presidente, virou “cobertura especial”. 

E assim, do mesmo jeito que a gente acompanha o preço do arroz, monitora de pertinho a metragem da cela do ex-presidente, como se fosse anúncio imobiliário narrado por jurista e fofoqueiro em dupla sertaneja. E enquanto a Papuda vira assunto de mesa, com debate sobre “condições”, como se xilindró tivesse room service, o resto do povo segue no mesmo aperto de sempre — tentando trocar o sofá da vida com moeda contada e fé amassada. Porque aqui o absurdo não é só acontecer: é virar entretenimento, e ainda cobrar couvert.

E falando em sofá, se ajeita nessa coisa que você insiste em chama assim, que já pediu aposentadoria faz tempo, mas o INSS jurou que “tá em análise” e ainda descontou uma taxa de conforto sem você assinar nada. Então corre pra toma logo na xícara e não virar o bule goela a abaixo, que o nosso cinismo tá de volta na praça, e não armou a barraca, mas já tá servindo café passado na pressa, com privilégio em porcelana e sem açúcar!

* * *

E aqui começamos falando sobre a principal notícia da semana, que sim, é simples e absurda ao mesmo tempo: Bolsonaro mudou de prisão. Sai da PF, entra na Papudinha, e Brasília trata isso como se fosse troca de hotel, com direito a planta do quarto, lista de facilidades e discussão sobre “condições” como se cadeia tivesse menu degustação. O país amanhece com um ex-presidente sendo deslocado no mapa do privilégio, e o mapa vira manchete, porque aqui a exceção sempre rende mais do que a regra.

E aí acontece a mágica brasileira: um detalhe administrativo vira folhetim nacional, e o resto do mundo real fica esperando na antessala. No mesmo roteiro, tem CPMI do INSS, tem moral em modo megafone, tem dedo em riste e plateia escolhendo lado antes de ler qualquer papel. Só que, por cima de tudo, a cena que gruda é a mudança de endereço do famoso, porque o Brasil se especializou em acompanhar o conforto do personagem e ignorar a fila do figurante.

Bolsonaro vai para a Papudinha e, de repente, o debate público vira “como é lá”, “o que pode”, “o que não pode”, “o que é digno”, como se dignidade fosse um item extra, vendido só para quem tem sobrenome político e advogado com agenda. Enquanto isso, o aposentado roubado segue com o bolso furado e o preso comum segue com o corpo esquecido, mas sem tour guiado e sem manchete com adjetivo.

A lista santa e o dedo indicador

Com Bolsonaro sendo transferido da PF para a Papudinha, a política aproveita o barulho e põe outro palco para funcionar ao mesmo tempo: a CPMI do INSS. E no modo “comunista”, chega uma certa senadora com uma porrada de nomes e endereços debaixo do braço e ao chamar de transparência, leva um dedo em riste, como se o plenário virasse confessionário e a manchete fosse absolvição. O problema não é investigar, é transformar investigação em espetáculo, porque espetáculo compete com a Papudinha na mesma prateleira de audiência que Damares Alves.

Há um vício em misturar moral com método policial, e o resultado costuma ser ruim para todo mundo. Quem frauda aposentado merece cadeia, ponto final, mas cadeia com prova, rito e contraditório, não com dedo e slogan. Só que o país está ocupado demais debatendo a mudança de endereço do ex-presidente para ter paciência com o chato, e o chato é exatamente onde mora a verdade do INSS: sistema, senha, assinatura, intermediário, dinheiro.

Caricatura de Malafaia apontando e gritando para Damares em cenário de CPMI, com senadores e lista em destaque.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

O empurrão de Silas Malafaia funciona como gatilho narrativo perfeito, porque ele também entende de palco, e palco é o que não falta quando o tema da Papudinha urge feito pauta quente em manhã de Brasília, dessas que começam como despacho e terminam como novela boa da Record. Ele cobra, ela responde, e o público escolhe lado antes de ver documento, do mesmo jeito que escolhe lado antes de entender o que significa um preso famoso sair da PF e ir para um batalhão. Assim tudo se torna um “persegue a igreja” contra “passa pano para pastor”, e a apuração vira fumaça, como se o país precisasse de neblina para não enxergar o óbvio.

O Brasil já viu esse filme com sindicato, ONG, partido e igreja, como qualquer coisa que sirva de totem na guerra cultural. Num passe de mágica, uma acusação, facinho vira moralização, e defesa vira vitimismo, e desse jeito, a verdade fica na fila do protocolo, esperando, enquanto a Papudinha vira trend. Transparência não é jogar nome ao vento, é explicar nexo, evidência e responsabilidade, do mesmo jeito que notícia não é tour de cela de presidiário que reclama do ar-condicionado, e do jeito mais calhorda possível, encontra um jeito de nos fazer entender por que a exceção sempre encontra um jeito de se acomodar na regra.

O INSS como caixa eletrônico de crença

A CPMI do INSS é necessária, porque o golpe no aposentado tem crueldade de manual. Mexer no benefício de quem vive contando moeda é roubar tempo de vida, e isso deveria ser maior que qualquer novela de transferência, maior que qualquer disputa sobre a Papudinha. De todo modo, o que nos temos de fato é uma apuração que mais do que achar culpados, virou guerra cultural de lados, e a fraude se traveste de pretexto para sermão barato, enquanto o país se distrai com o “novo endereço” de Bolsonaro como se isso explicasse o Brasil.

Fraude previdenciária não nasce em altar ou gabinete, nasce na zona cinzenta do acesso e facilitação. Tem assinatura, tem senha, tem sistema, tem carimbo, tem gente que sabe onde apertar, e essa gente adora quando o noticiário troca planilha por travesseiro. Se houver templo envolvido, responda, mas responda com prova, porque o crime gosta de barulho lateral, e a Papudinha, hoje, é o barulho perfeito para esconder o miolo.

Caricatura de idoso usando caixa do INSS enquanto dinheiro sai de balcão de doações ligado a igrejas.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Há o efeito colateral: o fiel comum, que não desviou um centavo, passa a ser tratado como cúmplice, porque generalização dá clique e clique paga a festa do debate. Do outro lado, tem líder religioso que usa a comunidade como escudo, como se “ataque à instituição” apagasse CPF, o sujeito adora uma pose de ofendido profissional, mas uma hora a conta chega, porque o boleto da realidade não aceita “amém” como comprovante.

E, quando a Polícia Federal resolver bater na porta, não vai ser pra pedir bênção nem tirar selfie, vai ser um “bom dia” de repartição com mandado na mão e a calma de quem já viu o milagre virar planilha, bem como antigamente, quando a gente media o estrago do cartão pela grossura do envelope que chegava.

A lei não reza, ela verifica, e cadeia não deveria ser um pacote customizável, mas é isso que a transferência de um ex-presidente na Papudinha escancara sem precisar de discurso. Aqui, até o castigo tem manual de instruções e versão “premium”, com cláusula de conforto e nota oficial. O resto cumpre pena de verdade, sem legenda, sem porcelana e sem ninguém perguntando se o travesseiro é “adequado”.

No fim, a CPMI decide se quer ser instrumento de Estado ou ringue de narrativa. Se virar ringue, a fraude agradece e continua cobrando taxa clandestina de silêncio, enquanto a plateia discute a vida do preso ilustre. Se virar instrumento, vai encarar o impopular: rastrear dinheiro, cruzar dados, ouvir técnico e desagradar aliado. E vai ter de dizer, sem metáfora, quem lucrou com o sofrimento do aposentado, mesmo que isso não renda metade da curiosidade que rende a palavra Papuda no diminutivo.

Próxima parada, Papudinha

O careca mandou e agora não tem mais jeito. Bolsonaro saiu da Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal e foi direto para o 19º Batalhão da PM, a Papudinha, dentro do Complexo da Papuda. A ordem é do Xandão de Moraes, e o país reage como se estivesse acompanhando mudança de apartamento de celebridade: onde fica, como é por dentro, o que tem, o que não tem, se cabe, se ventila, se “acomoda”. A prisão, que deveria ser uma circunstância jurídica, vira decoração de debate público.

No pacote, entra a sala de Estado-Maior, esse eufemismo brasileiro que sempre chega antes da palavra “cela”, como se o idioma também pedisse licença para não ser igualitário. O STF diz que é equivalente à de Anderson Torres e Silvinei Vasques, que comporta quatro, mas será exclusiva para Bolsonaro, como se exclusividade fosse um detalhe técnico e não um traço cultural. A Papudinha aparece descrita como unidade menor e mais controlada, com alojamentos coletivos, banheiro, cozinha, lavanderia, quarto e sala, reformada em 2020, praticamente um “tour do privilégio” em tom burocrático.


Vem junto a lista de assistências e autorizações, porque no Brasil a exceção não acontece: ela vem com checklist, carimbo e aquele ar de “favor institucional” bem explicado. É um festival de itens, quase um encarte de supermercado do privilégio: médico particular credenciado, plantão 24 horas, “qualquer coisa avisa o STF”. Sem falar que a fisioterapia já tá marcada, porque até a dor, no Brasil, tem agenda quando é dor famosa.

A comida especial chega por emissário da defesa, numa cena que parece entrega de restaurante, só faltando o motoboy pedir “cinco estrelas”, além de uma barra de apoio, grade na cama, esteira e bicicleta, pra manter o shape da narrativa e o cardio da vitimização.

O sujeito tem até visita semanal da família, assistência religiosa pra manter a culpa em dia, autorização pra leitura e, pra fechar o pacote, uma junta médica oficial, só pra ninguém dizer que faltou humanidade, como se humanidade por aqui fosse serviço opcional, ativado conforme o sobrenome.

A cela ganha protocolo de hotelaria e a punição vira pacote regulado, desses que vêm com manual, telefone útil e garantia estendida. É o Estado tentando equilibrar o básico com a vitrine, e a vitrine sempre chamando mais atenção do que o básico. Assim o Estado segue rebatendo feito ping-pong os mesmos delírios, como ter de encaminhar um novo pedido de prisão domiciliar, mas como sempre a gente bem sabe: o choro é livre, Bolsonaro, não.

E, como um topo da cereja da semana, Moraes rejeita o pedido de Smart TV, e a frase que vem é pra ser talhada: “não é hotel, nem colônia de férias”, que automaticamente vira slogan, como se o óbvio precisasse de cartaz. Só que o cartaz, no fundo, não é para o preso, é para um público de eleitor que agora virou audiência de reality, que está acostumado a ver prisão virar cenário e regra virar regalia com cara de direito. A notícia principal é a transferência para a Papudinha, mas o subtexto é o mesmo de sempre: aqui a igualdade morre de tédio e a exceção morre de sucesso.

Assunção, Itamaraty e a diplomacia que foge da foto

Enquanto a Papudinha vira guia turístico de cela e a República comenta barras de apoio como se fosse decoração de quarto, Lula resolveu fazer o contrário: antecipou o clique e se viu fora da fotografia. O acordo Mercosul-União Europeia assinado em Assunção, mas ele chamou Ursula von der Leyen no Itamaraty do Rio, como quem diz que a festa pode ser no Paraguai, mas o buffet, o salão e o anfitrião continuam sendo o Brasil. E, convenhamos, no Brasil até o multilateralismo precisa de cenografia, porque sem cenário a gente desconfia que é trabalho.

Teve também uma espécie de protesto, que é nosso esporte nacional depois do futebol e antes do imposto. O Paraguai, na presidência do Mercosul, tinha armado toda a pompa e circunstância de uma cerimônia que deveria ser apenas para chanceleres, aquele formato discreto, de carimbo e cafezinho. Aí, na última hora, se decidiu puxar também os presidentes para a foto, como quem muda o elenco porque lembrou que tem plateia assistindo.

Entretanto, a celeuma se criou quando Lula percebeu o movimento de última hora e decidiu não ir: faltou aos parabéns da própria festa só pra lembrar, com aquela elegância birrenta de quem paga o bolo, que também escolhe a vela. Ficou fora do foco, sim, mas longe do esquecimento, porque no Mercosul a ausência também assina a ata e ainda sai na foto, só que como fantasma bem vestido.

Assim, coube a Mauro Vieira que lá esteve, junto de Santiago Peña, Javier Milei, Yamandú Orsi e Rodrigo Paz, e assim, com gosto meio azedo, deixou sua ausência como recado: “a assinatura é coletiva, mas o esforço foi meu”. O Brasil, quando não domina a foto, tenta ao menos dominar a legenda. Essa é a terra de Cabral, um lar onde legenda vale tanto as joias furtadas pelo próprio Estado: é quase um decreto, porque explica o que a imagem não entrega e ainda dá a impressão de comando. No fim, a diplomacia brasileira é isso: se não dá pra entrar no enquadramento, a gente puxa a câmera pelo texto e estica a frase até caber no quadro.

E nesse “bolo amargo” rolou fatias com cara de pacote brasileiro. Teve França e Irlanda travando, teve Itália virando voto com Giorgia Meloni, teve 25 anos de negociação, e pintou ainda o detalhe de Argentina e Uruguai fazendo cara de picolé de chuchu de Geraldo Alckmin que até comentou o encontro. Nesse tédio, em vários momentos, parecia que os dois hermanos estavam ali como quem acha o tal acordo fosse um mero “assunto do adulto na sala”.

Lula aparece para dizer que é bom para o Brasil, para o Mercosul, para a Europa e para o “mundo democrático”, porque agora o planeta virou uma disputa de catecismo geopolítico: de um lado, o multilateralismo. Enquanto do outro, a tentação do porrete. E, no meio de tudo, teve a gente tentando lembrar que comércio não é só soja e minério, é também emprego, indústria, inovação e a vontade de não ser sempre o primo pobre que leva a marmita.

Ursula agradeceu o “compromisso pessoal” e a “paixão” de Lula, e ainda emendou terras raras, lítio, níquel, transição energética, como quem oferece futuro em prestações com juros europeus e garantia brasileira. É curioso: na cela, a frase da semana foi “não é hotel”. Na diplomacia, o mundo inteiro finge que é sala VIP. E talvez a conclusão seja a mais cotidiana possível, como um piano sob o sol a para do RJ com farofa ao fundo e um sabor de irritação com caipirinha de limão estragado no canto.

E de quebra, uma regra que até pode valer para todo mundo (no papel), mas na foto oficial, não. A foto oficial tem hierarquia própria, gravata apertada e luz igualmente própria. Até porque, de retrato oficialesco – no fundo, diferente do verdadeiro “cômodo” da Papudinha, nada foi maior que o bode na sala da foto de Estado-Maior do planeta: ninguém cumpre pena, bem melhor, ali todo mundo cumpriu mesmo… foi pose.

Smart TV na cela do palco e o fetiche do conforto

Depois que Bolsonaro mudou de casa carcerária e o país acompanhou a mudança como se fosse tal fosse prova da resistência, a Smart TV virou um símbolo perfeito do delírio. A PGR que negou o pedido de televisão (de sua já antiga cela), mais uma frase curta acabou virando debate nacional, porque aqui conforto dá audiência e audiência faz o resto parecer tudo secundário. O argumento implícito é: preso precisa de “condições”, como se condição fosse upgrade, e não o mínimo civilizatório que deveria valer para qualquer um, inclusive para quem nunca vai ouvir a palavra Papudinha na vida.

Nossa política é nada mais que um cassino sem relógio, onde a banca sempre ganha e o público ainda discute o design das fichas. É um irretocável paraíso de material bruto onde até o humor entra em greve por excesso de serviço. É nele em que discutimos a imagem de uma Smart TV, como se a dignidade viesse com controle remoto e a punição tivesse versão premium, e aí o tema, escancara desigualdade sem precisar de gráfico em 4K.

Tem gente presa que mal enxerga o sol, quanto mais a tela, e não aparece no noticiário, não ganha explicação sobre a cela, não vira pauta de “como é por dentro”. Quando o personagem é famoso, o detalhe vira manchete, e a polegada da televisão compete com a realidade do sistema prisional. A transferência para a Papudinha amplifica ainda mais a disparidade: e ademais, não cria exatamente o privilégio, mas só coloca luz de estúdio com ar-condicionado agressivo sobre ele.

A PGR, ao negar, faz o que se espera do óbvio, mas o óbvio aqui é tratado como provocação. Quem defende o pedido vende a ideia de que negar é vingança, como se regra fosse maldade. Quem comemora a negativa vende a ideia de que isso resolve o país, como se justiça fosse um meme de vitória. No meio, o sistema prisional real segue laboratório de violência cotidiana, e a Smart TV vira espelho: mostra quem tem acesso ao pedido e quem nem sabe que existe pedido possível.

E há o detalhe de época: o bolsonarismo adora a estética do “perseguido com conforto”. É o mártir com assessoria, o rebelde com gabinete, o outsider com manual de exceções, e agora com mudança de prisão para a Papudinha, tudo vira narrativa de sofrimento controlado. A cela se torna cenário, não punição, e qualquer limite vira prova de complô. O Estado, meio que entre trancos e barra(n)cos tenta dizer: “gente, menos teatro”, mas o palco já tá montado, e a plateia não gosta quando apagam a luz. O que resta pra nós: merda.

Encerramento | Entre púlpitos e celas, o país do atalho

Sai a Superintendência da PF, entra a Papudinha, e pronto: a República vira um tour guiado de instalação pública, com gente discutindo corredor, cama, visita e até o travesseiro, como se fosse o Airbnb da impunidade. A notícia é objetiva, mas a reação é sempre carnavalesca, ou seja, quando o preso tem sobrenome político, a cela vira cenário. Se não tem, vira buraco e silêncio. A Papudinha, nesse enredo, não é só um lugar, é um lembrete: que no Brasil, a punição também tem hierarquia, e a plateia finge que isso é “debate sobre direitos”.

Enquanto isso, na outra ponta do palco, Damares resolveu entregar nomes e endereços de igrejas e pastores investigados na CPMI do INSS, mas só depois de levar puxão de orelha do Malafaia, que fez o que faz melhor: transformou indignação em show e show em tribunal. Chamou a senadora de “linguaruda”, exigiu lista, ameaçou vídeo, invocou Satanás, e a política brasileira, que não perde uma chance de virar esquete do Porta dos Fundos, aceitou o convite. É o país onde pastor faz coletiva no Instagram e senadora responde com nota e o pobre do aposentado roubado continua no rodapé, como se fosse figurante do próprio golpe.

O truque é sempre o mesmo: o Brasil ama a frase forte e detesta a prova chata. Damares diz que as informações são públicas, oficiais, documentais, aprovadas, tudo certinho no papel, mas o que viraliza não é a planilha, é a treta. Malafaia diz que ela generalizou ao dizer “grandes igrejas” e “líderes renomados” sem dar nome aos bois, como se o plural fosse mais perigoso do que o consignado comendo dois milhões de contracheques por mês.

No fim, a CPMI vira ringue e a fraude agradece, porque nada protege mais um esquema do que uma briga barulhenta de foice entre gente que é apaixonada por um microfone.

E aí o país se comporta como sempre: discute com paixão a forma e ignora o conteúdo. Discute se Damares foi leviana, se Malafaia foi grosseiro, se a igreja foi “denigrida”. Agora, quando o assunto é aposentado que teve a vida sugada por contrato suspeito, ninguém nem sabe por onde se começa a reclamar. O presidente da CPMI fala em milhares de documentos, centenas de empresas suspeitas, prorrogação por sessenta dias, suspensão de quase dois milhões de consignados, e isso deveria ser o centro do noticiário. Mas o centro dá sinal de ocupado. Ocupado pela Papudinha, pela treta ou com medo da fogueira de vaidades no ato de fofocar celebridade presa como se fosse eliminação do BBB.

No fundo, a Papudinha e a CPMI contam a mesma história com figurinos diferentes: a da exceção como estilo de vida. Bolsonaro troca de prisão e ganha acompanhamento em tempo real. A CPMI rastreia dinheiro e ganha espuma, corte e torcida. Entre o púlpito que pede silêncio “para não entristecer o fiel” e a cela que vira pauta “para não entristecer o famoso”, sobra um Brasil que sempre acaba assim, sobrando: e qual, o Brasil do atalho, que prefere o escândalo fácil à investigação difícil. E é por isso que a principal notícia não é simplesmente que Bolsonaro foi para a Papudinha. A principal notícia é que a gente sabe disso de cor, discute isso com gosto e, mesmo assim, continua fingindo surpresa quando a regra vira regalia e o crime vira ruído.

A saída não é moralizar mais alto, nem odiar com mais energia (o pedido alheio) como se fosse justiça. A saída é insistir no chato que salva: faz prova, vive rito, caga regra, mastiga igualdade, e cospe consequência. Investigue com cuidado, puna com proporcionalidade, garanta o básico para todos, negue o supérfluo para qualquer um, e pare de transformar transferência de prisão em tapete vermelho.

Aí o dogma respeitoso da fé, volta de fato a ser fé, a cela volta a ser cela, e a Papudinha deixa de ser manchete porque “notícia” afinal, era para ser só isto: a lei sem sobrenome, sem cameraman e sem tapete vermelho pomposo com ar-condicionado agressivo.

PS: acho que já chega de mimimi: vão ficar chorando até quando, pedindo travesseiro, luz quente e acolhimento emocional pra mamar nas tetas do Estado? Acho que agora tá joia, visto que nunca na história desse país, uma língua presa, custou tão caro pro erário quando se resolve virar bússola de terraplanista.

A realidade deu uma volta completa e estacionou do lado de dentro na grade, que é o lugar onde bandido tem que ficar. Afinal, bandido bom é bandido morto (ao menos de tédio), sem palanque, sem plateia e sem microfone para pregar a palavra de “perseguição” pra supremacista babaca bater palma e chamar de tortura. Aqui não tem epopeia, tem rotina vestindo laranja. Aqui não tem narrativa de cercadinho, tem o “clac” do cadeado no portão respondendo por escrito. E se a saudade do espetáculo apertar, paciência: a vida real não dá bis, só dá tranca com recibo, sem drama em high definition. E quando o portão fecha, a República finalmente muda de canal: sai o reality, entra a papelada. E o melhor plot twist é esse mesmo, bem Veríssimo: não tem vilão derrotado, temos somente o básico funcionando, que no Brasil já é absolut cinema.

E a Papudinha, cá entre nós, sempre esteve de braços abertos, como quem diz “pode trazer o choro, mas deixa o roteiro e vela lá fora que a cela já fechou. E como domingou, o desejo do Café com Cinismo é só um:

Bom dia, que o sol nasceu quadrado lá na Papudinha!

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 18/01/2026
  • Fonte: Sorria!,