A luta contra o alcoolismo
Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo é lembrado hoje (20)
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 20/02/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Bernardino Freitas, um homem de 60 anos oriundo de Miracema do Norte (TO) e residente em Brasília (DF) há sete anos, encontrou apoio ao compartilhar sua trajetória de superação. Ao escutar relatos semelhantes, ele percebeu que não estava sozinho na luta contra o vício em álcool, um desafio que buscou deixar para trás após reconhecer os limites de sua saúde e bem-estar. “Fui procurar ajuda no Caps (Centro de Atenção Psicossocial) quando percebi que havia ultrapassado o limite”, relata.
A transformação na vida de Bernardino ocorreu após se ver preso a uma rotina de excessos, passando os dias em bares e notando a deterioração de sua saúde. Com a pressão emocional da esposa e filhos, ele decidiu buscar apoio profissional e, felizmente, está há dois anos longe do vício. “Hoje me sinto muito melhor”, afirma com alívio. Em homenagem ao Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, celebrado nesta quinta-feira (20), Bernardino compartilha sua experiência positiva em grupos terapêuticos, onde se conecta com outras histórias de vida.
O aumento do consumo de álcool em sua vida estava ligado à perda da profissão como jardineiro devido a uma cirurgia na coluna que o aposentou precocemente aos 45 anos. “Esse momento difícil me levou ao vício. Pedir ajuda foi uma decisão acertada“, reflete Bernardino.
Papel do SUS
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece um tratamento acessível e gratuito para dependentes de álcool. De acordo com informações do Ministério da Saúde, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) conta com 6.397 unidades em todo o território nacional, incluindo 3.019 Caps. Essa vasta rede torna o Brasil um dos países com a maior infraestrutura em saúde mental do mundo.
Os Caps disponibilizam serviços variados que incluem intervenções psicossociais personalizadas e acolhimento familiar. O atendimento é livre, sem necessidade de agendamento para o primeiro contato, e as equipes são compostas por profissionais multidisciplinares aptos a atender todas as idades. Algumas unidades operam 24 horas por dia, oferecendo acolhimento noturno por até quinze dias mensais.
Desafios Persistentes
A socióloga Mariana Thibes, coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), destaca que apesar da gratuidade e acessibilidade dos serviços, muitos desafios ainda persistem no combate ao alcoolismo no Brasil. Ela enfatiza a necessidade de capacitação dos profissionais para identificação precoce dos problemas relacionados ao consumo abusivo de álcool, assim como uma maior disponibilidade de tratamentos medicamentosos nos municípios e um incremento no número de psiquiatras e psicólogos nos Caps-AD.
Mariana alerta também sobre as barreiras sociais enfrentadas por indivíduos com estigmas associados ao alcoolismo, que dificultam a busca por ajuda. Embora o Brasil tenha avançado nas últimas décadas nas políticas contra o alcoolismo, ela afirma que ainda há muito a ser feito para melhorar a situação atual.
Impactos da Pandemia
A pandemia da covid-19 impôs novos desafios para aqueles que lutam contra a dependência alcoólica. Muitos aumentaram o consumo como forma de enfrentar as dificuldades impostas pelo isolamento social. A superlotação dos serviços durante esse período resultou na interrupção do tratamento para muitos pacientes, levando a um aumento nas taxas de mortalidade relacionadas ao alcoolismo.
Desigualdades Raciais e Gênero
Dados alarmantes revelam que 72% das mulheres com transtornos relacionados ao uso de álcool pertencem à população negra. Mariana explica que essa estatística não reflete um maior consumo nessa demografia, mas sim desigualdades no acesso à saúde de qualidade. Muitas pessoas negras vivem em áreas com infraestrutura deficiente e escassez de recursos médicos, dificultando seu acesso aos cuidados necessários.
Além disso, a discriminação racial pode resultar em diagnósticos tardios e tratamentos inadequados, agravando os problemas de saúde mental nessa população vulnerável.
Regulação Publicitária
A legislação brasileira estabelece restrições à publicidade de bebidas alcoólicas; no entanto, canais digitais como redes sociais carecem de regulamentação específica. Mariana aponta que estudos demonstram que 98% das publicações sobre álcool no TikTok promovem uma imagem positiva da substância.
Sinais da Dependência
A psiquiatra Olivia Pozzolo enfatiza que a prevenção das doenças relacionadas ao consumo abusivo deve ser uma responsabilidade compartilhada entre o Estado e as famílias. Sinais como a incapacidade de controlar o consumo ou o uso contínuo apesar das consequências negativas devem ser monitorados.
Ela recomenda um ambiente familiar acolhedor e sem julgamentos para apoiar aqueles que buscam tratamento especializado.
Apoio Comunitário: Alcoólicos Anônimos
A Irmandade Alcoólicos Anônimos é um exemplo notável do suporte comunitário na luta contra o alcoolismo. Com quase 90 anos de história, esta organização opera em 180 países e possui mais de 3 mil grupos ativos no Brasil. A adesão requer apenas o desejo sincero de parar de beber.
Ana*, uma participante da irmandade, relembra sua jornada desde os 12 anos consumindo álcool até encontrar apoio no AA aos 19 anos: “Salvou minha vida”. Ela destaca como essa experiência transformou seu futuro pessoal e profissional.
Outro membro do AA reforça a importância das reuniões regulares para manter sua sobriedade: “Esses encontros foram cruciais para restaurar minha vida e propósitos”.