A crise dos 20 e poucos anos: Um desafio em meio à era digital
Especialista alerta sobre os impactos da comparação e indica caminhos para o equilíbrio emocional
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 04/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Multiplan MorumbiShopping
O Brasil é, infelizmente, o país com o maior número de pessoas com ansiedade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Cuidar da saúde mental se tornou uma preocupação global, e para muitos jovens adultos, essa jornada é ainda mais intensa, especialmente durante a chamada “crise dos 20 e poucos anos”.

Nessa fase da vida, somos constantemente bombardeados com perguntas sobre o futuro: o que vamos estudar, quando vamos casar, ter filhos… Mas raramente alguém pergunta o que realmente nos faz feliz. A sociedade, muitas vezes, associa sucesso e realização a bens materiais e exibições nas redes sociais. Quem “tem mais” ou “luxa mais” é percebido como completo, enquanto aqueles que ainda buscam seu caminho ou não alcançaram seus sonhos são taxados de “perdidos” ou infelizes.
As redes sociais, em particular, se transformam em uma verdadeira competição de vidas, e é nesse ambiente que a ansiedade muitas vezes se instala. A busca por uma vida “perfeita”, mesmo sabendo que ela não existe, e a pressão para “conquistar o mundo antes dos 30” são sentimentos comuns.
Gustavo Rodrigues, de 24 anos, morador de São Bernardo do Campo, conhece bem essa realidade. Ele relata o peso das comparações: “Muitas vezes eu deixo esse sentimento de comparação tomar conta de mim. Às vezes já entro no Instagram sabendo que vou sair de lá um pouco abalado. Por exemplo, é um dia de feriado, eu estou trabalhando, e entro e vejo as pessoas nas praias, fico me sentindo um fracassado, sabe? Esse é um exemplo besta, mas é um sentimento que muitas vezes me domina”. Ele completa, “Para quem não entende, parece um sentimento de inveja, mas não é, é um sentimento de ‘será que estou fazendo algo certo na minha vida?’, aí que entra a comparação.”
Pedro, também morador de São Bernardo do Campo, destaca a pressão em relação às perguntas sobre o futuro. Ele ressalta que, apesar da terapia ajudar, é difícil escapar da mentalidade social que supervaloriza conquistas materiais maiores. “As pessoas não querem saber se você está feliz porque comprou uma bicicleta, elas querem saber quando você vai comprar uma moto, porque na visão deles isso é mais valioso”, desabafa.
A crise dos 20 e poucos anos
A chamada “crise dos 20 anos e pouco anos” muitas vezes é provocada por comparações com a vida de amigos e conhecidos que parecem estar seguindo caminhos diferentes e muitas vezes mais bem-sucedidos. A psicóloga Maria Eduarda oferece algumas orientações para lidar com esses sentimentos e evitar “cair” nessa armadilha das comparações:
“A comparação é algo que, até certo ponto, faz parte da nossa natureza humana. Desde muito cedo, a gente aprende olhando para o outro — observando os comportamentos, as atitudes, os exemplos. Quando somos crianças, nossos pais, cuidadores ou pessoas próximas funcionam como um espelho, e é assim que vamos construindo nossa forma de agir no mundo. Então, de certa forma, a comparação começa como uma tentativa de aprender, se desenvolver e até se inspirar. Crescemos com esse olhar voltado para fora — querendo entender o que é certo, o que é sucesso, o que é aceito, o que funciona. Mas acontece que, em um determinado momento, essa comparação começa a ganhar outro peso. Em vez de funcionar como algo construtivo, ela passa a gerar sofrimento, principalmente quando estamos mais inseguros, insatisfeitos ou com a autoestima fragilizada. Muitas vezes, quando nos sentimos perdidos ou não conseguimos enxergar valor na nossa trajetória, é mais fácil acreditar que a vida do outro é melhor. Isso acontece porque a gente começa a projetar no outro uma vida mais feliz, mais completa, mais ‘certa’. E quanto mais insatisfeitos estamos com a nossa, mais idealizamos a do outro. É como se a comparação virasse uma lente que só mostra o que nos falta — e não o que a gente já tem. Muitas vezes a gente se compara sem nem questionar se aquilo que o outro tem realmente faria sentido pra gente. Às vezes, estamos apenas repetindo o que a sociedade espera, seguindo um padrão que é visto como o ideal, mas 1ue nem combina com nossos valores. Então, antes de querer estar no lugar do outro, é importante se perguntar: “Será que, se eu estivesse na vida dessa pessoa, eu estaria feliz de verdade?, explica a psicóloga Maria Eduarda.
”Evitar a comparação não é fácil — mas é possível transformar esse olhar. Uma das formas é construir, aos poucos, uma base mais sólida de autoestima e autoconhecimento. Quando a gente se sente segura com quem é e com o que está construindo, o sucesso do outro deixa de ser uma ameaça e pode se tornar até uma inspiração. O importante é entender que cada pessoa tem uma história, um ponto de partida, oportunidades e desafios diferentes. Então, ao invés de se comparar para se diminuir, a gente pode usar esse olhar para refletir: ‘O que nessa comparação está querendo me dizer sobre mim? Será que posso aprender algo com isso? Será que posso usar isso como motivação para cuidar do que está me incomodando em mim?'”, complementa.
Como lidar com a angústia que vem da comparação com a vida dos outros?

A psicóloga explica que a angústia, como qualquer emoção, carrega uma mensagem. Em vez de
rejeitá-la, é importante acolhê-la e se perguntar: O que essa angústia está tentando me mostrar? Talvez seja sinal de que estou me sentindo estagnada, com medo de não dar conta, ou tentando seguir padrões que nem sei se são meus.
“Essa angústia geralmente nasce da forma como interpretamos o que vemos: achamos que a vida do outro é perfeita e a nossa não, e esquecemos de considerar que a realidade do outro é só dele — e que muitas vezes o que vemos nem é real. Quando nossos pensamentos seguem esse padrão de generalização ou desvalorização pessoal (‘eu nunca vou conseguir’, ‘todo mundo é melhor que eu’), alimentamos ainda mais essa sensação de vazio. Por isso, além de acolher a angústia, é essencial observar quais pensamentos estão sustentando esse sentimento. Reavaliar se essa comparação faz sentido, se aquilo que estou desejando é mesmo importante para mim, e lembrar que cada pessoa tem oportunidades, contextos e desafios diferentes”.
Redes Sociais X Saúde mental
É evidente que a pressão social e a cultura das redes sociais intensificam a crise dos 20 e poucos anos, um período já marcado por incertezas e expectativas. A sensação de estar “perdido” ou “atrasado” em comparação com os outros é um reflexo direto da forma como a sociedade valoriza conquistas materiais e uma imagem de “vida perfeita”, muitas vezes distante da realidade. Para Maria Eduarda reduzir o impacto das redes sociais sobre a nossa saúde mental passa, antes de tudo, por trazer mais consciência para o que consumimos e como interpretamos aquilo.
“É preciso lembrar que o que é postado é um recorte — e geralmente é o recorte mais bonito, organizado e bem-sucedido. As pessoas escolhem o que mostrar e, muitas vezes, o que não aparece diz muito mais. Um relacionamento que parece perfeito pode estar enfrentando dificuldades; uma conquista pode ter vindo de muito esforço, dívidas ou sofrimento que não são expostos”, explica a psicóloga.
Confira dicas de atitudes que ajudam a reduzir esse impacto:
- Não tome como verdade absoluta tudo que você vê.
- Evite comparar sua vida inteira com um fragmento do outro.
- Diminua o tempo de uso quando perceber que aquilo está afetando sua
autoestima. - Curadoria do seu feed: siga pessoas que te fazem bem e que mostrem
conteúdos reais, possíveis, humanos - Volte seu olhar para si. Qual é a sua realidade? Quais são as
suas conquistas? Onde você está agora e para onde quer ir? O valor da sua
vida não se mede por curtidas nem por padrões sociais. O que importa é
viver com sentido, de forma autêntica — e isso, rede social nenhuma pode
substituir.
Estratégias para superar a crise de ansiedade causadas por essas comparações
Crises de ansiedade geralmente surgem quando alimentamos muitos pensamentos negativos e acelerados sobre nós mesmos e sobre o que vemos ao redor. Pensamentos como “eu estou atrasada”, “eu nunca vou conseguir”, “todo mundo está melhor que eu” criam um cenário interno de ameaça que
ativa esse estado de ansiedade intensa. “O primeiro passo é trabalhar os pensamentos: entender que nem tudo o que vemos nas redes sociais é verdade, que as conquistas do outro não diminuem as nossas e que cada um tem sua história, seu tempo e suas possibilidades. Fortalecer a autoestima, reconhecer o próprio valor e entender que não precisamos seguir tudo o que a maioria está fazendo são atitudes fundamentais. Além disso, em momentos de crise aguda, técnicas de regulação emocional podem ajudar muito”, relata a psicóloga.
Técnicas:
Respiração diafragmática: Inspire lentamente pelo nariz contando até 4, segure o ar por mais 4 segundos, e expire lentamente pela boca contando até 6. Repita algumas vezes até o corpo começar a relaxar.
Técnica dos 5 sentidos: Uma forma de trazer a atenção para o momento presente. Observe:
5 coisas que você pode ver;
4 coisas que pode tocar;
3 coisas que pode ouvir;
2 coisas que pode sentir o cheiro;
1 coisa que pode sentir o gosto.
De acordo com a psicóloga, essas estratégias ajudam a desacelerar o corpo e a mente, nos tirando daquele “modo alerta” causado pelos pensamentos distorcidos. E, claro, se crises se tornarem frequentes, buscar apoio profissional é essencial.
Maria Eduarda: uma jornada de superação e acolhimento na psicologia

Aos 26 anos, Maria Eduarda Oliveira da Silva não é apenas uma psicóloga clínica com especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental, mas também uma voz empática e inspiradora na promoção da saúde mental. Com quase 4 anos de atuação, seu foco principal tem sido o atendimento a mulheres que enfrentam sintomas de ansiedade, um tema que ressoa profundamente com sua própria história de vida.
Sua história com a ansiedade começou cedo, aos 12 anos, com o diagnóstico de vitiligo. Naquela época, a condição era alvo de muito preconceito e desinformação, gerando em Maria Eduarda sentimentos de exclusão, medo do julgamento e insegurança social. Evitar lugares, sofrer com a autoestima e sentir-se “menor” por conta da aparência eram realidades que moldaram sua adolescência e a acompanharam por um longo período.
Mesmo durante a graduação, as dificuldades persistiram, incluindo o medo de se expressar, de cometer erros e de ser exposta. Contudo, foi precisamente esse processo de superação que a impulsionou a se aprofundar na psicologia e, posteriormente, a transformar sua história em uma ponte de acolhimento para outras mulheres.
Hoje, além do atendimento em consultório, Maria Eduarda compartilha conteúdo sobre ansiedade e saúde mental em seu Instagram, oferecendo informações acessíveis, acolhedoras e práticas. Sua missão é clara: mostrar que, com o apoio adequado, é possível viver com menos ansiedade, menos medo e menos autojulgamento. Ela acredita firmemente que a ansiedade não precisa ser paralisante; pelo contrário, pode ser compreendida, tratada e, finalmente, ressignificada.
Maria Eduarda defende a importância do cuidado com a saúde mental, acreditando que o mundo se torna um lugar melhor quando as pessoas têm a oportunidade de se conhecerem, se curarem e se respeitarem.

