A batalha do Alegrinho

Em plena manhã de janeiro, um pequeno pássaro desafia o barulho urbano e prova que até o menor dos seres pode vencer o caos da cidade com seu canto

Crédito: Ilustração criada por IA (ChatGPT/OpenAI)

Gosto das manhãs de janeiro. Por morar em uma cidade grande e ter que encarar o trânsito diariamente, em janeiro, com as férias escolares, a quantidade de veículos nas ruas é menor. Poder prestar menos atenção aos carros me permite observar outros elementos da paisagem que são ocultados pelo caos cotidiano dos dias letivos.

Em uma dessas manhãs, presenciei uma batalha épica. Eu estava caminhando e precisava atravessar uma grande avenida próxima de minha casa. Naqueles segundos, enquanto aguardava o sinal de pedestres permitir minha travessia, minha atenção foi curiosamente direcionada para um trino, um assobio peculiar. Olhei ao redor para encontrar de onde vinha o som e observei que o canoro era um minúsculo Serpophaga subcristata, um Alegrinho de não mais de 10 centímetros de altura. Empoleirado bem acima do semáforo, ele tecia sua música de notas agudas, espaçadas, com sequências aceleradas e repetidas.

Aquela forma diminuta performava sua melodia com entusiasmo, encarando o barulho caótico do movimento de carros, motos e caminhões que passavam bem abaixo dele. Um motor mais estridente desafiava nosso Alegrinho, que não se sentia intimidado e elevava ainda mais os decibéis de sua performance. Ele se mantinha impávido, motivado e concentrado em sua missão de vencer o concerto das máquinas brutas de ferro e óleo com seu monólogo sonoro.

Ao longe, eu vi um gigante de 15 toneladas se aproximando. Pela velocidade, seu motorista estava atrasado para uma entrega, que deveria ocorrer ainda naquela manhã. A força extra sobre o motor fazia o monstro de aço grunhir e cuspir fumaça tóxica assustadoramente. Imaginei que seria o fim de nosso pequeno guerreiro de seis gramas. A massa de ar deslocada pelo Iveco seria suficiente para soprar o palco pelos ares. Mas aquelas frágeis garras, feitas de ossinhos ocos, delicados, se agarraram ao metal do sinaleiro e, contrariando toda a lógica, mantiveram nosso desafiante em seu posto. Seu contragolpe foi imediato. Trinos e gorjeios foram ouvidos de ambos os lados da avenida, mostrando que a batalha havia sido ganha.

Como se tivesse sido declarado um vencedor, houve silêncio. As luzes mudaram para vermelho, os motores reduziram suas rotações, aguardando a chamada para o novo round. O Alegrinho estava satisfeito: nenhuma máquina humana era páreo para a força dos pulmões, as vibrações da garganta e o design daquele bico. Declarando a luta terminada, o pássaro alçou voo e partiu sem um destino claro. E a mim, que testemunhei todo o embate, coube apenas a tarefa de atravessar a rua e escrever este relato.

Thiago Quirino

Thiago Quirino - ABC do ABC
Divulgação/ABCdoABC

Thiago é jornalista por formação e contador de histórias por vocação. Com mais de 15 anos de experiência entre redações, agências e instituições públicas, percorreu os vastos territórios da comunicação com olhar atento e escuta refinada. Formado pela Universidade Cruzeiro do Sul, especializou-se em comunicação estratégica, media training e gestão de crises, competências que o conduziram a posições de liderança, como Secretário de Comunicação de Ribeirão Pires e diretor de redação em diversos veículos. Atualmente, está à frente da Diretoria de Produtos Editoriais do portal ABC do ABC. Quirino acredita, com alma e método, que a comunicação bem feita não apenas informa, mas tem o poder de transformar realidades.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 21/07/2025
  • Fonte: Multiplan MorumbiShopping